Escravismo no Brasil: A resistência de africanos e descendentes

Érica Turci

Entre os séculos XVI e XIX, milhares de africanos foram feitos prisioneiros em suas terras natais e levados para servir como mão de obra escrava em diversas regiões do mundo, principalmente nas Américas. Tratados como uma mercadoria, negociados de feira em feira, aprisionados em barracões e em porões de navios negreiros, esses indivíduos sofriam com a fome, com a sede e com as inúmeras doenças que contraíam, devido à subnutrição e às péssimas condições de higiene nas quais eram obrigados a viver.

Ao chegarem aos seus destinos, em terras muito distantes, eram novamente trancafiados em outros barracões. E ali esperavam seus compradores, ou seja, os seus novos senhores.

Os escravos africanos no Brasil

A sociedade escravista brasileira necessitava de mão de obra para a lavoura e a mineração. Para suprir esse mercado, a maioria dos escravos africanos negociados aqui eram homens e tinham entre 15 e 30 anos de idade.

Um problema que os escravos recém-chegados encontravam era saber se comunicar, principalmente para entender as ordens que recebiam. Os escravos que ainda não sabiam falar o português eram chamados de boçais. Os que já tinham algum conhecimento da língua eram chamados de ladinos. Existiam também os crioulos, que eram os escravos nascidos no Brasil e, portanto já estavam integrados à cultura local.

Assim que chegavam aqui, os escravos perdiam o direito de usar o seu nome africano e de praticar as suas antigas tradições. Eram batizados segundo a fé católica e recebiam nomes portugueses, como João, Joaquim, Maria. Por isso suas origens acabaram sendo apagadas dos registros históricos.

Ainda hoje, os pesquisadores têm dificuldade para identificar que grupos - das milhares de etnias africanas - chegaram ao Brasil, já que recebiam o nome do porto africano por onde tinham sido embarcados. Os principais portos eram da Costa da Mina, de Luanda, de Benguela e de Cabinda. E assim os escravos passavam a ser chamados de Mina, Congo, Angola, Benguela, Cabinda. Por exemplo: Maria Mina, José Cabinda.

Hoje sabemos, por exemplo, que pelo porto de Luanda - de onde saiu a maior quantidade de escravos para o Brasil - embarcaram as etnias dembos, ambundos, imbangalas, lundas e diversas outras. Os africanos eram tratados como se fossem um único povo, cuja cultura era considerada "inferior". Por isso eram obrigados a trabalhar em situações degradantes, vivendo de forma precária, sendo punidos com violência caso não cumprissem as ordens que lhes eram dadas. Existiram exceções a essa regra?

Sim. Alguns africanos conseguiram viver em melhores condições, outros até mesmo chegaram a ter escravos seus. Mas foram poucos. A regra era: submissão, exploração, desrespeito, humilhação. De qualquer forma, os africanos e os seus descendentes foram se tornando brasileiros: aprenderam a língua e passaram a seguir (ao menos aparentemente) os padrões culturais que lhes era imposto. Mesmo por que precisavam sobreviver à nova condição em que se encontravam: eram escravos numa terra distante, e não tinham nenhuma possibilidade de retornar à África.

A resistência dos escravos

Muitos escravos não aceitavam a vida que lhes era imposta e resistiam de diversas formas: suicidavam-se, não cumpriam as ordens que recebiam, assassinavam seus senhores, fugiam, rebelavam-se. Alguns africanos sofriam uma depressão profunda, chamada de banzo, o que podia levar a morte por inanição.

Os senhores de escravos tinham horror a qualquer tipo de resistência, pois além de temerem por suas vidas, temiam perder todo o dinheiro investido na compra do seu escravo. Muitos escravos fugitivos se organizaram em quilombos. Na África, o kilombo era um acampamento militar dos jagas (guerreiros imbangala), e aqui no Brasil se tornou uma comunidade que se organizava para resistir à sociedade escravista.

O mais famoso quilombo foi o dos Palmares, fundado na Serra da Barriga, na então capitania de Pernambuco (hoje Alagoas), no século 17, mas existiram centenas de quilombos por todo território brasileiro. Na província de São Paulo, por exemplo, um dos maiores quilombos foi o do Jabaquara, foi fundado no século 19 na serra de Cubatão.

Alguns escravos fugiam por um tempo, mas retornavam ao seu senhor em troca de melhores condições de vida. Havia também escravos que fugiam e tentavam a sorte em outra região, dizendo ser um liberto. Outra forma de resistência era o assassinato do senhor ou de funcionários, como o feitor, por exemplo. Nesse sentido é interessante observar a definição que a Enciclopédia Larousse traz para a guiné: Planta herbácea, perene, com característico odor que lembra o alho. As raízes tem propriedades antiespasmódicas, abortivas, sudoríficas, diuréticas, anti-reumáticas, mas em doses elevadas podem provocar a morte. Os escravos conheciam o efeito tóxico dessa planta e chamavam-na de "amansa-senhor".

Durante os quatro séculos em que a escravidão existiu no Brasil, muitas rebeliões ocorreram, mas pouco se conhece sobre elas, já que nessa época as autoridades máximas eram os próprios senhores de escravos, e poucos deles registraram esses episódios. A rebelião de escravos que mais teve repercussões foi a Revolta dos Malês, em 1835 na Bahia.

Os africanos resistiram e se impuseram de diversas formas, legando-nos, por exemplo, palavras do nosso vocabulário, pratos de nossa culinária, festas populares, crenças religiosas, instrumentos musicais. A transmissão de seus valores culturais talvez seja a mais importante forma de resistência dos africanos, que não se renderam aos padrões que lhes foram impostos. Os africanos e seus descendentes participaram da construção do Brasil e do povo brasileiro, e não podemos pensar a nossa cultura sem entender (e reverenciar) a nossa herança africana.

Érica Turci é historiadora e professora de história formada pela USP.

Bibliografia

  • FRAGA, Walter e ALBUQUERQUE, Wlamyra R.. Uma história da cultura afro-brasileira. São Paulo: Moderna, 2009.
  • LOPES, Nei. História e cultura africana e afro-brasileira. São Paulo: Barsa Planeta, 2008.
  • MAESTRI, Mario. O escravismo no Brasil. São Paulo: Atual, 1994.
  • MATTOS, Regiane A.. História e cultura afro-brasileira. São Paulo: Contexto, 2007.
  • SLENES, Robert W.. Senhores e subalternos no Oeste Paulista. In: História da Vida Privada no Brasil, vol. 2. Org.: Luiz Felipe de Alencastro. São Paulo: Cia. Das Letras, 1997.
  • SOUZA, Marina de Mello. África e Brasil africano. São Paulo: Ática, 2005.

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