31/03/2005 - 11h57
Ambiente
Cientistas prevêem colapso na capacidade de produção do planeta
Da Folha de S.Paulo
Foto da Nasa mostra região do Caribe
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A humanidade está esgotando os bens e serviços naturais oferecidos pelos ecossistemas globais. O resultado é um colapso futuro na capacidade de produção do planeta, cujo primeiro efeito prático deve ser a impossibilidade de atingir as metas das Nações Unidas de combate à fome em 2015.
Quem diz isso desta vez não são os ambientalistas, mas um grupo de 1.350 cientistas de 95 países, inclusive o Brasil. De 2001 a 2005, sob a égide da ONU, eles produziram o diagnóstico mais completo já feito da saúde dos ecossistemas e de sua relação com a manutenção da vida humana. O esforço resultou num relatório apresentado a governos do mundo inteiro.
As conclusões da chamada Avaliação Ecossistêmica do Milênio, como quase tudo o que diz respeito ao ambiente global, são desalentadoras: quase dois terços dos chamados serviços ambientais estão em declínio acelerado. Isso significa que a capacidade do planeta de fornecer peixe e água, reciclar nutrientes do solo, minimizar o impacto de desastres naturais (como o maremoto de dezembro na Ásia) e controlar o clima local está comprometida.
Pior ainda: as alterações feitas nos ecossistemas, especialmente nos últimos 50 anos, estão provavelmente aumentando o risco de mudanças abruptas, como explosão de epidemias -como a de cólera que afetou a África subsaariana durante o El Niño de 1997/ 98-, eutrofização de águas costeiras e mudança climática regional, induzida por desmatamento.
Para quem acha que mudanças ambientais não passam de ameaças intangíveis pairando sobre as próximas gerações em algum futuro remoto, a Avaliação do Milênio tem uma projeção imediata: a degradação dos solos e a baixa disponibilidade de água doce, especialmente na África e no sul da Ásia, devem impedir o mundo de alcançar o chamado Objetivo do Milênio de cortar pela metade o número de famintos em 2015.
"Um dos poucos serviços ambientais em ascensão é a produção de alimentos, mas não ao ponto de atingir os objetivos [de desenvolvimento] do milênio", disse à Folha o engenheiro florestal Rodrigo Victor, do Instituto Florestal de São Paulo, que participa de uma das etapas do diagnóstico.
Quatro cenários montados pelos cientistas para o futuro prevêem, ainda, que mais 10% ou 20% das florestas do mundo serão convertidas em lavoura e pasto até 2050 e que a superexploração dos estoques de peixe deva crescer ainda mais. Três deles projetam um aumento de 10% a 20% no fluxo de nitrogênio para águas costeiras, ampliando a eutrofização e a perda de biodiversidade.
Contas
Uma das recomendações do estudo aos tomadores de decisão é uma reestruturação na maneira dos economistas de fazer contas.
Até agora, a maioria dos serviços ambientais pertence ao reino daquilo que os economistas chamam de "externalidades", ou seja, fatores que não interferem nos custos econômicos. O valor da polinização de lavouras por insetos que habitam uma floresta vizinha, por exemplo, não é computado na hora de calcular o valor total daquela floresta.
Um estudo feito em dez países do Mediterrâneo e citado no relatório mostrou, por exemplo, que serviços como recreação, seqüestro de carbono, produtos florestais não-madeireiros e proteção de mananciais respondiam por até 96% do valor total das florestas. Esses serviços são desperdiçados quando uma floresta é convertida em pasto ou plantação pelo valor da sua madeira. Algo equivalente a queimar dinheiro.
"A degradação dos serviços de ecossistemas representa a perda de um ativo", afirmam os cientistas. Como tal degradação não aparece na balança comercial, países como o Equador, o Cazaquistão e a Etiópia, que tiveram um aumento de seu PIB em 2001 e experimentaram perda de florestas e recursos energéticos, teriam na verdade prejuízo caso o passivo ambiental fosse incluído.
A maioria dos serviços ambientais ainda não têm um mercado, embora o seqüestro de carbono já seja valorável com a entrada em vigor do Protocolo de Kyoto.
Mesmo assim, os custos associados à perda de alguns desses serviços já se fazem sentir. Que o digam os pescadores de bacalhau da Terra Nova, no Canadá, que tiveram de parar de trabalhar nos anos 90 pelo esgotamento do peixe, com prejuízo de US$ 2 bilhões.
No Reino Unido, os prejuízos causados pela agricultura a água, solos e biodiversidade em 1996 foram de US$ 2,6 bilhões, ou 9% da receita agrícola dos país na década de 90. E as perdas econômicas causadas por desastres naturais no mundo cresceram dez vezes de 1950 a 2003 -para US$ 70 bilhões por ano. Números que não são ladainha de ambientalista.
A modificação dos ecossistemas nos últimos 50 anos
Gases-estufa - A concentração de dióxido de carbono na atmosfera cresceu 32% de 1750 até hoje. Cerca de 60% desse aumento ocorreu após 1959;
Solos - Mais terras foram convertidas em lavoura e pasto após 1945 do que nos séculos 18 e 19 somados. Hoje, a agropecuária ocupa quase 30% da superfície do planeta;
Represas - O volume de água em represas quadruplicou desde 1960. Hoje, há até seis vezes mais água em reservatórios do que em rios;
Biodiversidade - Nos últimos séculos, os humanos aceleraram a taxa de extinção. Hoje, de 10% a 30% das espécies de anfíbio, mamífero e ave estão ameaçadas;
Corais - Cerca de 20% dos recifes foram perdidos nas últimas décadas, e 20% foram degradados. Nesse período, 35% dos manguezais foram perdidos.
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