Descoberta da América: As viagens de Cristóvão Colombo

Carlos Guilherme Mota
(Atualizado em 20/06/2014 às 16h13

  • Joel Silva/Folhapress

O historiador Carlos Guilherme Mota concedeu a entrevista que segue ao site Educação, do UOL, sobre o descobrimento da América, ocorrido em outubro de 1492.

Para começar, pode-se encarar a travessia do Atlântico por Cristóvão Colombo como uma grande aventura?

Sim, mas não se tratou de uma aventura isolada. Ela ocorreu num contexto mais amplo, em que europeus de diversas nações, em especial espanhóis e portugueses, voltavam sua atenção para a atividade mercantil e aumentavam seus conhecimentos de navegação.

Por que isso ocorria?

Tanto o descobrimento da América, em 1492, quanto o do Brasil, em 1500, estão ligados à expansão comercial europeia, no fim da Idade Média. Em 1453, os turcos tomaram Constantinopla e bloquearam o comércio europeu com as Índias pelo mar Mediterrâneo. Isso acelerou a procura de caminhos alternativos aos que vinham sendo trilhados desde a Antiguidade.

O Renascimento que marca o fim da Idade Média pode ser relacionado às Grandes Navegações e aos descobrimentos?

Sem dúvida. Afinal, o Renascimento foi um movimento cultural, técnico e científico. A cartografia conheceu grande desenvolvimento, revelando o verdadeiro tamanho da Terra, com maior precisão nas medidas. O aperfeiçoamento da náutica, o astrolábio, o conhecimento dos astros, o surgimento de novas embarcações, como a caravela, tudo isso contribuiu, principalmente, para a expansão da mentalidade europeia.

As pessoas da época tinham consciência dessa expansão?

Colombo tinha uma certa consciência do que estava ocorrendo. Ele costumava dizer: "Andando mais, mais se sabe".

Nesse sentido, de mentalidade e não de biografia, quem era Cristóvão Colombo?

Era um homem de um tempo de transição, que ainda guardava características do homem medieval: apegado à Bíblia, respeitava a Inquisição e acreditava na ideia de "civilizar" os povos que encontrara no Novo Mundo. Ao mesmo tempo, ele só pôde chegar ao que pensava serem as Índias porque dominava certas técnicas e elementos da moderna ciência da natureza.

E como era, de maneira geral, a mentalidade do homem europeu da época?

As mentes europeias eram dominadas pelos mitos: as fontes de ouro estariam na costa africana, o Paraíso terrestre estava à espera dos aventureiros e descobridores. Os pescadores anônimos alimentavam lendas, contavam histórias fantásticas sobre as ilhas Malditas e Afortunadas, sobre ilhas perdidas... histórias que faziam parte de sua tradição oral. Eram homens que desbravavam os oceanos em busca de alimento. Mas é bom lembrar que, de concreto, os italianos de Florença têm notícia de uma possível rota ocidental para o Oriente das especiarias.

Portugal, entretanto, parece ter preferido não seguir essa rota ocidental...

Os portugueses estavam divididos no que se refere a procurar o caminho das Índias. Explorar gradualmente a costa africana e dobrar o cabo das Tormentas, depois chamado de Boa Esperança, ou tentar a rota ocidental? A ideia de que a Terra é esférica já estava evidente para viajantes como o mestre João Farras, que seria membro da tripulação de Cabral... De qualquer modo, prevaleceu a tese de uma exploração paciente pela costa da África. A propósito, era essa mesmo a opção correta para se chegar às Índias das especiarias, a Índia atual, bem como à China e ao Japão, que então era conhecido como Cipango.

Quais eram os resultados práticos dessas viagens?

Foram entrando em circulação pelas cidades e feiras europeias as mercadorias vindas de fora do continente: ouro, escravos, açúcar, vinho, tinturas para tecido, cereais, várias especiarias. E de Portugal saíam utensílios de latão, de cobre, panos, sal. A expansão europeia alimentava-se de novas trocas. E, para ampliar seu alcance, precisava de homens: dentre muitos, Cristóvão Colombo foi um deles.

Qual a relação de Colombo, que era genovês, com Portugal?

Segundo uma lenda, numa expedição a Flandres, seu barco teria sido assaltado por um corsário francês; Colombo salvou-se a nado, retornando à costa portuguesa. O que se sabe com certeza é que Colombo conhecia bem Portugal, onde foi representante da família italiana Centurione, que negociava com os países ibéricos. Em 1479, ele estava em Lisboa, tratando do comércio de açúcar da ilha da Madeira. Nesse período ele certamente reforçou suas relações com o meio comercial e náutico de Lisboa. Fez viagens à costa africana e se se informou sobre as rotas comerciais.

