Pré-história da América: Povoamento do continente e primeiras civilizações

Érica Turci
(Atualizado em 29/04/2014, às 15h40)

O caçador se abaixou e aproximou suas narinas do solo. Queria descobrir ali o que há dias não encontrava no ar. O cheiro forte da manada de bisontes, que se acostumara a rastrear com facilidade, tinha desaparecido. Isso o preocupava. Não só pela fome que já o atormentava, mas por que sabia da importância da carne para a sobrevivência de seu grupo. Sem a caça, a tribo que liderava estaria condenada à extinção. Ele estava acostumado a vaguear por extensos territórios em busca de alimentação. Porém, nunca tinha ido tão longe. A paisagem que o cercava era inteiramente nova.

Um relato fictício como esse serve para ilustrar o que deve ter ocorrido na última Era Glacial (entre 70 mil e 12 mil anos atrás), numa época em que, devido ao congelamento, o nível do mar teria baixado em torno de cem metros. Com isso, criou-se uma imensa faixa de terra unindo o que são hoje os territórios da Ásia e do Alasca, na América do Norte. Esse território, chamado de Beríngia, localiza-se onde hoje se situa o estreito de Bering e teria se tornado uma verdadeira ponte pela qual grupos de caçadores asiáticos teriam chegado ao continente americano no rastro dos animais que se deslocavam pelo mesmo caminho.

Entretanto, essa não é a única teoria levantada para explicar o aparecimento do homem na América. Outra linha da pesquisa científica defende que povos da Malásia ou da Polinésia teriam se deslocado pelo oceano Pacífico e chegado à América em torno de 14 mil anos atrás. A questão mais debatida é quais teriam sido as datas de tais migrações? Muitos defendem que teriam ocorrido a partir de 12 mil anos atrás, outros falam em torno de 40 mil anos. De qualquer forma, essas duas teorias, em conjunto, contribuem para o estudo da origem do homem americano, auxiliando na compreensão das diferenças físicas e culturais dos primeiros habitantes do continente.

A cada nova pesquisa, a cada novo sítio arqueológico encontrado, mais dúvidas e discussões emergem. Na década de 70 do século passado, por exemplo, descobriu-se o sítio arqueológico da Serra da Capivara no estado brasileiro do Piauí. Os vestígios humanos pré-históricos datam ali de 50 mil anos, mais antigos, portanto, que os sítios arqueológicos europeus com seus meros17 mil anos.

Agricultura: uma revolução

Desde que chegou as Américas, o homem se espalhou muito lentamente por todo o território continental, ocupando-o por completo. Por muitos milhares de anos os grupos humanos eram nômades e viviam exclusivamente da caça e da coleta de frutas, raízes e sementes. Somente após o derretimento das geleiras (fim da Era Glacial) e a extinção dos grandes mamíferos (mamutes, bisões, mastodontes, etc.), os grupos humanos passaram a buscar na vegetação sua principal fonte de alimento.

A agricultura começou a ser praticada nas Américas entre 7 mil e 5 mil anos atrás, o que garantiu para os povos da época maior quantidade de alimento, maior expectativa de vida, aumento populacional, sedentarização e maior disponibilidade de tempo. Provavelmente, isso levou a uma observação mais cuidadosa da natureza, possibilitando uma melhor compreensão do meio ambiente, o que foi essencial para o desenvolvimento da pecuária, da cerâmica, da tecelagem, da sistematização de uma religiosidade.

Por volta do terceiro milênio antes de Cristo surgiram as primeiras aldeias agrícolas da América. Os principais vegetais cultivados eram o milho, a batata, o feijão e a abóbora. Em pouco mais de mil anos a técnica agrícola se expandiu por várias regiões do continente, embora não se saiba ainda como isso ocorreu. De qualquer forma, a partir daí teriam se originado os centros cerimoniais, que os arqueólogos consideram o inicio das civilizações americanas.

Religião, comércio e administração

Várias aldeias agrícolas passaram a se reunir em torno de centros religiosos, comerciais e administrativos, chamados de centros cerimoniais. Cada um deles contava com uma elite de sacerdotes que o administrava e necessitava do trabalho de milhares de homens para produzir alimento, defender e trabalhar nas construções monumentais. Apesar de as aldeias manterem sua autonomia, os centros cerimoniais eram lugares que reuniam os povos de diversas regiões, para ali tratarem de assuntos comuns.

Por isso, fala-se da formação de uma cultura mais ampla a partir desses centros, dos quais os mais famosos foram:

Centro Cerimonial Povo Período Região
San Lorenzo, La Venta, Tres Zapotes Olmecas 1500 a.C. - 100 a. C. Golfo do Maranhâo
Caral povos andinos, não se sabe exatamente quais 2600 a. C. - 1800 a. C. Norte de Lima (Peru)
Chavin de Huantar povos andinos, não se sabem exatamente quais 900 a.C. - 200 a.C. Margens do rio Maranhâo (Peru)

Apesar de se localizarem em regiões muito distantes, tais centros tinham características comuns como a existência de uma elite de sacerdotes que controlava a administração; uma religião ligada à natureza, na qual o sacerdote (xamã) era associado ao jaguar (ou onça pintada - cultuada em toda a América); um planejamento arquitetônico impressionante, que contava com amplas avenidas e praças públicas organizadas a partir dos pontos cardeais; construção de obras monumentais como pirâmides (a pirâmide de Caral, no Peru, é uma das maiores do mundo), templos, estelas, esculturas com mais de dois metros de altura.

Todas essas características apontam para existência de uma sociedade rigidamente organizada, que podia dispor de mão-de-obra para o funcionamento desses centros cerimoniais: agricultores, ceramistas, tecelões, escultores, militares e os "cientistas" da época, por que não seria possível construir cidades tão complexas sem conhecimento matemático, geográfico, geológico, arquitetônico.

Com o passar do tempo, esses centros cerimoniais se tornaram cidades que, devido a uma grande importância, mesmo depois de sua decadência, continuaram a influenciar os povos da Mesoamérica e dos Andes. Muitas das características dessas cidades foram encontradas em centros urbanos posteriores: Teotihuacan (México), cidades Zapotecas (México), Chan-Chan (Peru), Tiwanaco (Bolívia), e também nas grandes civilizações da América: os Maias (Mesoamérica), os Astecas (Mesoamérica) e os Incas (Peru).

Érica Turci é historiadora e professora de história formada pela USP.

Bibliografia

  • AGUIRRE, Isabel Margarita [dirección general]. Los primeros americanos y sus descendientes. Chile: Museo Chileno de Arte Pré-colombiano. Editora Antártica, 1988.
  • NEVES, Walter. A. Pioneiros da América, in Revista Historia Viva. nº 62. São Paulo: Editora Duetto, s.d..
  • SANTOS, Eduardo Natalino. Cidades Pré-hispânicas: do México e da América Central. São Paulo: Editora Saraiva, 2004.

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