Amor de Perdição: Camilo Castelo Branco: quantidade não prejudica a qualidade

Oscar D'Ambrosio, Especial para a Página 3 Pedadogia & Comunicação

Considerado o primeiro escritor de língua portuguesa a viver exclusivamente dos seus escritos literários, Camilo Castelo Branco (1825-1890) é também célebre pela quantidade de textos. Sua vida pessoal bastante atribulada, com relacionamentos passionais, bem ao gosto do romantismo, seguramente foi um foco de inspiração para seus livros.

Durante quase quatro décadas, de 1851 e 1890, escreveu mais de 260 obras, numa elevada média de mais de seis por ano. O mais significativo é que a preocupação de vender os seus escritos não o impediu de manter uma qualidade elevada, embora dentro dos padrões românticos de sua época.

Dois aspectos se destacam em sua obra: o refinado uso do idioma e o amplo aproveitamento da língua portuguesa. Nesse sentido, além dos seus romances, deixou um legado enorme de textos inéditos, comédias, folhetins, poemas, ensaios, prefácios, traduções e cartas. Esse material foi assinado com o seu nome ou com o de pseudônimos, como Manoel Coco, Saragoçano, A.E.I.O.U.Y e Árqui-Zero.

Entre suas obras, Amor de perdição, escrito em 1862, é a mais famosa. A narrativa, em tom passional e romântico, evoca a peça Romeu e Julieta, de Shakespeare. O enredo se baseia no amor entre dois jovens, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, que pertencem a duas famílias rivais.

Amor de Perdição

A história se passa em Viseu, cidade localizada na região Centro de Portugal. Morando em casas vizinhas, eles se apaixonam e começam a desenvolver uma relação afetuosa por meio das janelas. A simpatia entre os dois logo é percebida pelos parentes, que buscam impedir a união. Teresa resiste às tentativas de sua família de casá-la com um primo e é encerrada num convento.

Do seu lado, Simão, que busca abrigo na casa de um ferreiro amigo do pai, é o objeto de amor de Marina, filha do dono da casa. Estabelece-se assim um triângulo afetivo bem ao gosto do romantismo. Os amantes, separados, trocam cartas em que estabelecem juras de amor até que Simão, na tentativa de tirar sua amada do convento, baleia um primo dela, sendo condenado à forca, pena alterada para dez anos de degredo na Índia.

No momento do embarque, o rapaz vê Teresa pela última vez. Os sofrimentos então se alastram. Ela morre tuberculosa; ele falece nove dias depois de saudade, no mar; e Mariana, no momento em que o corpo do amado será lançado às águas, pula para falecer afogada, completando a tragédia.

Desfecho e biografia

O desfecho, pleno de sofrimento e paixão, encontra eco na biografia do artista, que inclui um casamento aos 16 anos, dois cursos (medicina e direito) não concluídos, um processo judicial por bigamia e dois filhos nascidos com sérios problemas de saúde. Tudo isso em meio a dificuldades financeiras e a uma grande produção para pagar as contas.

O final da vida, um suicídio com um tiro na cabeça após uma cegueira gerada por sífilis crônica, é tão melancólico quanto suas narrativas, como Amor de perdição, marcada pela dor de existir associado a um sentimento muito presente nos personagens de infelicidade pela falta de condições econômicas.

Oscar D'Ambrosio, Especial para a Página 3 Pedadogia & Comunicação é jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), crítico de arte e integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica - Seção Brasil).

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