
"Em tom professoral e segurando uma varinha, o ministro da Defesa falou em 'restos de corpos' e 'abdomens intactos' sem a menor cerimônia."
A dúvida que a passagem suscitou diz respeito à acentuação gráfica da palavra "abdomens". Afinal, deveria haver aí um acento?
Muito bem. É bom que se diga, de início, que são corretas as formas "abdome" (sem acento), "abdômen" (com acento circunflexo, no Brasil) e "abdómen" (com acento agudo, em Portugal).
O acento é necessário às palavras paroxítonas terminadas em "n", como ocorre não só com "abdômen" mas também com "pólen", "hífen", "próton" e tantas outras. O problema aparece no plural. Por quê?
As palavras paroxítonas terminadas em "-em" e "-ens" não são graficamente acentuadas e o motivo disso é o sistema de oposições de acentuação do português. Como as oxítonas de mesma terminação são obrigatoriamente acentuadas (porém, alguém, ninguém, parabéns, vinténs etc.), as paroxítonas não o são (jovem, homem, item, itens, hifens, polens, abdomens etc.).
O que leva à confusão, entretanto, é o fato de uma palavra ter acento no singular e não o ter no plural. No singular, as paroxítonas terminadas em "n" recebem acento. Ao serem pluralizadas, algumas deixam de ter o acento (somente aquelas terminadas em "-ens"). Assim: hífen e hifens, pólen e polens, abdômen e abdomens etc.