Ácaros: Microaracnídeos presentes em todos os grandes ecossistemas

Mariana Aprile

  • United States Department of Agriculture

    Um ácaro rajado ("Aceria anthocoptes"), amplificado 1.400 vezes. Os ácaros, animais da classe dos Aracnídeos, são os mais abundantes da espécie e estão presentes em todos os ecossistemas.

    Um ácaro rajado ("Aceria anthocoptes"), amplificado 1.400 vezes. Os ácaros, animais da classe dos Aracnídeos, são os mais abundantes da espécie e estão presentes em todos os ecossistemas.

Se houvesse uma “zoolimpíada” na natureza, os ácaros ganhariam medalha de prata, por serem o segundo grupo animal mais diverso da Terra — eles só perderiam para os insetos. Todos os grandes ecossistemas possuem membros da subclasse Acari, a qual se compõe de ácaros e carrapatos.

A maioria dos ácaros não possui olhos e, tipicamente, o corpo destes microaracnídeos é formado por estruturas chamadas idiossoma (porção anterior) e gnatossoma (parte anterior, onde fica a boca). Como todos os membros da classe Arachnida, não possuem antenas nem mandíbula.

Em relação ao tamanho, os ácaros podem ser microscópicos ou milimétricos (geralmente, de 0,25 a 0,75 milímetro). Essa característica lhes permite ocupar uma variedade incrível de hábitats e ter distintos hábitos de vida: podemos encontrar ácaros de vida livre, aquáticos, terrestres, parasitas, fitófagos (que se alimentam de plantas) e predadores (que obtém energia de outros ácaros, seus ovos e larvas de insetos).

Ciclo biológico

De modo geral, o ciclo de vida dos ácaros envolve as fases de ovo, larva hexápoda (de seis pernas), ninfa octópoda (de oito pernas), e adulto, nessa ordem. Existem casos em que a fase de ninfa possui diversos estágios, antes do animal atingir a maturidade — que ocorre, em média, após sete dias.

Diversos habitats

Os ácaros formam o grupo mais diverso e abundante dentre todos os aracnídeos. Mas devido ao seu tamanho, raramente podemos vê-los. Até hoje, mais de 30 mil espécies já foram descritas e, os cientistas acreditam que esse número chegue a 100 mil ou mais. O tamanho desses animais permite que eles vivam em microambientes muito diferentes, da base das penas de uma ave até os folículos pilosos de mamíferos.

A espécie Demodex folliculorum, por exemplo, é um ácaro cujas dimensões atingem 0,4 milímetro de comprimento, de formato vermiforme e que vive em nossa pele, nos folículos pilosos (onde nascem os pelos) e glândulas sebáceas. Pessoas que têm pele oleosa e as que fazem uso de maquiagem pesada carregam na pele maior quantidade desses animais. De qualquer maneira, todos os seres humanos adultos têm, infiltrados na pele, alguns desses aracnídeos alimentando-se de células de pele.

Quando vários ácaros Demodex folliculorum ocupam um mesmo folículo piloso, pode haver uma pequena inflamação acompanhada de coceiras — se o “bichinho” estiver em um cílio, o pelo sai com muita facilidade. Por mais produtos que se utilize para ter uma “pele limpa”, sempre haverá um ou outro ácaro desse tipo, no rosto de uma pessoa adulta. O melhor a fazer é manter uma boa higiene e fingir que eles não estão lá. Além disso, a quantidade de ácaros em nossas camas é infinitamente maior — nunca dormimos sozinhos.

Uma cidade em um colchão

Segundo dados do IBGE, a cidade de Araraquara possuía pouco mais de 200 mil habitantes, em 2009. Agora, imagine o mesmo número de indivíduos contidos dentro de um colchão — de acordo com dois estudos realizados por pesquisadores da Unicamp em 2003, em cada grama de poeira foram encontrados 40 mil ácaros, em sofás e, especialmente em colchões. Isso quer dizer que cinco gramas de poeira podem abrigar 200 mil desses animais.

