Quilombo dos Palmares: Verdades e mitos sobre o quilombo e Zumbi

Túlio Vilela, especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação -
(Atualizado em 27/06/2014, às 17h41)

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Comunidades fundadas por escravos de origem africana que conseguiram fugir de seus senhores. Assim, podemos definir os quilombos que existiram no Brasil e em todas as outras partes do continente americano onde houve a exploração do trabalho de escravos de origem africana. O que mudou foi apenas o nome: quilombos ou mocambos nas áreas de colonização portuguesa (Brasil); maroons nas áreas de colonização inglesa (exemplo: sul dos atuais Estados Unidos), palenques nas áreas de colonização espanhola (exemplos: Cuba e Colômbia) e grand marronage, nas áreas de colonização francesa (exemplo: Haiti).

Houve quilombos de diversos tamanhos, alguns pequenos, com apenas vinte ou trinta habitantes, e outros grandes, com centenas ou milhares de habitantes. O maior e mais famoso de todos os quilombos brasileiros foi, sem dúvida alguma, o dos Palmares. Na verdade, Palmares era um conjunto de dez quilombos. Estima-se que, em 1671, sua população tenha sido algo em torno de 20 mil habitantes.No entanto, justamente por causa dessa fama criou-se um grande mito em torno de Palmares e de um dos seus líderes, Zumbi. Este artigo pretende mostrar o que há de verdadeiro e de falso neste mito.

O Quilombo dos Palmares

O Quilombo dos Palmares localizava-se na serra da Barriga, região situada no que hoje são os estados de Alagoas e Pernambuco. O nome, Palmares, veio do fato de a região possuir um grande número de palmeiras. A data de sua fundação não é certa. Segundo algumas fontes, Palmares teria surgido em 1597, quando cerca de quarenta escravos fugiram de um engenho de açúcar no litoral do Nordeste e se refugiaram na Serra da Barriga. A mais antiga referência conhecida ao nome Palmares é uma carta do mesmo ano, escrita pelo padre Pero Lopes, superior dos jesuítas em Pernambuco, ao rei de Portugal.

Negros, mestiços, índios e brancos

No entanto, há pesquisadores que contestam essa data, para eles, Palmares pode ter surgido por volta de 1580. Outros ainda afirmam que talvez até antes disso já existissem comunidades quilombolas na mesma região. Seja como for, no início, a população de Palmares era pequena, não passava de poucas dezenas, mas as notícias sobre o lugar começaram a atrair um número maior de escravos fugidos de engenhos, especialmente de Pernambuco. Além de negros, a população de Palmares era composta por mestiços, índios e até brancos. Entre as pessoas brancas que viviam em Palmares estavam, provavelmente, mulheres acusadas de feitiçaria e outros indivíduos procurados pelas autoridades da época.

A população de Palmares cresceu muito em decorrência das invasões holandesas no Nordeste (1624-1654). Com as invasões, os engenhos desorganizaram-se e houve uma diminuição da vigilância, o que facilitou as fugas. Além disso, as autoridades portuguesas no Brasil ofereceram alforria (libertação) aos escravos que guerreassem contra os holandeses. Assim, muitos escravos recrutados aproveitaram para desertar (abandonar o exército) e refugiaram-se em Palmares, enquanto outros, como Henrique Dias destacaram-se na luta para expulsar os holandeses e chegaram até a participar de expedições de ataque aos quilombos.

Vale lembrar que era comum encontrar capitães-de-mato (encarregados de recapturar escravos fugidos) negros. Ou seja, nem sempre a cor da pele determinava de que lado a pessoa estava, pois, se havia brancos morando nos quilombos, também havia negros que lutavam contra os quilombolas. As relações com os índios também variavam: conforme a situação, os quilombolas tanto podiam ser aliados quanto adversários das comunidades indígenas que habitavam a região.

Zumbi e Domingos Jorge Velho

Várias expedições foram organizadas pelos senhores de engenho para capturar negros em Palmares. Geralmente, um senhor de engenho tinha o interesse em recapturar um escravo fugido porque o preço de um escravo novo era muito alto. Portanto, do ponto de vista do senhor de engenho, quando um escravo fugia, significava um prejuízo, um investimento perdido. Foi numa dessas expedições que um menino nascido em Palmares foi capturado e entregue ao padre da vila de Porto Calvo. Quinze anos depois, esse menino voltaria para Palmares e se tornaria o líder mais importante da comunidade quilombola: Zumbi.

