Espaço geográfico: Sociedade transforma a natureza

Ronaldo Decicino

  • Marcello Casals Jr./ABr

    Índios Guarani-Kaiapó: reserva indígena é exemplo de espaço geográfico demarcado por dinâmica social

    Índios Guarani-Kaiapó: reserva indígena é exemplo de espaço geográfico demarcado por dinâmica social

O espaço geográfico não possui apenas uma dinâmica natural. A esta deve ser acrescentada uma dinâmica social, exercida pelas formações sociais que ali vivem e atuam. Ao se apropriar da natureza e transformá-la, os seres humanos criam ou produzem o espaço geográfico, utilizando as técnicas de que dispõem, segundo o momento histórico e de acordo com suas representações, ou seja, crenças, valores, normas (direito) e interesses políticos e econômicos.

O espaço geográfico é o espaço das sociedades ou a dimensão espacial do social. Ele contém elementos naturais (rios, planaltos, planícies, etc.) e artificiais (casas, avenidas, pontes, etc.). Segundo o geógrafo Milton Santos, o espaço geográfico somente surge depois de o território ser usado, modificado ou transformado pelas sociedades humanas. Ou quando estas imprimem na paisagem as marcas de sua atuação e organização social.

Valorização econômica

Uma das características mais fortes do espaço geográfico é sua valorização econômica. O espaço é visto como um bem imobiliário, que pode ser visto como fator de produção ou produto comercializável.

Setores da sociedade usam o argumento de que só se pode considerar espaço coletivo o espaço que ainda é natural, ou seja, aquele que não sofreu nenhuma transformação e não recebeu investimentos de capital ou de tecnologia. Alegam também que, onde foram feitos investimentos, o espaço natural se transformou em espaço geográfico; e, portanto, passou a ter um valor econômico, podendo, por esse motivo, ser apropriado, explorado e comercializado.

Público e privado

Mas, afinal, quando exatamente um determinado espaço natural pode ser considerado espaço geográfico? Quais são os limites entre o público e o privado? Quais são os limites entre o interesse coletivo e o interesse individual?

Questões como essas sempre surgem quando são tratados assuntos como os conflitos entre garimpeiros e índios na Amazônia brasileira (as reservas indígenas sendo invadidas por estranhos em busca de riqueza). Ou, então, quando são tratados assuntos referentes a conflitos no campo (latifundiários que se apropriam do que antes era um espaço natural versus trabalhadores rurais sem terras, que reivindicam o direito à propriedade dessas mesmas terras).

Também nas cidades esse problema torna-se cada vez mais comum, pois o rápido crescimento da população urbana aumenta a necessidade de espaço, a fim de que as pessoas possam ter acesso a moradia, trabalho, livre circulação e lazer.

Isso torna a disputa pelo espaço urbano cada vez mais acirrada, o que pode ser notado, por exemplo, se observarmos o crescente número de loteamentos clandestinos, feitos por pessoas de baixa renda, que se instalam em áreas de mananciais, afetando a qualidade da água consumida pelos habitantes da cidade.

Ou, então, proprietários de pequenas residências, de classe média, que ampliam o espaço de suas garagens, tomando para si pedaços das calçadas. Ou, ainda, pessoas que fecham as entradas das ruas onde residem, criando vilas particulares e, dessa forma, apropriando-se do espaço público.

Os conflitos entre diferentes grupos que compõem uma população sempre estarão visíveis no espaço geográfico. Por exemplo, os bairros onde vive uma parcela privilegiada da sociedade geralmente possuem mais e melhores serviços urbanos que os bairros mais populares.

O espaço geográfico é a expressão visível de como a sociedade está organizada segundo as normas estabelecidas. Nele estão expressas as desigualdades sociais, a distribuição do poder e o jogo de interesses e de pressões existentes entre grupos e classes sociais sobre o Estado.

Ronaldo Decicino é professor de geografia do ensino fundamental e médio da rede privada.



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