Não é nessa época que ele mantém uma correspondência com o famoso cosmógrafo Paolo Toscanelli?

É. Ele escreveu cartas sobre a esfericidade da Terra e a possibilidade de descobrir o caminho das Índias navegando para o Ocidente.

Mas por que, afinal, Colombo não navegou sob a bandeira de Portugal?

Existem indícios de que ele ofereceu seus serviços ao rei dom João 2º. de Portugal, mas sem obter sucesso. Então, depois de algum tempo, Colombo acabou assinando um contrato com o rei da Espanha, em 17 de abril de 1492. Pelo contrato, foi nomeado Almirante dos Mares, Vice-rei e Governador das novas terras que eventualmente viesse a descobrir na Ásia.

Agora, por favor, vamos nos concentrar nas viagens de Colombo à América. Para começar a primeira...

Colombo deixou o porto de Palos, na Andaluzia, Espanha, em 3 de agosto de 1492. Comandava uma nau, a Santa Maria, e duas caravelas, Pinta e Nina. Graças aos ventos alísios, navegou com boa velocidade e logo alcançou a ilha Grande Canária. Ele escondeu de sua tripulação o número de léguas navegadas para não assustar os marinheiros, mas ainda assim enfrentou um motim. Afinal, em 12 de outubro encontrou a ilha de Guanaani, atual Watlig, no arquipélago das Bahamas. Batizou-a de San Salvador. Em 29 de outubro chegou à costa de Cuba e, a 15 de dezembro, ao Haiti, que chamou de Hispaniola. Em 16 de janeiro do ano seguinte, começou o regresso, mas Colombo deixou em Hispaniola cerca de 40 homens.

Como foi a recepção do navegador na Espanha?

O que você acha? Ele foi recebido em Palos, em 15 de março de 1493, com todas as honras. Estava no apogeu de sua glória, ao contrário do que ocorreu em sua segunda viagem à América, da qual retornou cansado e doente, ou da terceira, em que voltou preso, acorrentado...

Preso?

Na terceira viagem, surgiram conflitos, entre nativos e europeus, que Colombo não conseguiu controlar - e o representante da Coroa espanhola mandou prendê-lo. Seis semanas depois de seu regresso à Espanha, os reis ordenaram sua libertação.

O que há a destacar na segunda e na terceira viagens?

Os locais visitados ou descobertos, de que os espanhóis tomaram posse, como Porto Rico e a Jamaica, só para dar dois exemplos.

E quanto à quarta e última viagem?

Também foi uma viagem desastrada, que não atingiu seu objetivo. A tripulação foi assolada pela fome e por doenças. O governador das Índias Ocidentais, como se chamavam as terras descobertas, teve de arranjar uma pequena nau para Colombo regressar à Espanha, onde ele chegou em novembro de 1504, pouco antes da morte da rainha Isabel, a última aliada desse pioneiro, cujo prestígio decaíra muito.

Mas Colombo não parou de navegar...

(Risos) Nem depois de morto. De Valladolid, na Espanha, suas cinzas foram transferidas para Cuba e colocadas no centro da capital, Havana. Posteriormente, foram doadas à República Dominicana, mas acabaram sendo mandadas de volta à Espanha, onde se encontram hoje, na catedral de Giralda, em Sevilha.

Por que a América não se chama Colômbia, em homenagem ao descobridor?

Porque Américo Vespúcio publicou, em 1503, o livro "Mundo Novo", em que defendia a ideia de que as terras encontradas faziam parte de um continente desconhecido e não da Ásia. Em homenagem a esse navegador, também italiano, que provou sua tese por meio de estudos e viagens, adotou-se o nome de América para o novo continente.

Para terminar, qual o significado do descobrimento da América?

É um dos acontecimentos mais importantes dentre os que definem o início da história moderna. As navegações de Colombo provaram a esfericidade da Terra e permitiram que os europeus entrassem em contato com civilizações que desconheciam. Isso abriu um novo capítulo na história da expansão europeia, marcada pela guerra de extermínio que sucedeu ao longo do período colonial, inclusive nas terras que constituíram o Brasil atual. Houve, sim, genocídio. Os historiadores de hoje até se perguntam se houve um descobrimento ou o "cobrimento" de várias civilizações indígenas. De minha parte, fico com a ideia de "cobrimento"!

Carlos Guilherme Mota é professor titular em História pela Universidade de São Paulo e tem pós-doutorado na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Foi professor visitante das Universidades do Texas, Londres e Stanford.



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