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Regência de antônimos: algumas pistas

Por Thaís Nicoleti

Tal decisão foi motivada por recurso feito pelo próprio Senado, que discordava com o corte.

Conhecer a regência dos verbos e nomes leva tempo e requer atenção. Muita gente acha que só mesmo a memorização resolve o problema porque o sentido das preposições vai-se esvaziando com o tempo e fica difícil fazer algum tipo de associação de natureza semântica.

Embora pelo menos em parte isso seja verdadeiro, é possível evitar algumas incorreções observando certas regularidades. O fragmento em epígrafe apresenta o verbo “discordar”, antônimo de “concordar”. Dizemos que uma pessoa concorda com outra, mas também dizemos que uma pessoa discorda de outra.

Convém observar que “concordar” e “discordar” têm significados opostos. “Concordar”, na origem, é aproximar os corações; “discordar” é afastá-los, separá-los. Normalmente os verbos iniciados por “com-/con-” regem complemento introduzido pela preposição “com”, numa espécie de confirmação da relação semântica indicada pelo prefixo. Normalmente, mas não sempre!

Em contrapartida, temos “discordar de”, em que o prefixo “dis-” indica afastamento. Essa ideia se reflete na preposição “de”, que introduz o complemento do verbo. O par “com/de” indica aproximação/separação, como se vê em “casar (-se) com alguém” e “divorciar-se ou separar-se de alguém”. Com o verbo “discutir”, por exemplo, continuamos usando a preposição “com”, que sugere ser a ação empreendida reciprocamente pelas duas partes.

Ainda que não seja possível estabelecer uma regra “infalível”, é comum que verbos de sentido oposto rejam preposições diferentes. Assim: “habituar-se a alguma coisa”, mas “desabituar-se de alguma coisa”; “colar em”, mas “descolar de”; “alojar (-se) em algum lugar”, mas “desalojar (-se) de algum lugar”; “pôr em”, mas “tirar de”; “amarrar a algum lugar ou em algum lugar”, mas “desamarrar de”; “animar alguém a fazer algo”, mas “desanimá-lo de tentar novamente”; “aparecer em algum lugar”, mas “desaparecer de lá”; “prender a algo ou em algo”, mas “desprender de algo”; “atrair a ou para”, mas “distrair de”.

Verbos como “agradar” e “desagradar” ou “obedecer” e “desobedecer”, por exemplo, regem, todos eles, complemento iniciado pela preposição “a”: agradar ou desagradar a alguém, obedecer ou desobedecer a algo.

Em suma, há pistas que podemos seguir nos momentos de dúvida. É claro que ter à mão um bom dicionário de regência é sempre a melhor opção.

Veja, abaixo, a frase corrigida:

Tal decisão foi motivada por recurso feito pelo próprio Senado, que discordava do corte. 

Os textos publicados antes de 1º de janeiro de 2009 não seguem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A grafia vigente até então e a da reforma ortográfica serão aceitas até 2012

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