Nossas construções, do ecológico ao sustentável
Por Engel Paschoal
No começo, o termo era "ecológico". Agora, tudo ficou "sustentável". E muitos, infelizmente, usam a palavra apenas por causa do seu apelo de marketing. Porém, não podemos negar que a preocupação em construir respeitando o meio ambiente já existe há alguns anos entre nós.
Em agosto de 2001, o Edifício Maria Paula, no número 161 da rua com o mesmo nome, se tornou o primeiro do Centro da cidade de São Paulo a ser totalmente reciclado não apenas em termos de uso, mas também porque o entulho gerado foi triturado e transformado para ser reutilizado.
Construído na década de 50, o prédio teve seus 11 apartamentos de luxo, de 250 m2 cada, transformados em 75 unidades de 40 m2 para uma população com renda de até R$ 800 mensais da época.
O entulho, depois de triturado e transformado, teve três destinos: a própria obra, um aterro de estacionamento e obras de pavimentação da Prefeitura. A tecnologia para reuso do entulho veio da Holanda, onde, dizia-se, 95% de todos os restos de construção eram transformados para reutilização.
Casa "pré-histórica" do futuro
Chegou-se a falar até na casa do futuro que só usaria materiais que preservam a natureza. Elas seriam construídas com materiais "pré-históricos" como o barro e a madeira que, além de serem fontes inesgotáveis, não agrediam a natureza.
Isso pelo menos é o que havia sido apresentado durante o Fórum de Debates 2001 - Caminhos do III Milênio, realizado no auditório do Sebrae, na Ilha do Retiro, em Recife, PE. Também surgiram o cimento verde e a construção com garrafas PET.
Em 2003, foi erguida em Limeira, SP, "após análises de mercado", uma fábrica de "tijolos ecossociais", perfurados, produzidos com alta tecnologia e preço competitivo. Era uma parceria da TRW Automotive Ltda., multinacional fornecedora de peças automotivas, Comunidade Terapêutica Mais Vida, que oferece tratamento para dependentes químicos, e Unicamp (Universidade de Campinas).
A produção diária inicial de mil tijolos atendia a um duplo objetivo: servia como laborterapia aos dependentes químicos em fase de desintoxicação e gerava recursos para a entidade.
Em 2004, saiu o livro "Utilização de Resíduos na Construção Habitacional", sobre pesquisas para recuperação e valorização de resíduos.
Construtoras em ação
Claro que não demorou nada para as construtoras descobrirem os produtos ecologicamente corretos e lançarem seus prédios. Em decorrência disso, o Instituto Akatu, que prega o consumo consciente, resolveu, no final do ano passado, alertar que "muito se fala sobre construção sustentável, mas ainda é difícil encontrar empreendimentos ambientalmente corretos".
"Quem abre os cadernos de classificados dos grandes jornais em busca de imóveis ambientalmente corretos vai encontrar um grande volume de ofertas de áreas verdes e parques próximos ao condomínio, e uma enorme variedade de áreas de lazer e serviços. Mas será que isso representa, de fato, cuidado com o meio ambiente e preocupação com a sustentabilidade? Na verdade, muito pouco ou quase nada. A proximidade de parques facilita o contato com a natureza, mas isso não quer dizer que a construção e o funcionamento dos edifícios levem em consideração critérios ambientais. Para ser, de fato, um 'edifício verde' é preciso muito mais", dizia o boletim do Akatu (12/12/07).
Segundo o instituto, somente o selo Green Building da LEED, sigla em inglês para Liderança em Design Ambiental e Energético (Leadership in Energy and Environmental Design), realmente atesta se o edifício é uma construção verde. O selo tornou-se norma reconhecida internacionalmente a partir de 2004 e começa a aparecer também por aqui.
Em toda América Latina existe apenas uma construção contemplada com ele: a agência do Banco Real da Granja Viana, em São Paulo, certificada em junho de 2007.
São inúmeros os itens que têm de ser observados para se ganhar o selo, entre eles energia, água, lixo, ventilação e diversos quesitos relativos à construção. Claro que tudo isso implica em custo. Mas, se existe quem pode pagar, quem sabe isso não vai tornar tais construções mais acessíveis a nossos netos ou bisnetos?
Com Lucila Cano
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