Povo brasileiro: Miscigenação e racismo

Cláudio Mendonça

Desde o início da colonização do Brasil a miscigenação foi intensa. A maioria dos colonizadores portugueses que vieram ao Brasil eram homens, que mantinham relações com índias ou escravas negras. As mulheres brancas só vieram mais tarde, principalmente a partir da segunda metade do século 19, com a imigração européia e japonesa.

Os negros foram trazidos da África a partir de 1538, para trabalhar como escravos inicialmente na cultura da cana-de-açúcar e, mais tarde, nas minas e nos cafezais. Não existem dados oficiais do número de escravos entrados no Brasil, mas as estimativas apontam para 4 milhões de indivíduos.

A miscigenação deu origem a outros numerosos grupos, como:

  • mulato (branco com negra, ou vice-versa);

 

  • caboclo ou mameluco (branco com índia, ou vice-versa);

 

  • o cafuzo (negro com índia, ou vice-versa).

O fato de a base da população brasileira ter sido formada com a intensa miscigenação do branco português com mulheres negras e indígenas ajudou a construir a idéia de ausência de racismo no Brasil, de harmonia entre as diversas etnias ("raças") e de ausência de conflitos.

Raças e racismo

Ao longo de sua existência, os grupos humanos desenvolveram características físicas próprias em relação à cor da pele, ao cabelo e a outros traços que diferenciam as diversas etnias.

O termo racismo refere-se à atitude de segregação entre grupos étnicos, quando um presume ser superior ao outro.

A mistura de etnias é rejeitada pelos racistas. Eles acreditam que as "raças" superiores foram predestinadas a dominar as inferiores, o que serve também para justificar a exploração do homem pelo homem.

No Brasil, entre a lei e as práticas cotidianas existe uma distância acentuada. Ao negro e ao mestiço é negado o princípio básico das sociedades democráticas, que é a igualdade de oportunidades. Eles são excluídos e discriminados, não apenas pela pobreza, mas também pela cor da pele.

A Constituição brasileira condena e considera crime o racismo nos espaços públicos. No entanto, a punição de atitudes racistas depende do testemunho de uma terceira pessoa e do registro de ocorrência policial.

A idéia de "clarear o Brasil"

Apesar da lei, é difícil comprovar que um emprego foi negado por causa da cor da pele. A desculpa pode ser: "Sinto muito, mas o cargo foi preenchido por outro candidato", em vez de "por um branco".

O Brasil foi o último país ocidental a abolir a escravidão. Isso ocorreu há pouco mais de um século, em 1888. Os negros libertos foram deixados à própria sorte, numa época em que o governo brasileiro estimulava a imigração.

"Existem negros demais, é necessário clarear o Brasil", era o pensamento de uma parte da elite no século 19. Os que defendiam a imigração declaravam abertamente que não queriam a vinda de africanos ou asiáticos.

A exclusão social dos negros

O estímulo à imigração e a maior qualificação profissional dos imigrantes significou a exclusão do negro e do mestiço do mercado de trabalho brasileiro.

No começo do século 20, cerca de 90% dos operários da indústria paulista eram imigrantes de origem européia. Eles formavam a maioria dos trabalhadores do comércio, dos serviços de transporte, das empresas de energia e dos correios e telégrafos.

Onde trabalhavam os negros e os mestiços? Em serviços domésticos, limpeza pública, "bicos" e em uma gama de atividades que não eram disputadas por não oferecerem nenhuma perspectiva de ascensão social.

Muitos negros e mestiços continuaram nas lavouras, trabalhando sem salários, em troca de alimentação e abrigo. Outros foram simplesmente excluídos da vida econômica e social. Viviam de esmola ou encontravam alguma saída na marginalidade: jogo do bicho, furtos e prostituição.

Um país com duas realidades

O Relatório de "Desenvolvimento Humano Brasil 2005 - Racismo, Pobreza e Violência", elaborado pela ONU, apontava a grande distância entre os negros e brancos na sociedade brasileira.

Caso a população branca brasileira formasse um país à parte, estaria na 44ª posição no ranking mundial e entre os países de IDH elevado.

Mais: imaginou-se um país hipotético, formado apenas pelos negros brasileiros. Esse país ficaria com o 105º lugar, abaixo de Paraguai, Peru, Equador, Argélia, entre outros.

 


 

Cláudio Mendonça é professor do Colégio Stockler e autor, para o ensino médio, de "Geografia geral e do Brasil" e "Território e sociedade no mundo globalizado".

titulo-box Shopping UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos