Transmitir conhecimento e formar cidadãos, o dilema das escolas
Por Engel Paschoal
Como parte da bibliografia de um livro que fui convidado a escrever, e que deverá ser lançado no último trimestre de 2010, acabei de ler (ou de conversar com ele, conforme gosto de fazer), "Educação e Valores", do brasileiro Ulisses F. Araújo e do espanhol Josep Maria Puig (Summus/07).
Sem falsa modéstia, venho discutindo há quase 50 anos muitas das idéias ali contidas porque, entre o final dos anos 1950 e começo dos 60, estudei no Seminário Menor Diocesano de São Carlos (SP), que adotava o método dirigido de ensino.
Isso dava aos alunos participação ativa no aprendizado, e eles não se restringiam a ir às aulas e a ouvir o professor. Nos dividíamos em grupos (eram 12, 15 alunos por classe) para, a partir do livro adotado para a matéria, pesquisar, desenvolver trabalhos e apresenta-los em classe ao professor e aos demais colegas.
Com base na ousadia do então cônego Fernando Saroni (depois ele se casou, teve uma filha e faleceu em 2003), a quem dediquei o livro "A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira (MegaBrasil/06 e Publifolha/07), a preocupação do seminário era construir cidadãos, apesar de ser uma instituição voltada à formação de padres da Igreja Católica.
O "bullying" urupeense
Um dos pontos-chave de "Educação e Valores" é mostrar o, no mínimo, duplo papel da escola - transmitir conhecimento e formar o cidadão -, que não é novo, mas ficou bastante desequilibrado de tempos para cá.
Lembro que, na época dos meus oito a 11 anos, quando estava no antigo grupo escolar (hoje da 3ª à 6ª série do fundamental), meus professores de Urupês (SP), onde nasci, já iam além da matemática, geografia, história etc. Um deles, Altair, que chegou a ser diretor da escola tempos depois, uma vez nos deu um ditado, no qual colocou algumas palavras de propósito, sem que soubéssemos, claro, para descobrir, por meio da semelhança das letras, quem havia enviado um anônimo e ofensivo bilhete a um colega da classe.
Isso hoje não é nada diante do desinteresse em aprender, da violência e do desrespeito contra a própria escola, alunos e professores, o que criou o neologismo "bullying", presente nos EUA, Japão, Europa.
Outro professor, Homero, falava que não devíamos levantar da mesa empanturrados: "É melhor sair com uns 20% de fome ainda". Hoje sabemos que o estômago leva 20 minutos para avisar que já comemos o suficiente. Ou seja, durante esse tempo corremos o risco de continuar comendo muito além do necessário, forçando não apenas a natureza, mas desperdiçando o que poderia servir para outros.
O socorro vem de fora
Para transmitir conhecimento e formar cidadãos ao mesmo tempo, nos últimos dez ou 15 anos as escolas começaram a receber ajuda de ONGs que se especializaram em educação, desenvolvendo programas para compensar a aquisição de conhecimento, que está em queda livre, com cursos de aceleração e adequação da idade do aluno com a série na qual ele deveria estar. Elas também desenvolvem a cidadania, aí incluídos o protagonismo, a preparação para o mercado de trabalho, o envolvimento com a comunidade no entorno da escola etc.
O problema, e "Educação e Valores" aborda muito bem isso, é equilibrar esses papéis. Aliás, o filme "Entre os Muros da Escola", vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2008, vai pelo mesmo caminho. Ele coloca, de um lado, um professor de francês vivido por François Bégaudeau, que é o autor do livro homônimo no qual o filme se baseou, e do outro, alunos negros africanos, asiáticos latino-americanos e franceses entre 13 e 15 anos. Apesar de focar mais a imigração, o filme dá um panorama dos problemas, infelizmente universais, que escolas e professores enfrentam hoje.
O filme e o livro do brasileiro e do espanhol não esgotam o assunto, nem dão uma receita para resolver a questão, mas podem nos levar à ação. Afinal cabe não só aos educadores, mas também aos pais, aos próprios alunos, a todos nós enfim partir para a ação.
* Com Lucila Cano.
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