
"Moral da história: quando seu amigo que fuma vai dar suas tragadas do lado de fora, ele faz bem para você e para todo o mundo que está sentado nas mesas dos barzinhos ou dos restaurantes."
A questão de hoje é sutil e vai de encontro a uma prática não muito bem justificada de emprego ou não do artigo. Parece que permeia uma espécie de inconsciente coletivo o entendimento de que há uma suposta alternância entre as construções "todo mundo" (sem artigo) e "todo o mundo" (com artigo), capaz de distinguir o sentido figurado do sentido estrito da expressão. Nada mais falso.
A presença ou não do artigo está ligada ao substantivo que o sucede: "todo dia", entre os brasileiros, quer dizer o mesmo que "todos os dias" ou "dia após dia"; já "todo o dia" significa "o dia inteiro" (observe que a construção com artigo - e somente ela - admite a inversão de posição do pronome indefinido: "todo o dia" equivale a "o dia todo").
Não será muito difícil entender que "todo o mundo" quer dizer "o mundo inteiro" - e que "todo mundo" quer dizer "todos os mundos". O sentido figurado (todas as pessoas) é alcançado não pela supressão do artigo, mas pelo contexto de emprego da expressão.
É evidentemente coloquial o uso de construções como "todo o mundo aqui" ou "todo o mundo que está sentado", mas esses elementos restritivos em nada alteram o uso do artigo antes do substantivo "mundo", uma vez que se está falando de "todas as pessoas", não de "todos os mundos".
Contribui para essa falsa impressão o fato de "todo" terminar com a vogal átona "o", de som idêntico ao do artigo "o", o que favorece a elisão. Pode parecer que não se pronuncia o artigo (exatamente como ocorre com a expressão "chamar a atenção", em que o artigo "a" tem o mesmo som da vogal inicial da palavra seguinte).
Como tema secundário do texto de hoje, ficam outros dois pontos: 1. pessoas sentam-se à mesa para comer ou beber, ou seja, "perto da mesa" ("sentado na mesa" está aquele que usa o móvel como assento); 2. o plural dos diminutivos segue uma regrinha: pluraliza-se a palavra em seu grau normal (bar - bares), retira-se o "s" final (bare-), acrescenta-se o sufixo "-zinho" (barezinho-) e, finalmente, a desinência "s", de plural ("barezinhos"). É bem verdade que dificilmente se ouve alguém empregar a forma vernácula, mas fica a observação.