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Reciclagem deixa catadores ao "Deus dará"

Por Engel Paschoal
Mais um 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente e/ou da Ecologia, oportuno para retomarmos o tema da reciclagem.

Para se ter idéia, desde setembro de 2001, quando lancei a coluna, já fiz ao menos nove textos, incluindo este, a respeito de reciclagem.

Pela ordem de data, foram os seguintes: Reciclagem, do problema à solução (18/2/02), Reciclagem vira moda (27/1/03), Reciclagem de pneus (31/3/03), Reciclagem: a indústria sustentada pelo desemprego (8/9/03), A reciclagem com foco na promoção social (1/10/07), Bons exemplos e exageros em nome da reciclagem (3/12/07), Reciclagem ajuda a pessoa a pagar a conta de luz e a empresa a economizar (31/12/07) e O outro lado da reciclagem (4/08/08).

Reciclagem e desemprego
O que percebo é que, nesses quase oito anos, a tônica da atividade permaneceu dentro de uma triste realidade, bem resumida no título "Reciclagem: a indústria sustentada pelo desemprego".

Isso foi confirmado na matéria "Reciclagem em baixa deteriora vida em favelas" (Folha de S.Paulo, 2/5/09), que diz: "Ao arrastar para baixo o preço do material para reciclagem (alumínio, ferro, papelão), a crise global piorou as condições já degradantes de vida dos jovens da favela Parque Fraternidade, em Duque de Caxias, na região metropolitana do Rio. A comunidade sobrevive, basicamente, da coleta de material do aterro de Gramacho".

Apesar de termos empresas criadas em cima do potencial da reciclagem como negócio, se não fosse a eterna falta de opção de emprego para uma determinada camada de brasileiros, a reciclagem não seria assunto para tantos textos, nem representaria a única tábua de salvação para certas pessoas.

O Brasil é dos poucos países no qual a atividade tem tamanha importância social. Dois títulos da grande imprensa, ambos de 2006, são esclarecedores por si só: "Brasil já exporta sua tecnologia da miséria urbana" e "Sucata vira pólo turístico na Alemanha".

Atividade insustentável
Por experiência própria, cheguei à conclusão de que mesmo nas empresas que tem na reciclagem uma atividade empresarial a situação nem sempre é confortável.

Pesquisando produtos apresentados há três ou quatro anos como parte do portfólio de algumas empresas, descobri que muitas delas já não os produzem mais, ao menos na quantidade desejada, por falta de retorno financeiro. Muitas simplesmente tiraram o produto de linha.

A grande ironia é que a maioria dos catadores vive uma situação de privações constantes e, na prática, de exploração comparável à da época da escravidão.

Catar no meio do lixo o que pode ser vendido como reciclagem os expõe a doenças as mais variadas. Além disso, os catadores tem que se contentar com os preços fixados pelos atravessadores. Eles, sim, em geral ganham dinheiro repassando quase sem trabalho e a baixíssimo custo aquele material a empresas.

Reconheço que seria pior se nem isso os catadores tivessem. Mas não posso deixar de condenar a total falta de interesse de quem poderia fazer alguma coisa para regulamentar tal atividade já que, em outros assuntos, os responsáveis se mostram mais atuantes.

Sei que nem todos os que compram dos catadores agem com desrespeito. Até porque, em decorrência de outros textos, já recebi e-mail de pessoas enfurecidas com minhas colocações, mostrando que o ganho delas não era assim "uma Brastemp".

*Com Lucila Cano

Engel Paschoal

Jornalista é especialista em temas relacionados ao 3º setor.

E-mail: engelpaschoal@uol.com.br
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