Civilizações pré-colombianas: As origens do Império Asteca

Da Página 3 Pedagogia & Comunicação

As civilizações que se desenvolveram na América antes da chegada do colonizador europeu, as chamadas civilizações pré-colombianas, costumam exercer grande fascínio nos dias de hoje, atraindo o interesse do público e despertando a imaginação. Exemplo desse fascínio é o fato de essas civilizações continuarem servindo de inspiração para autores de diversas obras de ficção (filmes, livros, histórias em quadrinhos etc.).

É o caso, por exemplo, do Império Asteca, geralmente associado a sacrifícios humanos feitos com o objetivo de satisfazer deuses sedentos de sangue. Essa sede por sangue que caracterizava os deuses cultuados pelos astecas inspirou até os cineastas Quentin Tarantino e Robert Rodriguez a realizarem o filme "Um Drink no Inferno", que conta a história de pessoas que são obrigadas a enfrentar vampiros num bar em algum lugar do México.

Numa das cenas finais do filme, quando os únicos sobreviventes do massacre promovido pelos vampiros saem do bar, vemos que o estabelecimento foi construído próximo ao local onde estavam as ruínas de um templo asteca, o que nos leva a concluir que, segundo o filme, os deuses astecas eram vampiros.

Além dos sacrifícios humanos, porém, há muitos outros aspectos interessantes da civilização asteca, que era muito mais complexa do que se imaginava. Nesta entrevista, o historiador Túlio Vilela responde a algumas perguntas que pretendem esclarecer dúvidas sobre esses habitantes do México, anteriores à chegada dos espanhóis.

Quais são as principais diferenças entre as pirâmides astecas e as pirâmides egípcias?

No Egito Antigo, as pirâmides foram construídas para guardar as tumbas com as múmias e os objetos de valor dos mortos. No Império Asteca, as pirâmides tinham função bem diferente: eram templos com altares onde eram realizadas cerimônias religiosas, sacrifícios humanos especialmente. Daí uma das características que diferenciam as pirâmides astecas das egípcias: a presença de grandes escadarias. Por exemplo, a pirâmide de Tenochtlán, cidade que era a capital do Império Asteca, tinha 114 degraus, todos caiados de branco.

De que época data essa pirâmide, ou melhor, quando ela foi construída?

Também conhecida como Templo Maior, essa pirâmide começou a ser construída no ano de 1375. Desde sua construção, a Pirâmide de Tenochtlán foi ampliada diversas vezes, a última delas em 1487, quando, durante quase uma semana, milhares de pessoas foram sacrificadas como oferenda aos deuses. As fontes divergem quanto ao número exato, algumas falam em 3 mil pessoas enquanto outras falam que teriam sido mais de 80 mil. A maior parte dessa obra foi destruída em 1521, após a chegada dos conquistadores espanhóis liderados por Hernán Cortéz.

Onde precisamente se localiza essa pirâmide?

Suas ruínas, foram descobertas, por acaso, em 1978, na Cidade do México, quando trabalhadores da companhia de energia elétrica encontraram um relevo com a imagem de uma deusa asteca. No topo dessa pirâmide, viam-se dois altares, um em homenagem a Huitizilopchtli, deus do Sol e da guerra, o outro em homenagem a Tláloc, deus da chuva e da fertilidade.

Os astecas eram descendentes dos egípcios?

Para a maioria dos arqueólogos e historiadores, as semelhanças entre as civilizações asteca e do Antigo Egito não passam de meras coincidências. Ou seja, o fato de que essas duas civilizações construíram pirâmides e cultuaram deuses ligados ao Sol - Rá, no caso dos egípcios, e Huitizilopchtli, no caso dos astecas - não pode ser entendido como prova de uma suposta ligação entre essas culturas.

Mas o que explica essas semelhanças?

Essas semelhanças são resultado de paralelismo, um fenômeno bastante comum na evolução cultural de diferentes civilizações: povos que jamais mantiveram contato entre si podem desenvolver características semelhantes, desenvolvendo soluções semelhantes para problemas semelhantes. Por exemplo, a maioria das civilizações antigas dependia muito da agricultura, que estava sujeita às mudanças climáticas, períodos de seca, de chuvas etc. Por isso, em várias culturas, de diferentes épocas e lugares, encontramos divindades ligadas à chuva, aos trovões e à fertilidade: Zeus, na mitologia grega, Thor, na mitologia nórdica, Tláloc, na mitologia asteca...

Também há uma grande diferença entre as épocas em que essas civilizações floresceram...

