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28/01/2010 - 20h00

Eleições no Chile

Direita volta ao poder

José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
 Foto: José Cruz/ABr

O então candidato à presidência do Chile, Piñera, é recebido pelo presidente Lula em 24/11/2009

Com a eleição do empresário Sebastián Piñera para presidente, o Chile apostou na alternância de poder e equilibrou um pouco mais o cenário político da América Latina. Numa disputa apertada, a direita chilena conseguiu a primeira vitória em mais de meio século e rompeu 20 anos de predomínio da coalizão de centro-esquerda que governa o país desde o fim do regime militar (1973-1990).

Direto ao ponto: Ficha-resumo

O Chile é hoje, 2010, uma das economias mais prósperas da América do Sul, com estabilidade política raramente encontrada na região. Situação bem diferente do período em que o general Augusto Pinochet conduziu uma das ditaduras mais sangrentas do século 20. Estima-se que até 10% da população chilena tenha sido afetada diretamente pela repressão, que teve um saldo de 3.197 mortos ou desaparecidos e 28 mil torturados em 17 anos.

Pinochet subiu ao poder graças a um golpe militar que depôs o presidente Salvador Allende, primeiro socialista eleito presidente na América Latina, em 1970. Na época, Allende implementou um programa de estatização que piorou a crise econômica no país. As medidas também confrontaram interesses econômicos dos Estados Unidos, que apoiaram a ditadura de Pinochet.

Em outubro de 1988, Pinochet realizou um plebiscito, sob pressão da comunidade internacional para que o país se democratizasse. Na consulta popular, os chilenos recusaram a continuidade do mandato do presidente por mais oito anos. No ano seguinte, foram convocadas eleições.

Desde 1990, o Concertação - partido de coalizão de centro-esquerda - governa o Chile. Diferente do socialismo estatizante de Cuba, por exemplo, o partido adotou medidas que atraíram investimentos, flexibilizaram a economia (dependente da exportação de cobre) e reduziram a pobreza. Isso tornou a nação, entre as sul-americanas, a mais forte candidata a entrar no restrito rol de países ricos.

Popularidade

A atual presidente do Chile, Michelle Bachelet, é a quarta governante consecutiva do Concertação e a primeira mulher a ocupar o cargo. Ela foi eleita em 2006 para um mandato de quatro anos, sem direito à reeleição.

A despeito de ter começado o governo enfrentando protestos, Bachelet terminou o mandato como a presidente com maior popularidade da América Latina. Ela possui um índice de aprovação de 81%. Para efeito comparativo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, considerado o mais popular da história recente do Brasil, possui pouco mais de 70%. A popularidade da presidente se explica principalmente pela forma como administrou o país durante a crise econômica mundial, no ano retrasado.

Mesmo assim, Bachelet não conseguiu transferir votos para o candidato governista, o ex-presidente Eduardo Frei, que ficou em segundo lugar, com 48,39% dos votos no segundo turno, realizado no dia 18 de janeiro de 2010.

Sebastián Piñera obteve uma vantagem de apenas 3,2 pontos percentuais, vencendo as eleições com 51,6% dos votos. Ele se candidatou pela Coalizão pela Mudança, que reúne os partidos de direita União Democrática Independente e Renovação Nacional.

De acordo com especialistas, o resultado é fruto do desgaste natural da esquerda no poder. Outro fator se deve à própria biografia do candidato governista. Frei foi presidente entre 1994 e 2000 e terminou o mandato mal avaliado, devido aos efeitos da crise asiática no país. Além disso, quando era presidente, permitiu que Pinochet, que estava detido em Londres, retornasse ao país. O ex-ditador morreu sem ser acusado por nenhum crime de violação dos direitos humanos. Isso custou a Frei tanto a perda de aliados quanto de votos da esquerda chilena.

Empresário

Por outro lado, a direita conseguiu se desvincular da imagem de Pinochet e assimilar em seu discurso o compromisso com programas sociais. O presidente eleito, Piñera, é um dos principais empresários do país, com patrimônio de US$ 1,2 bilhão. Ele é dono da companhia aérea LAN, da TV Chilevisión e do time de futebol Colo Colo, entre outras empresas.

