
| “O poder Legislativo cumpre papel imprescindível perante a sociedade do País, visto que desempenha três funções primordiais para a consolidação da democracia: representar o povo brasileiro, legislar sobre os assuntos de interesse nacional e fiscalizar a aplicação dos recursos públicos. [...] a Câmara dos Deputados compõe-se de representantes de todos os Estados e do Distrito Federal, o que resulta em um parlamento com diversidade de idéias, revelando-se uma casa legislativa plural, a serviço da sociedade brasileira.” |
A primeira observação a fazer é que a Câmara é um dos órgãos do poder Legislativo, que juntamente com um segundo órgão, o Senado Federal, compõem o Congresso Nacional. Além deles, também integra o mesmo poder o Tribunal de Contas da União (TCU), que presta assessoria à Câmara e ao Senado, especialmente no âmbito do uso do dinheiro público.
Independentemente dessa última entidade, é importante ressaltar que nosso Congresso é dito bicameral, justamente por ser composto por duas câmaras (ou assembléias), a dos Deputados, que também pode ser chamada de Câmara Baixa, e o Senado, ou Câmara Alta, sem que exista nessas expressões nenhum juízo de valor.
E a Câmara deve conter representantes desses diferentes grupos. No entanto, não se pode esquecer que a perfeição está no plano do ideal, no que se refere às realidades humanas. No mundo real, essa perfeição não existe nem pode existir, até porque - é bom lembrar -, a noção de perfeição implica uma coisa acabada e o mundo não acabou (pelo menos por enquanto), de modo que ele está sempre se fazendo e refazendo.
Isso não significa que a perfeição não deve ser desejada ou procurada. Muito pelo contrário, é essa busca (sem fim) que pode aperfeiçoar a civilização e tornar melhor a vida em sociedade.
Quer um exemplo bem claro? O relacionamento extraconjugal - isto é, o fato de uma mulher ter uma relação amorosa ou sexual fora do casamento, sem o conhecimento do marido - era considerado um crime pelo artigo 240 do Código penal brasileiro, que data de 1940.
Esse artigo foi revogado em 2005, uma vez que para a sociedade contemporânea a relação extraconjugal perdeu o caráter "criminoso" que tinha para a sociedade brasileira de 65 anos atrás. Além disso, a condição social da mulher mudou ao longo dessas sete décadas e ela adquiriu direitos legais iguais aos do homem.
Ou seja, as distorções não devem causar espanto nem escândalo. Só não podem ser motivo de resignação e conformismo. Lutar por alterações e transformações, por mais difíceis que estas possam parecer, faz parte do jogo político. É quando percebe os erros, as distorções, as defasagens existentes nas suas instituições, que a população ou parte dela começa a se manifestar, exercendo seu direito de exigir mudanças.
Além de grande, a Câmara dos Deputados do Brasil é desproporcional quanto à representação da população de cada Estado. A legislação em vigor fixa o número de deputados federais em 513, sendo que nenhum Estado pode ter menos de oito ou mais de 70 representantes, de acordo com o tamanho de sua população (veja quadro).
Agora note o problema que isso gera: Roraima tem cerca de 390 mil habitantes, 233 mil eleitores e 8 deputados; São Paulo tem cerca de 40 milhões de habitantes, 28 milhões de eleitores e 70 deputados. Divida o eleitorado pelo número de deputados e você vai ver que um deputado de Roraima precisa de 29 mil votos para se eleger. Em São Paulo, ao contrário, o candidato precisa de 400 mil votos.
Faça uma nova divisão, de 400 mil por 29 mil, e você chegará à conclusão de que um voto de Roraima equivale a cerca de 14 votos paulistas - o que é um contra-senso, pois, de acordo com a lógica um voto só pode equivaler a um voto, independentemente do Estado onde ele esteja sendo dado (vale esclarecer que os dois Estados foram tomados como exemplo por apresentarem, respectivamente, o menor e o maior eleitorado do país.)
Por fim, quanto à representatividade, as coisas na Câmara estão no seguinte pé: embora concentrem 62% do eleitorado do país, o Sul e o Sudeste têm apenas 48% do total dos deputados. Já o Norte, o Nordeste e o Centro-Oeste, com 38% do eleitorado, têm 52% das cadeiras da Câmara.
Você também pode se perguntar se o problema tem solução e ele com certeza tem, apesar de sua complexidade. Para resolvê-lo, os próprios representantes do povo vão ter que realizar vários debates no Congresso nacional, até chegar a um consenso e reformar a legislação que rege o assunto. Talvez, eles só venham a fazer isso quando o eleitorado pressioná-los, mas é assim mesmo que funcionam as coisas num regime democrático.
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