
"João Victor Portelinha, 9, foi impedido de fazer faculdade particular apesar de passar em direito"
Essa foi a chamada para a inusitada notícia de que uma criança foi aprovada num exame vestibular para o curso de direito. A notícia é mesmo preocupante, mas, por ora, vamos tratar da questão lingüística que o texto suscita.
O problema está no emprego da forma verbal "passar", de infinitivo, que sugere estar a ação no tempo presente. Veja outros exemplos: "Ele nunca tira notas altas apesar de estudar todos os dias", "Ele sempre está em boa forma física apesar de não praticar esportes".
No fragmento em questão, o garoto "foi impedido" (no passado) de cursar a faculdade apesar de ter passado em direito. A forma composta "ter passado" indica tempo passado (o garoto já passou no vestibular); seu uso garante a perfeita correlação de tempos verbais do período, dado que toda a ação se desenvolveu num tempo anterior ao da notícia.
É interessante observar que, mesmo que o redator optasse por dar a notícia em tempo presente, criando o efeito de surpresa característico da linguagem jornalística, o infinitivo deveria continuar no passado. Assim: "João Victor Portelinha, 9, é impedido de fazer faculdade particular apesar de ter passado em direito". Ocorre que o infinitivo sem um auxiliar sugere ação que se repete (como um hábito), idéia rechaçada pelo contexto.
Um abraço,
Thaís Nicoleti