O nome Zumbi provavelmente originou-se de Nzumbi, o título que os bantos, um povo africano, davam a um líder militar e religioso. Por volta de 1690, as autoridades contrataram o paulista Domingos Jorge Velho, bandeirante conhecido por caçar índios (enquanto no Nordeste a maioria dos escravos era de origem africana, em São Paulo, a maioria dos escravos era de origem indígena), para liderar a invasão e destruição definitivas de Palmares.

Em troca, o bandeirante exigiu cem mil em dinheiro mais um quinto do valor dos quilombolas capturados, 500 mil reis em panos em roupas e o perdão tanto dos crimes que havia cometido quanto dos que viesse a cometer. Não bastasse tudo isso, as autoridades deram ao bandeirante o poder de prender qualquer pessoa suspeita de colaborar com os quilombolas.

Suicídio ou assassinato?

No primeiro ataque, em 1692, o exército de Domingos Jorge Velho foi derrotado. Percebendo que não seria fácil derrotar os quilombolas, o bandeirante exigiu que as autoridades enviassem mais armas e munições. Milhares de homens foram recrutados em todas as capitanias do Nordeste para fazer parte do exército que atacaria Palmares. Assim, em 6 de fevereiro de 1694, o principal dos quilombos de Palmares foi atacado pelo exército comandado por Domingos Jorge Velho. Os quilombolas resistiram, mas acabaram derrotados. Zumbi, apesar de ferido, conseguiu fugir e resistiu por vários meses, organizando ataques contra os senhores de engenho.

No entanto, Antônio Soares, um homem da confiança de Zumbi foi capturado e após ser torturado revelou o esconderijo de seu líder. Após a descoberta do esconderijo, Zumbi sofreu uma emboscada e morreu no dia 20 de novembro de 1695. As circunstâncias de sua morte ainda são objeto de debate: para uns, foi suicídio, para outros, foi assassinato.

De qualquer modo, a cabeça de Zumbi foi cortada e levada para o Recife, onde foi colocada em um poste. Era uma forma de as autoridades desencorajarem novas tentativas de fuga e de acabar com os boatos de que Zumbi era "imortal". Morria o homem e surgia o mito. Um mito tão forte, que, nos dias de hoje, parte da comunidade negra do Brasil escolheu a data da morte de Zumbi, 20 de novembro, para comemorar o Dia da Consciência Negra. A data foi transformada em feriado em algumas cidades brasileiras.

O homem e o mito

O problema é que esse mito criado em torno de Zumbi e a intenção de transformar a data de sua morte em uma data cívica baseiam-se em inverdades. A maior delas é que Zumbi lutou pela abolição da escravidão. Sem dúvida alguma, Zumbi e outros quilombolas desejavam a liberdade, mas apenas a liberdade individual, eles jamais tiveram a pretensão de extinguir a escravidão. Pelo contrário, por mais estranho que possa parecer, a escravidão também existia dentro de Palmares. Há registros da época que mencionam a existência de escravos em Palmares.

Segundo esses registros, esses escravos eram homens sequestrados pelos quilombolas e obrigados a trabalhar nas plantações. Era comum que um escravo liberto quisesse ter seus próprios escravos. Ou seja, o mesmo escravo que sonhava com a própria liberdade não hesitaria em ter seus próprios escravos se o pudesse. O fato em si não causa surpresa se considerarmos que a escravidão já existia nas sociedades africanas antes mesmo da chegada dos portugueses na África, especialmente nos reinos do Congo e de Angola, locais de origem de grande parte dos quilombolas e de seus antepassados.

Mas atenção: o fato de que a escravidão já existisse na África não justifica o tráfico de escravos africanos praticado por portugueses e outros europeus. Por outro lado, foi um dos fatores que facilitou o crescimento desse tráfico.

Túlio Vilela, especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação - formado em história pela USP, é professor da rede pública do estado de São Paulo e um dos autores do livro Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula (Editora Contexto).

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