Evidências: Reunindo dados e fatos para sustentar sua argumentação

Assunto: Inglês

Celina Bruniera, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Para convencer o outro de que a nossa posição sobre um assunto é razoável, necessitamos muito mais do que emitir uma opinião pessoal. É preciso justificar, reunir dados ou exemplos que tenham credibilidade, ou seja, apresentar uma série de evidências que deem sustentação aos argumentos elaborados.


As evidências indicam a pertinência dos argumentos expostos. Elas são apresentadas por meio de estratégias discursivas, isto é, de recursos que procuram fundamentar os argumentos. As estratégias podem ser ironias, insinuações, digressões, apelos à sensibilidade ou a ênfase na objetividade, a enumeração das fontes de informação, o uso intenso da descrição, etc.

Quando lemos um artigo de jornal, de revista ou de cunho científico, um editorial ou, ainda, quando assistimos a um debate, é importante saber acompanhar o raciocínio tecido pelo enunciador e avaliar o teor e a legitimidade das evidências apresentadas. Para que isso seja possível, faz-se necessário atentar para os recursos linguísticos utilizados pelo enunciador a fim de nos aproximarmos de suas intenções.

Convencer o leitor
Esse trabalho de compreensão da postura ideológica do enunciador requer do leitor a análise do uso de adjetivos, advérbios e numerais; da utilização de conjunções e de do sentido que estas veiculam; a retomada das referências estabelecidas entre os vários elementos do texto; e a avaliação da integração dos dados e exemplos e a origem de suas fontes. O leitor não deve esquecer que todos os textos, de alguma maneira, têm um caráter argumentativo, na medida em que o enunciador tem representações do outro, do mundo e das coisas do mundo que emergem nos textos que cria. No entanto, o discurso argumentativo tem como intenção convencer aquele que lê a partir de uma posição determinada sobre um tema específico.

O texto escolhido para análise retrata um momento muito delicado da história da Irlanda do Norte. A Irlanda do Norte compõe - com a Inglaterra, a Escócia e o País de Gales - o Reino Unido.

Católicos e protestantes
A história da Irlanda é marcada por uma disputa de poder entre os protestantes unionistas, que defendem a permanência da Irlanda como parte do Reino Unido, e os católicos, em minoria, e a favor da República, ou seja, de se tornarem parte do Estado da Irlanda.

Os dois lados costumam usar da violência para defender suas posições. Têm sido em grande número as tentativas para chegar a um acordo político sobre a questão, mas até o momento o problema persiste.

O texto selecionado não aborda essa questão propriamente, mas tematiza um dos episódios mais graves na história da Irlanda e foi escrito na década de 1980.

The Irish famine

No event has had such a decisive effect in shaping the attitude of the Irish people towards the British. And although it occurred 120 years ago its effects are still apparent in Ireland today.

Looking back on the famine, the most remarkable fact was that it should ever have reached such proportions: although the potato crop failed there was plenty of food left in Ireland, and while thousands died some of it was being exported. Even if the local organisations for dealing with a crisis of such magnitude were completely inadequate, more positive and generous action by the British Government could have averted some of the worst effects. In the light of the large-scale Government relief projects undertaken today, the supreme irony of all was that the richest nation in Europe should have allowed one of the poorest to starve on its doorstep.

Yet the famine looked very different through nineteenth-century eyes. Then, the principles of "laissez-faire" were generally accepted – in fact, were regarded as almost sacred. It was thought that people should help themselves, and that the Government should not intervene. In the case of the Irish famine, it was argued, the Government had done all it could to help. This argument may or may not be valid; but a little more humanity by the Government could have done no harm, and it seems strange that the reports of suffering that are so moving today could have failed to move the Government towards a greater use of its resources.

One million people died of starvation and disease; three-quarters of a million emigrated to America, there to become a despised and exploited class. Out of this disaster was forged a new and bitter feeling towards Britain. Daniel O'Connell, the 'Liberator', had insisted on non-violence in dealing with the British, and he had won almost universal support. But his era was over. The violent overthrow of the British rule was increasingly advocated, and hatred of Britain grew. Few Irish families had not been severely hit by the famine, and there were even fewer who did not lay the blame fairly and squarely at Britain's door.

(New Knowledge) -- Spectrum, Michael Swan, Cambridge.

O texto sugere que o episódio da fome na Irlanda foi decisivo para marcar a relação entre irlandeses e britânicos. Defende que os irlandeses foram submetidos à fome, mesmo quando as plantações de batata produziam muito, porque o governo britânico não foi suficientemente firme e generoso e porque as ações das organizações locais foram completamente inadequadas. Esse é o argumento principal e em torno dele são apresentadas uma série de evidências.

Adjetivos, advérbios, numerais e persuasão
Ao explorá-las, é fundamental perceber que já ao tecer o argumento principal, o autor faz uso de adjetivos, de advérbios e de numerais que reforçam o caráter persuasivo do texto. Os adjetivos e advérbios estão grafados em negrito e os numerais aparecem em itálico.

Selecionemos, por exemplo, "the richest nation in Europe should have allowed one of the poorest to starve on its doorstep." Observe que isso é, na verdade, um dado significativo sobre as duas nações envolvidas na questão. Apontar que a nação mais rica deixou uma das mais pobres (os dados são da década de 1980) passar fome a seus pés (uma tentativa de tradução para a expressão "in its doorstep"), tem força argumentativa.

Outro momento em que as evidências se tornam elementos muito significativos no sentido de reforçar a argumentação se dá no último parágrafo. Note como o uso de numerais e de adjetivos contribui para isso. "One million people died of starvation and disease; three-quarters of a million emigrated to America, there to become a despised and exploited class." A morte de um milhão de pessoas e a emigração de 750 mil para os Estados Unidos, onde se tornaram uma classe desprezada e explorada, são dados que reforçam a expressividade da argumentação e, assim, reforçam a credibilidade da posição adotada pelo autor.

Veja que a leitura de um texto não se resume na mera decodificação. Há muitos recursos que precisam ser analisados para que nos aproximemos de suas intenções. Procure outras pistas no texto que favorecem a argumentação.

Celina Bruniera, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é mestre em Sociologia da Educação pela USP e assessora educacional para a área de linguagem.

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