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Biografias

Publisher da Folha

Octavio Frias de Oliveira

5/8/1912, Rio de Janeiro (RJ)
29/4/2007, São Paulo (SP)

Da Redação
Em São Paulo

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O publisher Octavio Frias
no centro gráfico da Folha

O empresário Octavio Frias de Oliveira nasceu no Rio de Janeiro, no bairro de Copacabana, em 5 de agosto de 1912, e morreu em São Paulo, em 29 de abril de 2007. Frias era o penúltimo dos nove filhos do casal Luiz Torres de Oliveira e Elvira Frias de Oliveira. Na época, seu pai era juiz de direito em Queluz, no interior paulista. Pertencia, porém, a uma família com raízes tradicionais no Rio. O bisavô do recém-nascido fora o barão de Itambi, político influente no Segundo Reinado.

Em 1918, Octavio Frias de Oliveira veio de Jundiaí (SP) para São Paulo, quando seu pai licenciou-se da magistratura (à qual só retornaria em 1931) para trabalhar com o industrial Jorge Street. Na capital paulista, o futuro empresário cursou o Colégio São Luís, mantido por padres jesuítas e um dos mais conceituados da cidade. Premido por sérias dificuldades financeiras que a família enfrentava, no entanto, Frias deixou o colégio aos 15 anos, para começar a trabalhar.

Seu primeiro emprego (1927) foi como office-boy na Companhia de Gás de São Paulo, que pertencia, como grande parte dos serviços públicos da época, a empresários ingleses. Em três meses foi promovido a mecanógrafo, ou seja, operador de máquinas de contabilidade. Em 1930, foi convidado e aceitou um posto na Secretaria da Fazenda do Governo do Estado, a fim de organizar a confecção mecânica dos tributos estaduais. Em 1940, já era diretor do Departamento Estadual do Serviço Público, respondendo pela diretoria de Contabilidade e Planejamento.

Embora adotasse, desde cedo, uma atitude algo cética em relação à política, alistou-se nas tropas da Revolução Constitucionalista, que eclodiu em julho de 1932. Permaneceu dois meses em Cunha, na região do Vale do Paraíba, onde passou o aniversário na trincheira, participou de escaramuças e viu companheiros serem mortos. Acreditava que a ação militar contra o governo central, entretanto, era uma aventura fadada ao fracasso e não alimentava simpatia pela liderança oligárquica do movimento. Nos anos seguintes, manteve-se distante tanto do comunismo como do integralismo, as duas correntes que empolgavam a juventude. Seus interesses estavam na atividade empresarial, a que passou a se dedicar a partir do início da década de 40, contrariamente aos conselhos de seu pai, que prezava a estabilidade do serviço público.

Quando menino, Octavio Frias de Oliveira assistiu a inúmeras discussões entre seu pai e seu tio-avô, o empresário Jorge Street, grande industrial do setor têxtil. Street foi um pioneiro que ergueu três impérios empresariais e foi três vezes à falência. Construiu, quinze anos antes da Revolução de 30 e do advento das leis trabalhistas, a Vila Maria Zélia, no Brás, que provia os operários de moradia, escola e assistência médica. Frequentemente, as discussões entre o juiz e o industrial, parentes por casamento, versavam sobre as vantagens e desvantagens da social-democracia escandinava, que despertava, então, grande curiosidade.

Em 1943, Frias participou, na condição de um dos acionistas-fundadores, do estabelecimento do Banco Nacional Imobiliário (BNI, mais tarde Banco Nacional Interamericano), sob a liderança de Orozimbo Roxo Loureiro. Como diretor da carteira imobiliária, lançou um programa de condomínios a preço de custo. Foi construída, assim, mais de uma dezena de prédios, entre eles o Copan, que viria a se tornar um dos símbolos de São Paulo. Convidado por Frias, de quem se tornou amigo, Oscar Niemeyer projetou ainda, além do Copan, a Galeria Califórnia, na rua Barão de Itapetininga, um prédio na praça da República e outro na rua Direita, antiga sede das Indústrias Matarazzo. Um discípulo de Niemeyer, o arquiteto e pintor Carlos Lemos, projetou na mesma época, com financiamento do BNI, o Teatro Maria Della Costa. Cândido Portinari e Di Cavalcanti fizeram painéis para alguns desses edifícios e também se tornaram amigos de Frias. Como diretor de banco, viajou várias vezes aos Estados Unidos, onde tomou contato com a cultura empresarial norte-americana e foi fortemente influenciado por ela.

