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30/10/2008 - 15h16

Crise financeira

A situação atual e a Grande Depressão

Antonio Carlos Olivieri*
Da Página 3 Pedagogia & Comunicação
Página 3

Placa da célebre rua que abriga o centro financeiro dos Estados Unidos

Desde meados de setembro, a crise econômica deflagrada pela situação do mercado imobiliário dos Estados Unidos se transformou no principal assunto dos noticiários de todos os veículos de comunicação. O pânico que se espalhou no mercado financeiro, e em especial nas bolsas de valores, rapidamente contaminou a imprensa e alguns analistas econômicos que - na tentativa de explicar com um exemplo o que está acontecendo no mundo hoje - recorreram ao crash da bolsa de valores de Nova York, em 24 de outubro de 1929, e à Grande Depressão subseqüente.

Diante de uma situação surpreendente e inusitada, diante das incertezas por ela colocadas, é compreensível que se recorra a um fato semelhante já conhecido, como forma de tentar estabelecer parâmetros e atribuir uma dimensão mais precisa àquilo que está ocorrendo. No entanto, devido às suas proporções, a crise de 1929 ainda tem um grande impacto no imaginário norte-americano e mundial. Por isso, uma comparação da crise atual com a Grande Depressão talvez contribua mais para amplificar o pânico do que na compreensão da crise da atualidade.

Circunstâncias históricas

Sob o ponto de vista histórico, tudo indica que a comparação entre o momento atual e o deflagrado pelo crash de 1929 não é procedente. Há várias diferenças entre o mundo de hoje e o daquela época que apontam nesse sentido. Em primeiro lugar, existem atualmente organismos como o Fundo Monetário Internacional preparados para atuar em situações de emergência e que já estão atuando. Isso não existia na década de 1930.

Em segundo lugar, há uma grande diferença entre a atuação dos governos da atualidade e os daquela época. Nos Estados Unidos dos anos 1930, o governo do presidente Herbert Hoover, seguindo os princípios clássicos do liberalismo, preferiu deixar que os problemas do mercado fossem resolvidos pelo próprio mercado, sem que houvesse qualquer intervenção do Estado. O resultado foi a quebradeira generalizada e a depressão econômica.

Hoje, ao contrário, o governo George W. Bush já empenhou vultosos recursos para evitar a quebra ou falência de instituições financeiras. A atuação do governo americano rapidamente encontrou eco junto aos governos da União Européia, que também passaram a intervir no mercado de modo a impedir quebradeiras. No Reino Unido - o berço do liberalismo - o primeiro ministro Gordon Brown não hesitou em apelar para a estatização de bancos, o que contraria frontalmente os princípios do pensamento econômico liberal.

Diferença de cenário

O cenário econômico internacional de hoje também é diferente daquele que se via na terceira década do século passado. O economista Jeffrey Sachs, da Universidade de Columbia (EUA), lembra que, apesar da retração da economia norte-americana, há outros países que continuam em ritmo de crescimento e com reservas financeiras para emprestar aos países em dificuldade. Sachs cita a Alemanha, o Japão, a Arábia Saudita e a China. Vale lembrar que a Rússia já manifestou disposição de emprestar US$ 4 bilhões à Islândia, país atingido em cheio pela crise financeira.

A situação dos chamados países emergentes, como a Rússia, a Índia e o Brasil, também pode contribuir para a atividade econômica mundial não sofrer uma contração tão grande que passe do patamar de uma recessão para o da depressão, muito mais grave. A propósito, o consultor Stephen Kanitz traz dois dados numéricos significativos.

Segundo ele, o desemprego nos Estados Unidos, na pior das hipóteses, deve aumentar 3% e só nos próximos dois anos, ao passo que, a partir de 1929, 25% dos trabalhadores norte-americanos perderam seus empregos e por mais de uma década. Igualmente, Kanitz lembra que na Grande Depressão 4 mil bancos quebraram, enquanto até o momento nenhum banco foi à falência.

Aqui cabe uma pequena explicação: por banco, o consultor se refere aos bancos comerciais e não aos bancos de investimento. Foram estes últimos, cuja característica é uma atuação ousada, em investimentos de alto risco, que se tornaram os protagonistas da crise, por emprestarem mais do que podiam a quem não podia pagar os empréstimos. É nessa categoria que se enquadra o Lehman Brothers, que faliu em setembro.

Ciência humana

Enfim, por enquanto, há vários pontos que impedem traçar um paralelismo entre a crise atual e a Grande Depressão da década de 1930. Só não se pode deixar de lembrar que a economia se inclui entre as ciências humanas e não entre as ciências exatas. No âmbito da economia, encontram-se componentes relacionados à mentalidade e ao comportamento das pessoas. Também se trabalha com base em expectativas do que pode acontecer em cenários futuros.

Em outras palavras, todas essas diferenças são suficientes para garantir que a crise atual não terá os desdobramentos catastróficos como os da crise de 1929? Como disse Alan Greenspan, o ex-presidente do Fed (Federal reserve, o banco central dos Estados Unidos) a uma Comissão da Câmara dos Representantes de seu país que examina as causas da atual crise econômica: "previsões nunca são 100% exatas".
*Antonio Carlos Olivieri é escritor, jornalista e diretor da Página 3 Pedagogia & Comunicação. olivieri@pagina3ped.com
Os textos publicados antes de 1º de janeiro de 2009 não seguem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A grafia vigente até então e a da reforma ortográfica serão aceitas até 2012

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