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Muricy: o botão artilheiro e a ética em campo

Por Engel Paschoal
Uma das coisas que eu mais gostava de fazer quando estudei, entre final dos anos 50 e início dos 60, no Seminário Menor Diocesano de São Carlos, SP, era jogar futebol de botão.

Felizmente não havia esses jogos de botão de hoje, tudo de plástico. Cada um fazia o seu próprio time. Para jogadores da defesa usávamos botões de osso próprios para casacos, aqueles com uma elevação no local dos furos para passar a linha de costurar, o que os tornava mais "altos" e, portanto, melhores para "segurar" o ataque adversário.

E, no ataque, botões de galalite, um pouco mais leves (os jogadores podiam "correr" mais). Às vezes, usávamos também os de osso, mas sem o cocoruto. E cada um, com muito cuidado, lixava seus botões no cimento para tirar as bordas e eles poderem deslizar no "campo". Em geral, os guardávamos em latinhas de bala com um pouco de talco, o que os ajudava a "correr" mais.

Jogo solidário
Jogar futebol de botão era compartilhar com um amigo momentos muito peculiares e apreciados apenas para quem curtia o esporte. Tinha que haver um clima de solidariedade entre os dois jogadores. A começar pelo goleiro, que era o mesmo para os dois times.

O goleiro era uma caixa de fósforos com chumbo derretido ocupando o lugar dos palitos. A gente derretia um pouco de chumbo e colocava numa forma. Depois de seco e esfriado, ia para a caixa, às vezes recoberta com um pedaço de pano que costurávamos bem.

Havia uma regra clara para o goleiro: ele só podia ficar horizontalmente, ou seja, deitado sobre uma das partes usadas para riscar o palito. Não podia ficar na posição vertical, "de pé", isto é, sobre um dos lados que abríamos para pegar os palitos.

A rede, uma armação de arame com um pedaço de pano costurado, também era compartilhada pelos dois jogadores. Goleiro e rede ficavam de lado e só eram colocados em campo quando um dos jogadores avisava que ia "chutar" a bolinha, feita de cera, a gol.

O campo era desenhado com tinta branca em cima de uma mesa de madeira, em medidas proporcionais às de um campo oficial de futebol. Na hora em que um chutava a gol, o outro estendia os dois braços ao longo da mesa, atrás da rede, para aparar o botão adversário e impedir que ele caísse no chão.

Camisa 10 e goleador
Meu 10 era o único do time com nome na parte superior do botão: Muricy. Ele jogava no São Paulo na época e fazia em campo as proezas que o meu 10 fazia em cima da mesa: muitos gols, alguns encobrindo o goleiro. Disputei e ganhei alguns campeonatos com o meu São Paulo de botão e o meu Muricy de artilheiro.

Não preciso dizer o quanto fiquei triste com a arrogância dos dirigentes e o mau-caratismo de alguns jogadores e diretores que levaram à demissão de Muricy, o técnico que colocou a ética em campo: é transparente, não faz contrato por escrito, só na palavra e a respeita. Jamais aceita conversar com time que ainda tem técnico. E é sempre o primeiro a apoiar qualquer técnico demitido.

Sempre torci pelo Dunga como técnico da seleção, não porque o achasse competente, apesar de reconhecer que está indo bem, mas por medo de a CBF tirar o Muricy do São Paulo.

E não escondo que se o Palmeiras ganhar o brasileiro este ano, vou ficar feliz pelo Muricy ser o único e legítimo técnico tetra do País.

Infelizmente, perdi o meu São Paulo de botão e o meu Muricy artilheiro. Mas o verdadeiro já me deu muitas alegrias: não apenas títulos, mas também ensinando a uns e outros que, mesmo no futebol, a gente pode realmente fazer a diferença dentro e fora de campo.

* Com Lucila Cano

Engel Paschoal

Jornalista é especialista em temas relacionados ao 3º setor.

E-mail: engelpaschoal@uol.com.br
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