Seis meses depois de Frias deixar o banco, por divergências quanto à administração dos negócios, o BNI foi adquirido pelo Bradesco, após ter entrado em liquidação. Frias fundou uma empresa própria (Transaco-Transações Comerciais) em 1953, uma das primeiras firmas especializadas na venda de ações diretamente ao público. Traduziu para o português o livro "Do Fracasso ao Sucesso na Arte de Vender", clássico comercial do norte-americano Frank Bettger, e organizou cursos de vendas - o que era inédito no Brasil - para uma equipe que chegou a contar com 500 vendedores. Data deste período sua primeira ligação com a imprensa: a Transaco prestou serviços profissionais à "Tribuna da Imprensa", o jornal carioca de Carlos Lacerda, e à "Folha da Manhã", então dirigida pelo advogado José Nabantino Ramos, um dos pioneiros na introdução da psicanálise em São Paulo. Nabantino havia transformado um diário pouco expressivo num jornal moderno. Em 1960, o advogado reuniria três títulos da empresa (o carro-chefe "Folha da Manhã", a "Folha da Tarde" e a mais antiga "Folha da Noite", fundada por Olival Costa e Pedro Cunha em 19 de fevereiro de 1921) num só jornal - a "Folha de S.Paulo".

Em 1948, Frias se casou com sua primeira mulher, Zuleica Lara de Oliveira, que faleceu em acidente de automóvel em 1955, na rodovia Presidente Dutra. Casou-se novamente um ano depois, com Dagmar de Arruda Camargo, que já tinha uma filha de casamento anterior, Maria Helena, e com quem teve três filhos: Otavio (1957), Maria Cristina (1960) e Luiz (1963).

Em 1954, o empresário comprou um pequeno sítio nas proximidades de São José dos Campos, no interior paulista. Mas as intenções de lazer não duraram muito tempo. Logo o sítio se transformou em granja e depois num empreendimento avícola de porte, que chegou a manter um plantel de 2 milhões de aves. Atualmente, a Granja Itambi se dedica apenas à pecuária de leite.

Associado ao empresário Carlos Caldeira Filho, Frias fundou a Estação Rodoviária de São Paulo, inaugurada em 1961. Mas o principal empreendimento dos dois sócios seria concretizado pouco depois, em 13 de agosto de 1962, com a aquisição da Folha de S.Paulo, que então disputava com o "Diário de S.Paulo" a posição de segundo jornal da capital paulista e que atravessava período de dificuldades financeiras. Agastado com a greve dos jornalistas de 1961, Nabantino decidira se desfazer do controle acionário do jornal.

Frias e Caldeira, respectivamente presidente e superintendente da empresa, voltaram-se à tarefa prioritária de recuperar o equilíbrio financeiro do jornal. Para dirigir a Redação, Frias nomeou o cientista José Reis, um dos criadores da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Trouxe para integrar a equipe o responsável pela modernização do rival "O Estado de S.Paulo", o jornalista Cláudio Abramo, que viria a suceder a Reis e manter, com Frias, uma produtiva convivência profissional que se prolongou por mais de vinte anos. Em 1964, a Folha de S.Paulo apoiou a derrubada do presidente João Goulart e o estabelecimento de um regime de tutela militar - temporária, conforme se acreditava - sobre o país.

Superada a fase de adversidades econômico-financeiras, a nova gestão passou a se dedicar à modernização industrial e à montagem de uma estrutura de distribuição de exemplares que alicerçou os saltos de circulação que estavam por vir. Foram comprados novos equipamentos e impressoras nos Estados Unidos. Em 1968, a Folha se tornava o primeiro jornal latino-americano a ser impresso no sistema "off-set". Em 1971, outro pioneirismo: os moldes de chumbo passavam à história e o jornal adotava a composição "a frio". O jornal crescia em circulação e melhorava sua participação no mercado publicitário.

