
"Em Paris, museu reabre e mostra imigração à França no entre-guerras."
O título acima apresenta um erro de grafia que passa despercebido por muita gente. Acostumados que estamos a considerar a palavra "entre" uma preposição, aceitamos com facilidade o hífen do termo destacado. Ocorre que "entre-" também é um prefixo, variante de "inter-", e que, nessa condição, só se prende por hífen a termos iniciados pela letra "h" ("entre-hostil"), ficando nos demais casos justaposto ao termo seguinte.
O prefixo "entre-" indica interposição no tempo (daí palavras como "entreato","entrecena" ou "entressafra", que indicam intervalos, exatamente como "entreguerras") ou interposição no espaço ("entrenervo", "entrepiso", "entrepilastras", "entrededo", "entrelinha" etc.).
Além desses sentidos mais imediatos, "entre-" pode indicar reciprocidade (às vezes com idéia de oposição): "entrebater-se" ("Entrebatem-se, enredam-se, trançam-se ... e embaralham-se milhares de chifres", na antológica descrição que fez Euclides da Cunha do estouro da boiada), "entrechocar-se", "entrecruzar-se", "entreolhar-se", sentido que também está, de certa forma, em "entrevista".
Já "entreabrir" quer dizer "quase abrir", "abrir ligeiramente", "abrir um pouco". Essa idéia também está em "entrenublado" (mais ou menos coberto de nuvens), "entreouvir" (ouvir de modo vago) etc. Também se expressa por esse prefixo a idéia de início de ação: "entreluzir" (começar a luzir), "entremanhã" (o crepúsculo matinal).
Devemos, portanto, escrever "entreguerras" - sem o hífen.
Um abraço,
Thaís Nicoleti