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Microcrédito: criticado lá e elogiado aqui

Por Engel Paschoal
O professor de economia Muhammad Yunus descobriu que com US$ 27 (R$ 59,30 no câmbio oficial) muitas pessoas podiam montar seu próprio negócio, mudar de vida. Deu dinheiro do próprio bolso para algumas delas e foi um sucesso: uma mulher, por exemplo, comprou máquina de costura, foi bem sucedida e pagou o empréstimo antes do prazo. Yunus procurou apoio de bancos, mas nenhum topou. Ele, então, montou seu próprio banco, o Grameen Bank. Isso aconteceu em Bangladesh, um dos países mais pobres do mundo, em 1976. Assim nasceu o microcrédito, que se espalhou pelo mundo. O Grameen Bank já atendeu mais de 7,5 milhões de pessoas.

Por causa disso, Yunus ganhou admiradores no mundo inteiro e o prêmio Nobel da Paz de 2006. No entanto, a Rets (Revista do Terceiro Setor, de 21 de setembro de 2007) publicou uma longa entrevista com a belga Hedwige Peemans-Poullet, com críticas a ele.

Na época, ainda à frente da Universidade das Mulheres, ONG que ajudou a fundar, Hedwige fazia parte do governo da Bélgica como participante do Conselho para a Igualdade de Chances entre Homens e Mulheres, no qual presidia os grupos "gênero e saúde" e "gênero e regime fiscal".

Holding e magnata

"Para Hedwige, a escolha das mulheres como principal clientela do microcrédito - entre 75% a 100% das experiências ao redor do mundo, 97% no caso do Grameen Bank - é consequência de outro fenômeno mundial conhecido como a 'feminização da pobreza'. Segundo dados do PNUD [Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento], elas representam hoje 70% dos pobres do mundo", dizia a Rets.

Atualmente, o governo de Bangladesh é dono de 6% do Grameen Bank enquanto os restantes 94% são de todos os que emprestam dele, "que quando contraem um empréstimo são obrigados a comprar pelo menos uma ação do banco, mas não a podem vender depois - nunca".

Quem faz empréstimo tem também que respeitar as chamadas 16 decisões, a respeito das quais Hedwige dizia: "O que qualquer um de nós diria se, quando solicitássemos um empréstimo para comprar uma casa ou um carro, nós obrigassem a, em grupo, usar preservativo, escovar os dentes ou a deixar de fumar? Por que práticas tão humilhantes são aceitas quando se trata de mulheres pobres da área rural? É aceitável estabelecer um vínculo entre a obtenção de um empréstimo financeiro e os hábitos individuais na área da saúde ou de costumes locais?".

Para Hedwige, "Yunus comprova que, se muitos pobres emprestam pequenas somas, o negócio enriquece o banqueiro da mesma forma que se ele tivesse emprestado grandes somas a poucos indivíduos ricos. Em um quarto de século, o Grameen Bank transformou-se numa holding poderosa [com 17 empresas] e Yunus, de professor universitário, transformou-se em magnata".

Ela salientava ainda que "não se fala nunca do contexto em que foi criado o Grameen Bank, em 1976, quando Bangladesh vivia sob uma ditadura, que cancelou os subsídios agrícolas e levou a maior parte da população rural à miséria".

No Brasil, um mais avançado

Criado em 1998, o Banco Palmas, primeiro banco comunitário do país, funciona no Conjunto Palmeiras, a 20 km de Fortaleza. Ali, em vez de Serasa ou SPC (Serviço de Proteção ao Crédito), a ficha do interessado é levantada entre os vizinhos. E uma vez por mês os "banqueiros" - artesãos, costureiras e comerciantes - se reúnem para discutir carteira de crédito, taxa de juros, inadimplência. Os clientes usam também outra moeda além do Real: o Palma, que até agora não se alterou com a crise.

O banco nasceu da descoberta de que os moradores movimentavam quase R$ 2 milhões por mês, mas o dinheiro não circulava ali. As compras eram feitas em outros bairros.

Estudioso europeu de moedas não oficiais acha o Banco Palmas mais "avançado" que o Grameen Bank, porque "ajuda mais seus clientes a sair da pobreza" (ou seja, os seus juros são menores).

Outra experiência de sucesso é o Banco do Povo Paulista, instalado em mais de 430 municípios. Os empréstimos variam de R$ 200 a R$ 5 mil (pessoa física) e de R$ 200 a R$ 7,5 mil (pessoa jurídica), com juros de 1% ao mês. Desde 1998, já foram concedidos mais de R$ 540 milhões em empréstimos.

* Com Lucila Cano

Engel Paschoal

Jornalista é especialista em temas relacionados ao 3º setor.

E-mail: engelpaschoal@uol.com.br
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