No final dos anos 60, Frias chegou a organizar o embrião de uma rede nacional de televisão, congregando à TV Excelsior de São Paulo, líder de audiência cujo controle adquiriu em 1967, mais três emissoras no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Por insistência de Caldeira, porém, os dois sócios abandonaram a empreitada em 1969.

Mais ágil e inovador do que o concorrente tradicional, a Folha ganhava espaço junto às camadas médias que ascenderam com o "milagre econômico", fixando-se como publicação de grande presença entre jovens e mulheres. Ao mesmo tempo, dedicava-se com desenvoltura crescente a áreas do jornalismo até então pouco exploradas, como o noticiário econômico, esportivo, educacional e de serviços. A partir do final de 1973, o jornal passou a adotar uma atitude política mais independente e afirmativa, em vez da "neutralidade" acrítica do intervalo 1968-1973. A Folha apoiou a idéia da abertura política e se colocou a serviço da redemocratização, abriu suas páginas para todas as tendências de opinião e incrementou o teor crítico de suas edições.

Frias acreditava firmemente na filosofia editorial de uma publicação isenta e pluralista, capaz de oferecer o mais amplo leque de visões sobre os fatos. Encontrou um colaborador habilitado em Cláudio Abramo, responsável pela área editorial entre 1965 e 1972, sucedido por Ruy Lopes (1972/73) e Boris Casoy (de 1974 a 1976) e reconduzido a essa função em 1976, onde permaneceu até 1977, quando Casoy, em meio à crise provocada por uma articulação do regime militar contra o presidente Ernesto Geisel, foi convidado por Frias a retornar ao cargo. Abramo reformulou o jornal, fez a primeira (1976) de uma série de reformas gráficas que se sucederiam, reuniu colunistas como Janio de Freitas, Paulo Francis, Tarso de Castro, Glauber Rocha, Flavio Rangel, Alberto Dines, Mino Carta, Osvaldo Peralva, Luiz Alberto Bahia e Fernando Henrique Cardoso. A Folha se transformava num dos principais focos de debate público do país. Ao contrário das expectativas, essa linha editorial foi preservada e desenvolvida durante o período em que Casoy foi editor responsável (1977-1984).

Em 1983/84, a Folha foi o baluarte do movimento Diretas-Já, a favor de eleições populares para a Presidência da República, na imprensa. Apoiou o Plano Cruzado em 86 e fez campanhas contra o fisiologismo político durante o governo José Sarney, manifestando-se contrária à prorrogação do mandato presidencial. Manteve-se em posição crítica durante a ascensão e o apogeu de Fernando Collor. Embora apoiasse suas propostas de liberalização econômica, foi a primeira publicação a recomendar o impeachment do chefe do governo, afinal consumado em 1992. Em 1986, tornou-se o jornal de maior circulação em todo o país, liderança que mantém desde então. Em 1995, um ano depois de ultrapassar a marca de 1 milhão de exemplares aos domingos, a Folha  inaugurou seu novo parque gráfico, considerado o maior e mais atualizado tecnologicamente na América Latina, um projeto orçado em US$ 120 milhões.

Atualmente, a Folha é o centro de uma série de atividades na esfera da indústria das comunicações, abrangendo jornais, banco de dados, instituto de pesquisas de opinião e de mercado, agência de notícias, serviço de informação e entretenimento em tempo real, gráfica de revistas e empresa transportadora.

Em 1991, Frias e Caldeira decidiram dissolver a sociedade que mantinham, cabendo ao primeiro a empresa de comunicações e ao segundo os demais negócios e imóveis em comum. A partir de meados da década de 80, Octavio Frias de Oliveira transferiu a operação executiva para seus filhos Luiz e Otavio, respectivamente nas funções de presidente e diretor editorial do Grupo Folha. Continuou, porém, orientando as decisões estratégicas e participando ativamente do dia a dia do jornal,  acompanhando os números da empresa, definindo a linha dos editoriais, criticando reportagens ou recomendando pautas jornalísticas. Embora tivesse sempre afirmado não ser jornalista, mas empresário, era frequente que Frias trouxesse "furos" de reportagem, como a notícia de que o estado de saúde de Tancredo Neves era muito mais grave do que afirmavam, em janeiro de 85, médicos e autoridades do novo governo.

