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11/12/2008 - 12h19

Crise econômica - Da bolsa de valores ao bolso do consumidor

Da bolsa de valores ao bolso do consumidor

José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Atualizada em 18/12/2008, às 11h20

Todos os dias somos bombardeados com notícias sobre a crise econômica global. Algumas delas negativas, como empresas despedindo trabalhadores, e especialistas fazendo previsões sombrias para 2009, com o alerta de que o pior ainda está por vir. Outras, positivas, como o megapacote de investimentos anunciado pelo presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, que animou o mercado financeiro, e o crescimento recorde do PIB (Produto Interno Bruto) no Brasil.

Em meio a tanto sobe e desce das bolsas, com o presidente Lula pedindo para as pessoas consumirem e economistas falando em cautela e contenção dos gastos, é normal que o cidadão fique completamente incerto sobre o futuro - a curto e médio prazo.

A má notícia é que a incerteza faz parte do processo. Há um consenso de que a crise vai nos atingir no Brasil, mas qual será seu verdadeiro impacto na economia? Em termos de previsão, o sistema financeiro é semelhante ao clima: alguns fenômenos são de difícil acerto. Pode vir uma breve chuva de verão ou um temporal que provoque catástrofes como a de Santa Catarina.

A boa notícia, é que, sobrevivendo à crise, podemos aprender algo com isso e aperfeiçoar o sistema econômico.

Face aos acontecimentos das últimas semanas, uma coisa é certa: a crise financeira que começou no mercado imobiliário nos Estados Unidos e se espalhou como um vírus no mercado financeiro mundial chegou à economia, isto é, saiu dos limites do mundo "imaterial" das ações nas bolsas e câmbio e atingiu o cotidiano das pessoas, onde elas recebem salários e compram tomates na feira. Como isso aconteceu?

Crise no mercado imobiliário

Uma coisa básica no capitalismo moderno é sua incrível dinâmica. As pessoas precisam gastar para as empresas venderem, continuarem produzindo e pagarem seus funcionários, cujas famílias consomem também, realimentando o ciclo.

O capitalismo, portanto, não pode ser muito estático, com o governo regulando e taxando as operações financeiras a ponto de inibir iniciativas privadas. É necessário haver certa flexibilidade, que traz consigo riscos, insegurança e expõe o sistema a crises periódicas.

Crises econômicas, desta forma, fazem parte do jogo. Elas ocorrem desde o século 17, e as soluções da última trazem as sementes da próxima. A crise atual é um exemplo disso.

Depois da chamada "bolha" da internet, em 2001, uma das medidas adotadas nos Estados Unidos para estimular consumo e produção foi a redução da taxa de juros para empréstimos.

Os norte-americanos começaram então a comprar casas e apartamentos, seduzidos pelas prestações com juros baixos (que chegaram a 1% ao ano). Essas mesmas pessoas enxergaram no mercado imobiliário uma oportunidade de ganhar dinheiro, refinanciando a casa - dando como garantia o próprio imóvel - e usando o dinheiro do banco para pagar as prestações e obter lucro.

Os bancos, por sua vez, transformaram as hipotecas (as casas oferecidas como garantia de pagamento) em títulos e repassaram aos investidores.

O problema foi que a inflação levou à alta das taxas de juros, provocando queda no preço dos imóveis e aumento nas mensalidades. Os mutuários não tiveram mais como pagar os financiamentos, os bancos perderam dinheiro com os calotes e os títulos tiveram o valor reduzido.

Crise de confiança

Basicamente, o que mantém o sistema funcionando é a confiança. Quando se perde a confiança, os bancos deixam de oferecer crédito e as empresas abandonam negócios de risco, em busca de segurança.

Se o Zezinho é mau pagador, não emprestamos mais dinheiro ao Zezinho e suas notas promissórias perdem o valor no comércio local. Sem dinheiro, o Zezinho não compra mais lanche na cantina da escola que, por sua vez, reduz a produção de lanches, não consegue pagar as fornecedoras e precisa cortar gastos, demitindo os funcionários.

Em resumo, quem tem dinheiro não quer mais emprestar, com medo de calotes, e quem precisa não consegue crédito na praça. Com isso, o dinheiro circula menos, as pessoas não consomem e cai o faturamento das empresas. Uma construtora, por exemplo, depende de empréstimos para construir um prédio. Sem dinheiro, abandona o projeto e os pedreiros ficam desempregados.

É nestas situações que o governo interfere, salvando instituições financeiras com dinheiro público (pode parecer injusto dar dinheiro para especuladores que causaram a crise, mas é a única forma de evitar maiores danos), colocando mais dinheiro em circulação e regulando o mercado, por exemplo.

A questão é que um problema local, que começou com o Zezinho, prejudica o mundo todo. Como a economia norte-americana é a maior do mundo, todos os outros países dependem dela, inclusive o Brasil.

Recessão

Um dos efeitos da crise econômica é um período de recessão. Recessão ocorre quando, sem novos investimentos e desaquecimento do consumo, há queda na produção e conseqüente decréscimo no PIB, a soma das riquezas produzidas de um país, por um período prolongado. Dados do National Bureau of Economic Research (NBER), um dos órgãos mais respeitados do setor, apontaram recentemente que os Estados Unidos estão em recessão desde 2007.

Em dezembro de 2008, o governo brasileiro tentou mais uma vez tranqüilizar a população, apresentado dados que mostram que o PIB do Brasil cresceu em 6,8% nos últimos doze meses, a maior taxa acumulada desde 1996.

Isso significa que estamos livres da recessão? Por enquanto sim, mas os impactos desta crise, dizem especialistas, serão sentidos a médio prazo. É quase certo, diante do cenário atual, que o Brasil acumule perdas a partir do próximo ano.

Uma das causas, mais uma vez, está ligada ao crédito, que a indústria e o comércio brasileiro deixam de conseguir junto aos bancos. Outro motivo é que consumidores dos Estados Unidos e Europa, que já enfrentam a recessão, param de comprar produtos nacionais, provocando queda nas importações, além das multinacionais, que suspendem planos de investimentos no país.

A alta do dólar também tem culpa no cartório. O dólar fica mais caro porque é considerado investimento seguro, mas isso encarece produtos importados (que pode ser até uma peça para seu computador) e aumenta a inflação, de novo reduzindo o poder de consumo.

Ao olharmos para os dados positivos do PIB deste ano, estaríamos, na verdade, olhando para o passado, como um astrônomo que observa as estrelas à noite, admirando o brilho que leva anos para chegar à Terra. Por isso, é uma ilusão pensar que o Brasil é um oásis em meio à turbulência.

Política

E o futuro? 2009 é um ano de costuras políticas visando a sucessão presidencial em 2010, e o presidente Lula vai fazer de tudo para minimizar os efeitos da crise no Brasil (lembrando que a recessão nos Estados Unidos foi um dos fatores determinantes para a vitória de Obama sobre o presidente Bush e seu candidato John McCain).

Enfrentar a crise, a pior desde a Segunda Guerra Mundial, é reformular nossas crenças e aprender com a experiência. Neste sentido, ela serve para apontar nossas fragilidades e reforçar nossa capacidade criativa de responder aos desafios, na tentativa de corrigir os rumos da economia.
* José Renato Salatiel é jornalista e professor universitário
Os textos publicados antes de 1º de janeiro de 2009 não seguem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A grafia vigente até então e a da reforma ortográfica serão aceitas até 2012

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