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"Todas empresas" ou "todas as empresas"?

Por Thaís Nicoleti

"O Ministério Público Federal questionou a concessão de empréstimo para a privatização da Eletropaulo, sob a alegação de que o BNDES avaliou o risco de praticamente todas empresas envolvidas na operação, mas não da Light, a empresa que efetivamente ficou com o controle da estatal paulista."

No trecho acima, o redator comete um equívoco ao omitir o artigo definido "as" que deveria anteceder o substantivo "empresas". A questão é simples: quando os pronomes "todos" e "todas" (assim, no plural) antecedem substantivos, o uso do artigo é obrigatório.

É quase certo que a origem da confusão esteja na distinção entre construções como "todo dia" e "todo o dia", ambas corretas, mas com significados diferentes. Sem o artigo, "todo" assume o valor semântico aproximado de "qualquer" (vale lembrar a letra da canção de Chico Buarque: "Todo dia, ela faz tudo sempre igual..."); com o artigo, "todo", grosso modo, quer dizer "inteiro", ou seja, mantém a idéia de totalidade.

Assim: "Todo dia, ela faz ginástica" (ela faz ginástica todos os dias, sem exceção, é essa a sua rotina), mas "Ela fez ginástica todo o dia" (ela passou o dia inteiro fazendo ginástica - que fôlego!). Note que, nesse caso, é possível inverter a posição dos termos sem alteração de sentido, ou seja, "todo o dia" é o mesmo que "o dia todo".

Essa distinção, entretanto, inexiste no plural. Muita atenção, portanto, ao emprego do artigo depois de "todos" e de "todas".

Caso antecedam pronomes pessoais ou numerais substantivos, esses pronomes não aceitarão a posposição do artigo pelo simples fato de que os pronomes pessoais e os numerais substantivos não são determinados por artigos ("Todos eles estiveram lá", "Todos quatro negaram participação no roubo"), mas, se antecederem numerais adjetivos, o artigo voltará a aparecer ("Todos os quatro assaltantes foram presos"), pois o artigo determina o substantivo que vem depois do numeral ("os... assaltantes").

O leitor observador notará ainda que faltou um pronome demonstrativo no trecho "mas não da Light", talvez fruto de distração. Veja que, segundo o texto, o BNDES avaliou o risco de praticamente todas (as) empresas, mas não (o) da Light. Esse "o" não é um artigo, mas o pronome demonstrativo que substitui a palavra "risco", permitindo, assim, que se evite uma indesejada repetição de termo anterior.

No fragmento em questão, o correto seria dizer que o BNDES avaliou o risco de praticamente todas as empresas envolvidas na operação, mas não o da Light.

Um abraço,
Thaís Nicoleti

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