China antiga (2): As cinco primeiras dinastias chinesas

Túlio Vilela

As cinco primeiras dinastias chinesas foram as seguintes:

1) Xia, 2205-1818 a.C.

A existência dessa dinastia ainda é motivo de controvérsia entre os historiadores. Mesmo entre os que acreditam que essa dinastia tenha existido, não há consenso em relação às datas de sua duração.

2) Shang, aproximadamente 1500-1050 a.C.

Até uns cem anos atrás aproximadamente, tudo que se sabia a respeito dessa dinastia era o que estava escrito em documentos produzidos durante as épocas da dinastias Zhou e Han, centenas de anos após a queda da dinastia Shang. Por isso, muitos historiadores ocidentais duvidavam da existência dessa dinastia, afirmando que os relatos sobre ela não passavam de mitos.

No entanto, a maioria dos historiadores chineses sempre aceitou esses relatos, citando-os como fontes históricas confiáveis. Descobertas arqueológicas comprovaram a existência da Dinastia Shang. Entre os achados arqueológicos estavam objetos de bronze; inscrições gravadas em ossos e cascos de tartaruga e sepulturas. Podemos dizer que os mais antigos registros escritos da história da China surgiram durante a dinastia Shang. A mais antiga forma de escrita conhecida surgiu na China dos Shang.

Em muitos textos antigos, os Shang eram geralmente descritos como governantes cruéis, corruptos e decadentes. Até onde esses relatos seriam verdadeiros?

Vale lembrar que a maioria desses textos foram escritos séculos após o domínio dos Shang, durante as dinastias que os sucederam. Ao retratarem os Shang como corruptos e os seus sucessores como "virtuosos", esses textos tinham a intenção de fazer propaganda a favor das dinastias Zhou e Han.

3) Zhou, aproximadamente 1050-256 a.C.

Os Zhou (também chamados de 'Chou") eram uma poderosa família vinda do oeste do país, derrubaram os Shang e assumiram o poder. Para obter apoio, costumavam distribuir terras aos seus aliados. Esse apoio vinha de famílias nobres, que detinham riquezas. Cada uma dessas famílias governava uma cidade ou província.

Em caso de guerra, eles ajudavam o exército do rei fornecendo soldados, armas ou alimentos. Os territórios controlados por essas famílias foram ficando cada vez maiores e a China acabou sendo dividida em sete principados. Na prática, essa divisão acabou fortalecendo essas famílias e diminuindo o poder do imperador. Era uma situação muito semelhante ao que ocorreu mais tarde na Europa ocidental durante o feudalismo, em que o poder dos senhores feudais era, na prática, maior que o dos reis.

Não demorou para os sete principados entrarem em guerra entre si. Essa guerra durou anos (480-221 a.C., período conhecido como "Época dos Estados Guerreiros") e foi vencida pelo primeiro reino de Qin (ou Chin). Esse reino era afastado dos outros que se enfrentaram entre si. Por isso, sofreu menos os efeitos das guerras e se tornou o mais rico e poderoso. Os reis de Qin organizaram um grande exército e equiparam seus soldados com espadas e lanças de ferro, uma inovação para a época. A vantagem sobre os inimigos era que uma espada de ferro podia cortar ao meio uma feita de bronze.

4) Qin, 221-207 a.C.

Usando de extrema força, o rei de Qin, que saiu vencedor da guerra que marcou o final da dinastia Zhou, conquistou um território após o outro e os incorporou ao seu reino. Por volta do ano 221 a.C. ele já havia conquistado quase toda a China. Esse rei assumiu o título de Qin Shi Huangdi, que significa "primeiro rei de Qin". Ao concentrar o poder em suas mãos, Qin Shi Huangdi se tornou o fundador do Império Chinês. Foi ele quem estabeleceu, pela primeira vez na História, um Estado unificado chinês.

Entre as medidas adotadas por Huangdi para garantir a unidade do império estavam: adoção de um único sistema de pesos e medidas, de escrita e de moeda em todo o Império. Para vigiar os outros nobres, Huangdi ordenou que os antigos governantes dos principados se mudassem para a capital. Esses nobres foram obrigados a entregar suas armas, que foram fundidas e transformadas em estátuas e sinos.

Huangdi também promoveu a realização de concursos públicos para o preenchimento de cargos. A intenção do imperador era selecionar os candidatos mais qualificados para ocupar os cargos públicos. Tratava-se de um sistema inovador para a época, pois os candidatos eram escolhidos com base no mérito e não na origem social ou por "apadrinhamento".