Claro, egípcios e astecas estavam muito separados no tempo e no espaço: enquanto a civilização egípcia surgiu no norte da África milênios antes de Cristo, o Império Asteca localizava-se na América do Norte e existiu do século 14 ao 16 da nossa Era. O que não impede que escritores de ficção e de livros sensacionalistas aproveitem essas semelhanças para lançar novas obras apresentando a ideia de que os astecas teriam alguma ligação com os antigos egípcios. O que é menos conhecido do grande público são as semelhanças entre a arte - pinturas, esculturas, templos com relevos, colunas com inscrições... - produzida pelos astecas e outras civilizações pré-colombianas, como são chamadas as culturas que já existiam na América antes da chegada de Colombo, com a arte produzida por antigas civilizações no Extremo Oriente, especialmente na China e na Índia.

É verdade que os astecas tinham conhecimentos de astronomia?

Sim. Foi por meio desses conhecimentos que os astecas puderam elaborar um calendário solar. Esse calendário era tão preciso que os historiadores, ao lerem textos astecas escritos antes da chegada dos espanhóis, podem saber em que ano exatamente ocorreu determinado fato. Por exemplo, sabemos que Tenochtlán, capital do Império Asteca, foi fundada no ano do calendário asteca que corresponde ao nosso ano de 1325. No entanto, os conhecimentos astronômicos dos astecas estavam muito mais ligados ao que hoje chamamos de astrologia (a crença de que os astros influenciam no destino das pessoas) do que com a astronomia propriamente dita (o estudo científico dos astros).

A que isso se deve?

Isso se deve ao fato de que a religião dos astecas era astral, isto é, baseava-se nos astros. Vale lembrar que os astecas entraram em contato com outros povos vizinhos e absorveram muitos elementos das culturas desses povos. Os maias, por exemplo, que viveram na península de Iucatã [região que hoje corresponde aos territórios da Guatemala, de Honduras e Belize], tinham astrônomos que previam com precisão os eclipses do Sol, descreviam as fases do planeta Vênus e elaboravam calendários. Embora os maias tenham, por razões que ainda permanecem misteriosas, abandonado suas cidades a partir do ano 900, muito antes do surgimento do Império Asteca, eles influenciaram os povos da região, espalhando seus conhecimentos.

Por que os astecas realizavam sacrifícios humanos?

Para compreender os sacrifícios humanos na religião asteca, é preciso conhecer a visão que os astecas tinham do mundo. Eles acreditavam que, antes da criação deste mundo, existiram outros quatro, que foram destruídos em catástrofes como dilúvios, terremotos e "chuvas de fogo". Segundo essa crença, este mundo também estaria fadado a ser destruído e substituído por outro. Para os astecas, portanto, tudo acontecia em ciclos que se repetiam: tudo o que acontece é uma repetição do que já aconteceu antes e se repetirá no futuro; este mundo foi criado e será destruído como aconteceu com os mundos anteriores e acontecerá com os mundos que surgirão depois deste. Para evitar esse destino, os astecas acreditavam que era necessário oferecer sangue humano para os deuses. Afinal, segundo a crença dos astecas, os deuses também deram o sangue deles.

Você pode dar um exemplo...

O mito de Quetzacoatl, deus com a aparência de uma serpente de plumas. Segundo o mito, no passado, Quetzacoatl tirou ossos do inferno e regou-os com o seu próprio sangue, concedendo-lhes vida. Assim, para os astecas, os seres humanos descendiam desses ossos que foram regados pelo sangue de Quetzacoatl. Quem teria imposto os sacrifícios humanos foi Tezcatlipoca, deus da noite, que teria expulso Quetzacoatl da cidade de Teotihuacán.

As guerras também tinham um aspecto religioso para os astecas?

As guerras desempenhavam importante papel na religião dos astecas, pois os prisioneiros de guerra eram sacrificados nas cerimônias religiosas. Por isso, do ponto de vista dos astecas, era mais interessante aprisionar os inimigos, para sacrificá-los depois, do que matá-los em combate. Com as conquistas de novos territórios pelos astecas, as guerras se tornaram mais raras. Para resolver o problema e obter novos prisioneiros de guerra para os sacrifícios, a solução encontrada pelos sacerdotes astecas foi a "guerra florida": torneios organizados com regras a serem cumpridas por todos os participantes. O resultado dos combates era interpretado como a expressão da vontade dos deuses: aqueles que fossem derrotados deveriam ser sacrificados para o deus Huitizilopchtli, deus do Sol e da guerra.

É de se supor que isso tudo chocou os espanhóis na sua chegada...

O costume asteca de realizar sacrifícios humanos revoltou os conquistadores espanhóis. No entanto, vale lembrar, a violência não era exclusiva dos astecas: os espanhóis que se revoltaram com os sacrifícios humanos tinham vindo da Espanha na mesma época em que os tribunais da Inquisição ordenavam torturas e condenavam pessoas à fogueira.

Da Página 3 Pedagogia & Comunicação formado em história pela USP, é professor da rede pública do Estado de São Paulo e um dos autores de "Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula" (Editora Contexto).



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