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"Ao invés de" e "em vez de"

Por Thaís Nicoleti

"Antes, eles tinham que visitar a indústria em questão e, segundo os seus relatos e de técnicos do governo, às vezes eram vítimas de golpes: o tal fabricante, ao invés de mostrar o aparelho, pedia dinheiro para emitir um laudo falando que na realidade a sua máquina não era exatamente a desejada."

O fragmento selecionado, que trata de empresários que querem importar máquinas usadas, exemplifica uma confusão frequente entre as expressões "em vez de" e "ao invés de". A primeira delas pode ser considerada universal - como indica substituição de uma coisa por outra, é válida nas mais variadas situações. A segunda, porém, requer contexto específico.

"Ao invés de" indica oposição. Por esse motivo, a locução articula termos de sentido claramente contrário: ao invés de subir, desceu; ao invés entrar, saiu etc. Mostrar um aparelho não é o contrário de pedir dinheiro em troca de um laudo falso (feito para driblar a lei segundo a qual a importação só é permitida quando a indústria nacional não produz aparelho similar). Nesse caso, a expressão apropriada seria "em vez de" (um sinônimo de "em lugar de").

O texto suscita outras questões, que comentamos rapidamente. A construção "tinham que visitar", hoje corrente no português, é uma alteração da locução verbal "tinham de visitar", em que a preposição "de" liga os dois verbos. Embora hoje as duas sejam igualmente compreendidas como "eles tinham a obrigação de visitar", isso nem sempre foi assim, dado que o pronome "que" (relativo indefinido) entre os dois verbos leva a outro sentido ("ter que visitar" equivale a "ter algo que visitar", "ter algo para visitar"). Segundo a tradição, a construção deveria ser, nesse caso, "tinham de visitar".

A construção "segundo os seus relatos e de técnicos do governo" certamente "soa mal", mas o redator talvez não tenha percebido qual era, de fato, o problema. O segredo está na ordem dos termos.

O substantivo "relatos" tem dois qualificativos, a saber, "seus" e "de técnicos do governo", que deveriam estar articulados pela conjunção aditiva "e" (relatos de X e de Y). Como um dos adjuntos adnominais é o pronome possessivo "seus" (equivalente a "deles"/ de + eles), o redator optou por empregá-lo antes do substantivo, o que estaria perfeito se não houvesse o segundo elemento a ser coordenado a ele. Para garantir o paralelismo gramatical, é preciso usar os dois elementos pospostos ao substantivo: "relatos seus (ou deles) e de técnicos do governo".

Finalmente, também é problemática a construção "pediam dinheiro para emitir um laudo falando que...". A forma verbal "falando" parece associada ao sujeito de "pedir", ou seja, ao pedir dinheiro, a pessoa fala que a máquina não era a desejada. Não era esse, por certo, o objetivo do redator. A ideia era dizer que o laudo (falso) deveria atestar (não "falar") que a máquina não era a desejada, o que permitiria ao empresário fazer a importação de um aparelho. O ideal é mudar não só o verbo como também a estrutura sintática (em vez de gerúndio, o pronome relativo). Veja abaixo a correção:

Antes, eles tinham de visitar a indústria em questão e, segundo relatos seus e de técnicos do governo, às vezes eram vítimas de golpes: o tal fabricante, em vez de mostrar o aparelho, pedia dinheiro para emitir um laudo que atestasse que, na realidade, a sua máquina não era exatamente a desejada.

Os textos publicados antes de 1º de janeiro de 2009 não seguem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A grafia vigente até então e a da reforma ortográfica serão aceitas até 2012
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