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A vírgula e o aposto

Por Thaís Nicoleti

“A presidente eleita Dilma Rousseff recebeu nesta terça-feira uma atualização sobre o andamento do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) na área de transportes. Os dados foram apresentados pela coordenadora-geral do programa, Miriam Belchior, e o ministro Paulo Sérgio Passos (Transportes).”

Quase todo o mundo já aprendeu que o “aposto” é um termo que deve vir separado por vírgulas. De modo geral, isso é verdade. É preciso, no entanto, compreender que existem diferentes apostos, o que interfere na pontuação.

Em primeiro lugar, o aposto que requer vírgulas é o explicativo, aquele que pode ser suprimido sem prejuízo do significado geral da frase. É o caso de “Tiradentes, o mártir da independência, é um importante vulto da história do Brasil”. “O mártir da independência” é um aposto explicativo.

Se numa sentença como essa não há dúvida sobre a correta pontuação, em outras a confusão impera. Talvez para muita gente não seja clara a existência de aposto em construções como “leite Ninho”, “avenida Paulista”, “cidade de São Paulo”, “presidente Lula” etc. O aposto, nesses exemplos, é o nome próprio que se apõe ao nome comum com o qual guarda relação de identidade. Esse tipo de aposto chama-se “especificativo”. É um aposto desse tipo que aparece numa formulação como “A palavra amor tem quatro letras” (“palavra” é o substantivo genérico, “amor” é o específico nesse contexto).

Quanto à pontuação, o aposto explicativo – exatamente por sua natureza explicativa – requer as vírgulas, já o aposto especificativo não. É por isso que escrevemos “O presidente Lula aprovou a ideia” e “O presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, aprovou a ideia”. O primeiro especifica, o segundo explica.

Muito bem. Sendo assim, a construção “a presidente Dilma Rousseff” também se escreve sem vírgulas. Essa formulação, entretanto, só será corretamente usada a partir de janeiro de 2011, quando Dilma Rousseff tomar posse, assumindo oficialmente o cargo de presidente do Brasil.

Por ora, ela é corretamente tratada pela imprensa como “presidente eleita”, o que muda, sim, alguma coisa no que diz respeito à pontuação das frases. Ao dizermos “a presidente eleita”, que, como sabemos, é Dilma Rousseff, seu nome passa a ser uma explicação. O aposto especificativo ocorre sempre do genérico para o específico. O adjetivo “eleita” interfere nessa relação. Em outras palavras, “presidentes” há vários, “presidente eleito” (no caso, eleita) só um (um por vez). Assim: “A presidente eleita, Dilma Rousseff, recebeu...”.

Outro caso pode ajudar a elucidar essa questão. Quando nos referimos a um presidente de determinada época, também usamos a vírgula. Por exemplo: “Em 1986, o então presidente, José Sarney, declarou....” (Sarney era o presidente do Brasil). Caso não empregássemos o termo “então”, as vírgulas desapareceriam (“presidente José Sarney”).

Se, por outro lado, nos referíssemos a um deputado, as vírgulas não ocorreriam em nenhum dos casos porque o cargo de deputado é exercido simultaneamente por várias pessoas. Assim: “O deputado João da Silva foi eleito com grande número de votos”, “Em 1998, o então deputado João da Silva declarou...” (João da Silva era um dos deputados). Para que o nome próprio funcione como aposto explicativo (entre vírgulas), não como especificativo (sem vírgulas), é necessário que exprima uma condição singular, própria de apenas um ser. É por esse motivo que o prefixo “ex-” retira da pessoa a condição de aposto explicativo (e as vírgulas desaparecem). Assim: “O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso declarou ontem que...”.

Veja-se ainda o seguinte caso: “O presidente Lula e a primeira-dama, dona Marisa, estiveram presentes à cerimônia”. O leitor pode-se perguntar por que “Lula” vem sem vírgulas e “dona Marisa” vem entre vírgulas. Na construção “presidente Lula”, ocorre a relação genérico-específico (presidente + Lula); sem vírgulas, portanto. No caso de “dona Marisa”, a informação é suplementar, dado que a primeira-dama que acompanha Lula só pode ser a sua mulher (condição singular); com vírgulas, portanto.

É exatamente esse o caso de “O ator Tarcísio Meira e sua mulher, Glória Menezes, estavam na festa”. A ausência das vírgulas numa frase como essa levaria à interpretação de que o ator tem mais de uma mulher (!). Glória Menezes vem entre vírgulas, pois ocupa uma posição que só pode ser ocupada por uma pessoa (por vez!), ou seja, uma condição singular.

Abaixo o fragmento reformulado:

A presidente eleita, Dilma Rousseff, recebeu nesta terça-feira uma atualização sobre o andamento do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) na área de transportes. Os dados foram apresentados pela coordenadora-geral do programa, Miriam Belchior, e pelo ministro Paulo Sérgio Passos (Transportes).

Os textos publicados antes de 1º de janeiro de 2009 não seguem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A grafia vigente até então e a da reforma ortográfica serão aceitas até 2012

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