Células-tronco (4): Estudos obtêm células regeneradoras a partir da pele

Cynthia Santos

Duas recentes publicações, de James Thomson, da Universidade de Wisconsin, e de Shinya Yamanaka, da Universidade de Kyoto, nas revistas "Science" e "Cell", respectivamente, representam passos importantes no caminho para o tratamento de muitas doenças.

Os dois grupos de pesquisa, trabalhando independentemente, chegaram ao mesmo resultado: a obtenção de células muito similares às células-tronco embrionárias a partir de células da pele humana. Assim como as células-tronco do embrião, as células obtidas pelas duas equipes são pluripotentes, ou seja, podem gerar células de outros órgãos e tecidos.

As células-tronco

A propriedade mais importante e que define as células-tronco é sua capacidade de se recriarem através da auto-replicação. Para produzir novos tecidos, uma célula-tronco se divide em duas, mas apenas uma das células originadas inicia um processo de especialização em resposta a mudanças necessárias. A outra célula-filha mantém a identidade da célula-mãe.

O fascínio despertado pela geração de um organismo adulto completo, com tecidos tão diferentes, a partir de uma única célula, o zigoto, não é recente. Pelo contrário, teve início com o lançamento das bases da teoria celular em 1839.

Os segredos das células-tronco começaram a ser decifrados no início do século 20, através de experimentos com células de embriões. Portanto, as células-tronco conhecidas há mais tempo são as embrionárias. Mas descobertas recentes constataram que as células-tronco estão presentes também na pele, no intestino, na medula óssea, no fígado, no pâncreas, nos músculos esqueléticos e no sistema nervoso.

Tratamento de doenças

As células-tronco podem ser usadas no tratamento de doenças, pois são capazes de gerar 220 tipos de células encontradas no corpo humano. As células-tronco têm sido usadas há anos no transplante de medula, para tratamento de leucemia e na obtenção de tecidos, tais como a pele, que é cultivada e reimplantada em pacientes com queimaduras.

Atualmente, parecem promissoras as pesquisas com uso de células-tronco no reparo da visão, na recomposição da medula espinhal e da cartilagem. No Brasil, vale ressaltar os estudos sobre o uso de células-tronco medulares no tratamento de pacientes com insuficiência cardíaca decorrente de doença de Chagas e no tratamento de doenças auto-imunes, como a artrite reumatóide e o diabetes-melito.

Considerações éticas

Para obter células-tronco de embriões, os cientistas acabam destruindo o embrião e isso gera muita polêmica. A nova descoberta já está instigando ainda mais o debate entre os grupos a favor e contra as pesquisas com células-tronco embrionárias.

Cientistas dizem que a descoberta não deve impedir os estudos com células-tronco de embriões. Afinal, a descoberta dos grupos americano e japonês é resultado do acúmulo de conhecimentos obtidos com as pesquisas na área de células-tronco embrionárias.

Os críticos, por sua vez, dizem que a descoberta indica que os estudos com células-tronco embrionárias não são mais necessários: se as células adultas podem se comportar como células embrionárias, por que não usar somente as adultas ao invés de destruir embriões? Só o tempo e novas pesquisas levarão essa balança a pender para um dos lados.

Nova alternativa às céluas-tronco embrionárias

O fato é que os resultados obtidos pelos dois grupos de pesquisa mostram que há uma maneira alternativa de se obter células pluripotentes sem a utilização de embriões ou sem a necessidade de se criar um embrião intermediário, que é um clone de uma pessoa adulta.

A utilização da nova técnica, além de tudo, é também mais relevante clinicamente do que o uso de células-tronco de embriões, pois evitará a rejeição do sistema auto-imune. As células-tronco do próprio paciente adulto poderão ser usadas para regenerar seus tecidos ou órgãos lesados.

Desafios futuros

Ambas as equipes transformaram células adultas da pele humana em células-tronco similares às encontradas em embriões, inserindo nas células da pele quatro genes ligados ao processo de especialização das células. Dois dos quatro genes utilizados são comuns às duas equipes. A equipe japonesa utilizou um gene conhecido por ser cancerígeno. Esse problema foi resolvido pela equipe americana, que obteve os mesmos resultados com um gene diferente.

A inserção dos genes foi realizada com o auxílio de um retrovírus, isto é, um vírus que tem genoma constituído por RNA. Esse vírus pode causar mutações nas células onde foram inseridos. Portanto, essa técnica ainda não pode ser utilizada para terapia celular. A próxima etapa será encontrar um meio de ativar os genes que permitem a transformação das células da pele em células-tronco.

 

 

 

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Cynthia Santos é doutora em ciências e pesquisadora do Smithsonian Institution (EUA).



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