Independência da Argentina: Espanha enfrentou luta por autonomia e influência inglesa

Érica Turci

Dentro do processo de colonização espanhola da América, o Vice-Reino do Rio da Prata (ou Vice-Reino do Prata) foi o último fundado pela Espanha. Por ser muito distante da Europa e não possuir metais preciosos, a região não atraiu o interesse espanhol, o que permitiu aos colonos, durante muitas décadas, o gozo de ampla autonomia.

Somente quando a presença portuguesa - bem como o contrabando da prata extraída da Bolívia - cresceu na Bacia Platina é que os espanhóis resolveram dar mais atenção ao extremo sul da América, fundando ali um vice-reino (1776) que incluía parte da atual Bolívia e os territórios que hoje correspondem ao Paraguai, ao Uruguai e à Argentina.

Apesar de Buenos Aires ter se tornado a capital do vice-reino, a histórica autonomia das províncias se impunha como realidade política e econômica na região. Enquanto os portenhos (ricos comerciantes criollos, habitantes de Buenos Aires) buscavam centralizar a administração, no Uruguai, no Paraguai, no distante Alto Peru (Bolívia) e nas províncias do interior da Argentina imperava uma administração local que se recusava a cumprir as ordens vindas da capital.

Essa situação tornou-se ainda mais aguda durante as guerras de independência.

Ingleses tentam conquistar o sul da América

Outro elemento complicador foi a Inglaterra. Quando, no final do século 17, a Espanha resolveu reatar sua aliança com a França, passou a ter os ingleses como inimigos. Estes, por sua vez, ampliaram o contrabando com as colônias espanholas da América e passaram a apoiar a independência dos hispano-americanos.

Ainda no contexto dessas relações conflituosas entre Espanha e Inglaterra, em abril de 1806 uma expedição militar inglesa (não oficial) partiu do Cabo da Boa Esperança (África do Sul) e chegou a tomar Buenos Aires. Os colonos, sem contar com o auxílio da Espanha - que estava envolvida em guerras europeias -, tiveram de se organizar por conta própria. De Montevidéu (Uruguai) partiram tropas, lideradas por Santiago de Liniers, que conseguiram expulsar os invasores.

Uma nova tentativa de conquista ocorreu no ano seguinte, e os ingleses chegaram mesmo a tomar Montevidéu, mas quando partiram para a conquista de Buenos Aires foram novamente vencidos por milícias locais.

Esses episódios foram muito importantes para os colonos, pois:

  • ficou claro que a região não precisava do auxílio metropolitano;
  • as milícias de voluntários acabaram por se tornar tropas locais, independentes e contrárias à Espanha;
  • Santiago de Liniers foi escolhido, em 1807, como novo vice-rei, sem que a Espanha o tivesse indicado.

Como vemos, as tentativas inglesas de controle da região somaram-se à autonomia das províncias, fazendo com que o espírito independentista crescesse entre os colonos do Rio da Prata.

Tal situação se agravou ainda mais quando Napoleão Bonaparte tomou o trono espanhol (1808): a crise se instalou no Vice-Reino do Prata, pois cada província passou a buscar seu próprio caminho rumo à independência, enquanto Buenos Aires tentava manter sua soberania.

E mesmo depois de 1808, quando a Espanha rompeu com a França (pois Napoleão aprisionara o rei Fernando 7º), os ingleses mantiveram uma diplomacia dúbia: publicamente, eram aliados das Juntas Governativas na Espanha, mas, ao mesmo tempo, de maneira extraoficial, continuavam apoiando os rebeldes nas colônias.

Rebeliões

Em 25 de maio de 1810 ocorreu a Revolução de Maio: uma Junta de Governo foi formada em Buenos Aires, com o apoio das milícias de voluntários das guerras contra os ingleses.

Essa Junta jurou fidelidade a Fernando 7º, mas se recusava a cumprir as ordens vindas da Junta de Sevilha (o governo provisório da Espanha), o que, na prática, significava a declaração de independência.

Contudo, como a principal reivindicação da junta portenha era o direito ao controle de todas as regiões do vice-reino, as províncias, reafirmando sua autonomia, se revoltaram.

Montevidéu se declarou a favor da Junta de Sevilha, a fim de rivalizar com a Junta de Buenos Aires. O Paraguai e o Alto Peru se mantiveram à parte, não enviando representantes à Junta de Buenos Aires.

Em 1811, o Paraguai de separou definitivamente de Buenos Aires, declarando sua independência, sob a liderança do ditador José Gaspar Rodrigues Francia.

No Uruguai, as lutas foram intensas, já que portugueses e brasileiros desejavam anexar a região. Depois de longa guerra, o Uruguai foi incorporado ao Império Português (1821), transformando-se na Província Cisplatina.

No interior da atual Argentina, várias regiões se rebelaram contra a Junta de Buenos Aires. Foram submetidas pelas tropas portenhas, mas continuaram lutando pela autonomia local.

Somente em 1816, com a definitiva proclamação de independência, surgiu o país denominado Províncias Unidas do Rio da Prata, que tinha como princípio o federalismo. Mais uma vez, os criollos portenhos tiveram que ceder.

Diante dessa realidade, restava a Buenos Aires a luta pela manutenção do controle sobre a Bolívia e suas ricas minas de prata (Potosí). Por isso, várias tropas foram enviadas para a região, a fim de anexá-la. Mas as dificuldades geográficas e logísticas - principalmente no que se refere a ultrapassar a Cordilheira dos Andes - e a presença maciça de espanhóis na colônia vizinha (Peru), transformou tal empreitada em algo quase impossível.

Somente a genialidade de San Martín, militar argentino, conseguiu superar tais problemas. Mas quando chegou à Bolívia, as lutas locais já eram tão intensas, que ele não conseguiu manter a região sob o controle de Buenos Aires.

Dessa forma, o centralismo defendido pelos portenhos foi sendo dilapidado e o Vice-Reino do Prata se desintegrou. Somente em 1863 Buenos Aires conseguiu se tornar a capital das províncias da atual Argentina.

Érica Turci é historiadora e professora de história formada pela USP.

Bibliografia

  • BETHELL, Leslie (org.) História da América Latina: da Independência até 1870. SP.: Edusp; Imprensa Oficial do Estado; DF.: Fundação Alexandra Gusmão, 2001, p. 19.
  • DORATIOTO, Francisco. Espaços nacionais na América Latina: da utopia bolivariana à fragmentação. SP.: Brasiliense, 1994.
  • FERRO, Marc. História das colonizações: das conquistas às independências. SP: Cia. das Letras, 1996.


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