Por isso, costuma-se dizer que foi na China que surgiu a ideia de meritocracia. Os funcionários que ocupavam esses cargos públicos se encarregavam de tarefas como cobrar e arrecadar impostos, administrar os recursos etc.

Exército de esculturas

Outra medida adotada por Huangdi foi o recrutamento de camponeses para trabalharem na construção de obras públicas. Uma dessas obras foi a construção da famosa Grande Muralha, cujo primeiro trecho começou a ser construído durante o reinado desse imperador. Os camponeses também eram recrutados para o serviço militar.

Antes de morrer, Huangdi ordenou que fossem feitas cerca de sete mil estátuas de guerreiros para serem colocadas a 1.500 metros a leste de seu túmulo. Essas estátuas eram de terracota (argila cozida em forno) e foram feitas em tamanho natural. Além disso, foram feitas algumas estátuas de cavalos em tamanho natural, e mais de cem carros de madeira. Esse "exército" guardaria o túmulo do imperador, afugentando ladrões e intrusos.

Para a construção do mausoléu do imperador foram utilizados cerca de 700 mil trabalhadores. Após alguns anos de serviço, esses trabalhadores teriam sido enterrados vivos por ordem do imperador, para que a obra permanecesse em segredo.

5) Han, 206 a.C. - 220 d.C.

Com a morte do imperador Huangdi, teve início uma grande crise política na china. Aproveitando-se dessa crise, um líder chamado Liu Bang tomou o poder e inaugurou a dinastia Han. Uma das características dessa dinastia foi a política de presentes, que consistia em conceder presentes caros aos seus vizinhos da Ásia central. Tratava-se de uma forma de comprar aliados.

Esses presentes consistiam em grandes quantidades de tecidos de seda, espelhos de bronze, perfumes, peças de cerâmica e joias. Além dos presentes, os Han ofereciam banquetes e festas a seus vizinhos.

Foi na época dos Han que os chineses, que se julgavam o centro do mundo (daí chamarem seu país de "Império do Meio") descobriram que outros povos viviam a oeste de suas fronteiras, souberam inclusive da existência de um certo Império romano. Isso ocorreu quando Wu Ti, um imperador Han, enviou no ano 138 a.C. uma missão diplomática à Ásia Central, com o objetivo de estabelecer uma aliança com os turcos para combater os hunos.

Rota da seda

A construção de outros trechos da Grande Muralha nessa mesma época ajudou a abrir um caminho da china para o Ocidente. Ao ser ampliada, a Muralha acabou atravessando regiões montanhosas e desertos (inclusive o famoso deserto de Gobi). Poços profundos foram cavados para fornecer água para as caravanas. O caminho ficou conhecido como "A Rota da seda".

A demanda por seda chinesa estava alta em mercados como a Pérsia, a Turquia, a Índia e até o Império romano. Os dois impérios, romano e chinês, sabiam um da existência do outro, mas a enorme distância, aliada a dificuldade de transporte da época, tornou inviável um contato mais estreito entre eles.

Durante a Dinastia Han, a China conheceu um considerável aumento da população e uma série de avanços técnicos. Entre esses avanços estavam a invenção do carrinho de mão (bastante útil para transportar cargas pesadas em caminhos estreitos e tortuosos); o aperfeiçoamento da produção de ferro (com o qual faziam objetos como espadas e estribos) e a invenção do moinho movido a água, usado para moer cereais e na fundição de ferro e cobre.

Revoltas camponesas

Apesar do desenvolvimento técnico, os camponeses, que constituíam a imensa maioria da população, continuavam enfrentando condições ainda muito precárias de vida. Por isso, durante os dois primeiros séculos da Era Cristã, ocorreram violentas revoltas camponesas que foram duramente reprimidas. Segundo historiadores da corrente marxista, especialmente nos países que adotaram o regime socialista, a escravidão por dívidas era comum na China durante a Dinastia Han.

Outros historiadores discordam, afirmando que não existia escravidão, mas sim uma forma de servidão. Em todo caso, escravos ou servos, a certeza é uma só: os camponeses viviam em condições miseráveis e eram extremamente explorados pelos poderosos.

As revoltas camponesas contribuíram para o enfraquecimento do Império, o que trouxe o fim do domínio dos Han. O Império da China acabou se dividindo em três reinos: Wei (no norte), Wu (no oeste) e Shu (no leste e no sul). Essa divisão em três reinos durou do ano 220 ao ano 265 da Era Cristã.

Túlio Vilela formado em história pela USP, é professor da rede pública do Estado de São Paulo e um dos autores de "Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula" (Editora Contexto).



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