Ninguem dá a devida atenção ao meio ambiente
Por Engel Paschoal
Em 13 de setembro de 2004, escrevi: "A preocupação com o meio ambiente é importante no mundo todo. Mas no Brasil ela deve ser ainda maior. Afinal, nosso país tem pelo menos 13,7% da água doce disponível do planeta e mais de dois terços do maior aquífero subterrâneo do mundo, o Aquífero Guarani, além da floresta Amazônica, considerada o pulmão da Terra".
Eu dizia que, apesar disso, "temos nos portado de maneira muito irresponsável. Nossa média de desperdício de água é de 40%, duas vezes a média mundial. Ou seja, quase a metade do que é captado acaba se perdendo por vazamentos e outras falhas no sistema de distribuição, o que em termos exclusivamente monetários significa algo em torno de US$ 2 bilhões. E em 2003, o desmatamento da Amazônia foi de 23.750 km2, cerca de 2% mais que os 23.266 km2 de 2002. O total derrubado, de 1970 até agora, é 653 mil km2, área igual à de Portugal e da França juntos".
Em 9 de janeiro de 2006, eu disse que "a visão social do brasileiro é a de povo subdesenvolvido", segundo pesquisa feita em 20 países e divulgada no final de 2005. Chamou a atenção o número de respostas à pergunta "as grandes empresas estão fazendo um bom trabalho na construção de uma sociedade melhor para todos?". O número de brasileiros que concordaram (65%) e discordaram (32%) nos colocou em quinto lugar no cômputo geral.
Para ficar claro porque utilizei textos de anos atrás: num, mostrei a nossa irresponsabilidade com o meio ambiente e, noutro, que muitos acreditavam que as grandes empresas ajudavam a construir um mundo melhor.
Não priorizamos redução de poluição
Divulgada em final de abril de 2009, pesquisa da PricewaterhouseCoopers junto com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio confirmou que o meio ambiente ainda é mais discurso que prática: só 17% das empresas brasileiras de maior porte têm inventário de emissões de GEE (Gases do Efeito Estufa), apesar de 96% considerarem os impactos das mudanças climáticas relevantes no negócio delas.
E, segundo um estudo da Gartner, só 18% dos nossos empresários colocam as emissões como decisões estratégicas até 2011. Isso, apesar de cientistas, pesquisadores e economistas do mundo inteiro partilharem da mesma opinião: a mudança do governo Barack Obama em relação às emissões - ou seja, de ver na política ambiental fonte de recursos não só para a política energética mas também para a social - terá influência sobre todo o planeta.
Tapando o sol com peneira
Divulgada na Conferência Business for Social Responsibility 2009, que aconteceu em São Paulo em meados de outubro, pesquisa feita com mais de 270 líderes empresariais de 15 países mostrou que quase 90% deles manterão ou aumentarão o orçamento em sustentabilidade.
No que diz respeito ao Brasil, a verdade não é nada animadora. Estamos nos aproximando do ano de eleição para presidente da República. Como sempre, ninguém admite abertamente que é candidato, mas todo mundo já sabe quem de fato vai concorrer.
Não podemos nos esquecer que pela primeira vez nesta corrida devemos ter uma pessoa totalmente identificada com a política do meio ambiente. Entretanto, segundo a arguta observação de um dos maiores jornais do país, "Alçado a protagonista na agenda da corrida presidencial após a entrada da senadora Marina Silva (PV-AC) na disputa sucessória, o tema do meio ambiente não decolou nas propostas orçamentárias para 2010 dos principais presidenciáveis".
Tudo isso é preocupante. Se vivemos no país que tem senão a melhor, sem dúvida alguma, uma das melhores heranças da natureza, e continuamos não arcando com a responsabilidade que daí decorre, não poderemos depois nos queixar das consequências.
* Com Lucila Cano
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