Consolidado o seu papel na imprensa brasileira, o Grupo Folha passou a investir em novas tecnologias. Em 1996, lançou o UOL (Universo Online), provedor de conteúdo e de acesso à Internet. Em setembro do mesmo ano, houve a fusão do Universo Online com o Brasil Online, do Grupo Abril, constituindo-se, então uma nova empresa, o Universo Online S/A, presidida por Luiz Frias, filho de Octavio Frias de Oliveira. Essa foi a primeira associação envolvendo dois dos maiores grupos de comunicação do país.

Em setembro de 1999, o UOL anunciou a venda de 12,5% de sua participação acionária. O acordo garantiu a obtenção de recursos que permitiram sustentar seu crescimento no Brasil e expandir suas operações na América Latina, na península Ibérica e no mercado hispânico dos EUA. Na ocasião, a empresa passou a chamar-se UOL Inc. S/A. A partir daí, ramificou sua atuação e se consolidou também como uma empresa de tecnologia, em setores como comércio e pagamento eletrônico, jogos, sites de relacionamento, armazenamento e processamento de dados em larga escala e soluções de TI (tecnologia da informação).

No final de 2011, a Folhapar fechou o capital do UOL, ultrapassando 74% de participação acionária; o grupo de acionistas liderado pelo empresário João Alves de Queiroz Filho, controlador da holding Hypermarcas, permaneceu no UOL, com 25% das ações. Por acordo de acionistas, a gestão é do Grupo Folha.

Nova associação com outro grande grupo de comunicação do país foi anunciada em outubro do mesmo ano. O Grupo Folha e a Infoglobo Comunicações, que edita o jornal "O Globo", associaram-se para lançar o jornal "Valor", especializado em economia. A nova publicação, de circulação nacional, estreou em 2 de maio de 2000.

No 79º aniversário da Folha de S.Paulo, em fevereiro de 2000, Octavio Frias de Oliveira e o Grupo Folha foram homenageados pela Câmara dos Deputados em sessão solene, requerida pelos deputados Marcos Cintra (PL-SP) e Aloizio Mercadante (PT-SP). Ao encerrar a sessão, que contou com a presença de cerca de 80 deputados e senadores, o  presidente da Câmara,  Michel Temer (PMDB-SP) disse que ela foi "uma homenagem à democracia".

Em novembro de 2006, como decorrência de uma queda doméstica, o publisher da Folha foi submetido a cirurgia para remoção de hematoma craniano. Após alta hospitalar, suas condições clínicas pioraram, levando a um quadro de insuficiência renal grave. Frias morreu em 29 de abril de 2007, aos 94 anos. Após sua morte, a Prefeitura de São Paulo batizou com seu nome a ponte estaiada que liga a avenida Jornalista Roberto Marinho à marginal Pinheiros, na zona sul de São Paulo, aberta ao trânsito em maio de 2008. No mesmo mês, o governo do Estado inaugurou o Instituto do Câncer de São Paulo Octavio Frias de Oliveira, o maior centro oncológico da América Latina, na zona oeste paulistana.

Octavio Frias de Oliveira foi um homem de hábitos simples, quase espartanos, obcecado pelo trabalho. Empresário de sucesso, seus traços mais marcantes eram a inteligência prática e intuitiva, o tino comercial, a informalidade no trato, a curiosidade pelos empreendimentos produtivos e seu interesse por tudo o que fosse novo. Agnóstico em religião, liberal em política e economia, praticante de esportes, sua vitalidade extraordinária foi fonte de ânimo e inspiração para quem trabalhou ou conviveu com ele. Sua maior contribuição terá sido estabelecer para a imprensa brasileira um patamar inédito em termos de independência diante do poder político e econômico, de profissionalismo nos negócios da comunicação e de pluralidade e espírito público no jornalismo.

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