De acordo com o médico Celso Henrique de Oliveira, autor de um desses trabalhos, 100 ácaros por grama de poeira já são suficientes para desencadear uma reação alérgica em uma pessoa. Análises científicas também comprovaram que, após 6 ou 8 anos de uso, 10% do peso de um travesseiro se devem à quantidade de ácaros e seus detritos (fezes e ácaros mortos).

Essas concentrações acarídeas são, inclusive, diagnosticadas como poluição ambiental de natureza biológica, já que a definição de meio ambiente inclui o lugar onde vivemos. Em uma matéria divulgada no jornal da Unicamp, em 2003, a bióloga Raquel Binotti, disse que são as fezes e as carcaças desses animais que causam as alergias.

Os ácaros que vivem nos colchões alimentam-se de partículas de pele humana, que resultam da descamação natural do corpo e, o lugar onde dormimos é o ambiente perfeito para eles: quente, úmido e escuro. Acredita-se que um grama de pele humana alimente cerca de um milhão de ácaros. Quanto à reprodução, uma fêmea da espécie Dermatophagoides pteronyssinus pode colocar 200 ovos durante sua vida — que atinge 100 dias.

Importância médica e veterinária

Além de serem responsáveis por desencadear reações alérgicas nas pessoas, existem outros ácaros como o Sarcoptes scabiei, responsável pela escabiose (sarna), a qual ocorre em todos os animais mamíferos domésticos e no ser humano. O tamanho do Sarcoptes scabiei varia entre 0,2 a 0,4 milímetro e algumas dezenas desse animal podem originar mais ou menos um milhão de novos ácaros.

Os Sarcoptes scabiei demoram de um a dois meses para porem seus ovos no hospedeiro e, após esse período leva três dias para nascerem as larvas. Então, após mais três dias elas se transformam em ninfas e, assim permanecem por oito dias. Em seguida, essas criaturas se tornam adultos e após dois dias já estão prontos para se reproduzir.

Quando um mamífero está infestado pelo Sarcoptes scabiei, leva de 15 a 17 dias para a escabiose se manifestar. A aparência terrível dessa doença se deve às galerias e túneis que os ácaros adultos “cavam” na epiderme, deixando em seu caminho um rastro de fezes e ovos. Isso ocasiona reações inflamatórias, prurido, fortes coceiras e grandes feridas. A única forma de cura é com tratamento médico ou veterinário, dependendo do indivíduo doente.

Importância ecológica e econômica

Existem ácaros que são especialistas em atacar plantas (fitófagos) e, mais ou menos 30 espécies causam grandes prejuízos por danificar culturas comerciais. Mas dentro desse grupo de animais, existem aqueles que ajudam os agricultores a salvar suas plantações, tanto de seus irmãos acarinos como de fungos e insetos daninhos.

Por exemplo, as moscas da família Sciaricidae, prejudicam a produção de cogumelos. A dificuldade em lidar com esse problema é que faltam produtos químicos devidamente registrados para exterminá-las. Mas graças aos ácaros predadores da família Laelapidae, existe a possibilidade de se fazer o controle biológico desses insetos.

Então, por mais que inúmeras espécies acarídeas sejam indesejadas por nós, seres humanos, existem outras que podem ser usadas ao nosso favor, já que atuam como inimigos naturais de pragas agrícolas. O mais interessante é que os ácaros utilizados para o controle biológico são específicos: eles atacam apenas aquele determinado tipo de praga.

Também, no grupo dos ácaros “comedores de plantas”, podemos encontrar os que atacam ervas daninhas: os grupos principais são os ácaros das famílias Tetranychidae, Eriophyidae e Galumnidae. A vantagem de usar essa técnica de controle, é que em uma plantação de rosas infestada por ervas daninhas, por exemplo, pode-se eliminar apenas os vegetais indesejados com a segurança de não prejudicar as rosas.

Já os acarídeos da subordem Oribatida, são responsáveis por decompor matéria orgânica, principalmente em florestas. Assim, a relevância dos ácaros na ecologia é indiscutível.

Mariana Aprile é bacharel em biologia e educadora ambiental.

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