
A colocação dos pronomes átonos nas frases é dúvida freqüente entre todos aqueles que redigem. Os vestibulares, como não poderia deixar de ser, continuam propondo questões sobre esse tema - sempre, é claro, tomando o cuidado de não exigir o cumprimento à risca da norma culta, muito mais próxima do falar lusitano que do brasileiro.
A prova de português do último exame da FGV (Fundação Getúlio Vargas) apresentou aos candidatos a seguinte questão:
Assinale a alternativa em que a colocação dos pronomes átonos atende à norma culta.
a) Era claro que Nestor estava preocupado, mas otimista. "Erguerei-me depressa, enfrentando-lhe todos os arroubos."
b) Ao ver-se cercado pelas emas, concluiu: os animais poder-se-iam perder, se o ajudante não os controlasse.
c) Não disse-lhe palavra. Partiu a galope sem olhar para trás.
d) Farei-o melhor do que você, embora não tenha tanta prática.
e) Tendo encontrado-a sozinha na sala, deu-lhe um beijo maroto na face.
As alternativas "a" e "d" apresentam o mesmo problema: o pronome átono depois de um verbo no futuro. Em ambos os casos, o correto, do ponto de vista da norma culta, é o emprego da mesóclise ("erguer-me-ei" e "fá-lo-ei") ou o uso do pronome reto explícito com pronome proclítico ("eu me erguerei" e "eu o farei").
Na prática, a mesóclise é muito pouco usada (pelo menos, no Brasil), mas ainda é assunto de questões de concursos. Veja que a alternativa "b", que apresenta a resposta correta, traz uma mesóclise.
Na alternativa "c", aparece um dos mais conhecidos casos de uso obrigatório da próclise (pronome átono antes do verbo): o do verbo antecedido de partícula negativa. Assim, o correto é "Não lhe disse palavra". Finalmente, na letra "e", o examinador testou o conhecimento dos candidatos, usando a ênclise (pronome depois do verbo) com o verbo no particípio, outro "pecado mortal" da colocação pronominal.
A questão exigia o conhecimento de algumas regras básicas da colocação de pronomes átonos:próclise obrigatória após as partículas negativas e ênclise proibida com verbos no particípio ou no futuro.
Thaís Nicoleti