Revolução Russa - Início: Domingo Sangrento, bolcheviques e mencheviques

Túlio Vilela, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

"Por que estudar a Revolução Russa? O que tenho que ver com isso?" Perguntas como essas são comuns na sala de aula. Talvez você mesmo já as tenha feito.

A verdade é que a Revolução Russa permanece atual por causa dos grandes debates que ainda gera. Estudando-a, você vai entender melhor muito do que aconteceu no século 20. Vai também entender algumas questões fundamentais da política contemporânea que se articulam a partir do debate entre direita e esquerda.

A Rússia é um país muito grande - o maior do mundo. É cerca de duas vezes maior que Brasil e ocupa grande parte de dois continentes -a Europa e a Ásia. Além disso, é rica em recursos naturais, sendo auto-suficiente em petróleo, por exemplo. Nos tempos do Império Russo, ela era ainda maior, incluindo outras áreas muito importantes, como a Ucrânia e os territórios muçulmanos da Ásia central.



Feudalismo e industrialização

Apesar disso, em fins do século 19 e inícios do século 20, a maioria da população russa era muito pobre e vivia no campo, em condições semelhantes às do feudalismo. O regime de servidão, que proibia os camponeses de deixarem as terras dos proprietários para os quais trabalhavam, foi abolido formalmente em 1863, mas, na prática, continuou a existir durante um bom tempo (o dono das terras podia escolher entre emancipar o servo na hora ou obrigá-lo a trabalhar para ele mais oito anos.)

Na mesma época, o país conheceu uma fase de modernização: graças a capitais estrangeiros, surgiu grande número de indústrias. Entretanto, os operários eram muito explorados: trabalhavam cerca de 12 horas por dia e ganhavam salários baixíssimos. Assim, havia muita pobreza tanto nas cidades quanto no campo.

Antes da Revolução, a Rússia era uma monarquia. O imperador era chamado de czar (lê-se "quizar", palavra que vem de "césar", o título dos imperadores na Roma antiga). O czar era considerado dono de toda a Rússia, e todos os seus súditos deviam servi-lo. Não bastasse isso, havia um argumento religioso para justificar a autoridade do czar, e o poder deste era considerado sagrado. Como não existia separação entre Igreja e Estado, os sacerdotes da Igreja Ortodoxa (a religião oficial) eram pagos com o dinheiro dos impostos. Ou seja, dinheiro que em grande parte vinha do trabalho dos camponeses e operários.



"Domingo Sangrento"

Como se vê, o czar tinha mais em comum com os antigos reis absolutistas (como Luís 14) do que com os soberanos das monarquias parlamentares (como a que existe hoje na Inglaterra). Apesar disso, ele era muito popular. O povo, mesmo quando se rebelava, punha a culpa dos problemas do país nos nobres, nos ministros, nos funcionários públicos, nos latifundiários ou (com muita frequência, sendo nisso apoiados pela propaganda oficial) até nos judeus. A figura do czar era sempre poupada, pois se achava que ele era bondoso e que seus assessores não o deixavam saber da verdadeira situação.

Mas isso mudaria num domingo, 9 de janeiro de 1905. A Rússia havia sido vencida pelo Japão numa guerra que teve início quase um ano antes. Essa derrota agravou ainda mais os problemas enfrentados pela população, causando uma onda de greves. Naquele dia, manifestantes se reuniram em procissão até o Palácio Imperial, em São Petersburgo. O objetivo era conseguir uma audiência com o czar para pedir aumento de salário e diminuição da jornada de trabalho. A multidão, que carregava imagens religiosas e cantava "Deus Salve o Czar", foi recebida a bala pela Guarda Imperial. Muitos morreram ou ficaram feridos. A partir de então, o 9 de janeiro seria lembrado como "Domingo Sangrento", e a popularidade do czar entraria em declínio.



A Primeira Guerra Mundial e a oposição

Muitos historiadores apontam a Primeira Guerra Mundial (que teve início em 1º de agosto de 1914) como a causa imediata da Revolução Russa. A Rússia entrou na guerra contra a Alemanha porque era aliada da França. Foi um desastre: faltava comida e munição, o que contribuiu para que o Exército tivesse milhões de mortos e feridos. Em apenas doze meses, o país trocou várias vezes de ministério: foram quatro primeiros-ministros, três ministros da Guerra, três ministros das Relações Exteriores.

Com a crise, dois grupos passaram a planejar mais ativamente a derrubada da monarquia: 1) os liberais, que queriam fazer da Rússia uma república com democracia representativa (os próprios cidadãos elegeriam seus representantes) e vencer a guerra contra a Alemanha; e 2) o Partido Marxista Russo dos Trabalhadores Socialdemocratas, que queria tirar o país da guerra e, influenciados pelas ideias do pensador alemão Karl Marx, transformar a economia e a sociedade russas como primeiro passo rumo à revolução do proletariado mundial (a classe trabalhadora do mundo inteiro se uniria contra os patrões e tomaria o poder).



Mencheviques e bolcheviques

Os socialdemocratas se dividiam, por sua vez, em duas alas: os mencheviques e os bolcheviques. Os mencheviques receberam esse nome (que vem da palavra russa para "minoria") porque tinham sido a ala minoritária no 2º Congresso do Partido, em 1903. Já os bolcheviques, que eram muito mais radicais, receberam esse nome (que vem de "maioria") porque foram a ala majoritária naquele congresso. Apesar disso, os mencheviques seriam a maioria durante quase todo o período revolucionário.

Agora, veremos que a Revolução Russa foram duas revoluções diferentes: a "de Fevereiro", liderada pelos liberais, e a "de Outubro", liderada pelos bolcheviques (os nomes desses dois acontecimentos seguem o calendário juliano, usado na Rússia, que em 1917 estava 13 dias atrasado em relação ao nosso).



Túlio Vilela, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é formado em história pela USP, é professor da rede pública do Estado de São Paulo e um dos autores do livro Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula (Editora Contexto).



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