Quando Allende foi derrubado, em 1973, Piñera iniciava um curso de mestrado em Boston, nos Estados Unidos. Em 1988, votou contra Pinochet no plebiscito que permitiu a redemocratização do país, mesmo sendo do partido de direita e ter apoio, até hoje, de simpatizantes e pessoas ligadas ao ditador. Em 1989, foi eleito senador, cargo que ocupou por oito anos. Em 2005, candidatou-se à presidência pela primeira vez e foi derrotado por Bachelet no segundo turno.

Na campanha presidencial deste ano, Piñera prometeu criar programas sociais, nas áreas de Saúde e Educação, voltados às camadas mais pobres. Ele também garantiu dar continuidade aos programas de Bachelet. O empresário é o primeiro presidente de direita eleito no Chile desde Jorge Alessandri (1958 a 1964). Ele assume o cargo em 11 de março de 2010.

Chávez

Partidos de direita adotam uma política conservadora e economia de mercado. São tradicionalmente associados aos regimes militares que governaram países latino-americanos entre os anos 1960 e 1980, no período da Guerra Fria (1945-1989).

Já os partidos de esquerda defendem um papel maior do Estado sobre a economia e a sociedade, além de priorizarem programas de assistência social.

Nos últimos anos, governos populistas de esquerda chegaram ao poder em países como Venezuela, Bolívia, Chile, Equador e Nicarágua. Tal fato coincidiu com a diminuição da influência dos Estados Unidos na região.

É nessa conjuntura geopolítica que o Chile atuará, agora, como contrapeso. O presidente eleito chileno deve se aliar ao presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, ser um antagonista do venezuelano Hugo Chávez e fornecer um modelo para partidos de direita na região.

As eleições chilenas reproduziram uma situação parecida com a brasileira, onde a principal candidata governista, Dilma Rousseff, depende do apoio do presidente Lula para conseguir votos. A eleição para presidente no Brasil acontece em outubro de 2010.

Direto ao ponto volta ao topo
O empresário Sebastián Piñera foi eleito novo presidente do Chile no segundo turno das eleições, em 18 de janeiro de 2010. Ele teve 51,6% dos votos, enquanto o segundo colocado, o candidato governista e ex-presidente Eduardo Frei, obteve 48,39%.

Piñera se candidatou pela Coalizão pela Mudança, que reúne os partidos de direita do Chile. Com sua vitória, a direita retorna ao poder depois de mais de 50 anos, quebrando a hegemonia de 20 anos do Concertação - partido de coalizão de centro-esquerda.

O Chile é hoje uma das economias mais prósperas da América do Sul. Mas durante 17 anos, de 1973 a 1990, foi palco de uma das ditaduras mais sangrentas do século 20: o regime do general Augusto Pinochet, que depôs o presidente socialista Salvador Allende.

Piñera se distanciou dessa herança e prometeu implementar programas sociais voltados à população mais carente. Ele é um dos principais empresários do país, com patrimônio de US$ 1,2 bilhão.

O empresário também deve desequilibrar a geopolítica regional, aliando-se ao presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, e opondo-se ao venezuelano Hugo Chávez.

Saiba mais

  • Os Anos do Condor: uma década de terrorismo internacional no Cone Sul (Companhia das Letras): livro de John Dinges que conta a história da Operação Condor, uma aliança entre ditaduras sulamericanas para perseguir e assassinar dissidentes políticos.
  • A Caravana da Morte (Revan): livro reportagem da jornalista Patricia Verdugo sobre missão de oficiais do Exército chileno para executar contestadores do regime, que serviu de base para processos no país.
  • Missing - desaparecido (1982): filme dirigido por Costa-Gavras, baseado na história real da morte do escritor americano Charles Horman nos porões da ditadura de Pinochet, logo após o golpe, em 1973.
  • Machuca (2004): filme, ambientado no período no governo socialista de Salvador Allende, sobre dois garotos de classes sociais diferentes que se tornam amigos.
*José Renato Salatiel é jornalista e professor universitário.
Os textos publicados antes de 1º de janeiro de 2009 não seguem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A grafia vigente até então e a da reforma ortográfica serão aceitas até 2012

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