Língua: O que é, para que serve?

Alfredina Nery, Especial para a Página 3 - Pedagogia e Comunicação

Você sabe o que é língua? Para que serve? Quando começamos a dominá-la? Uma reflexão sobre o tema

1) No cotidiano
Na sala de espera do consultório médico, a mãe tenta acalmar a filhinha de cinco anos, que chora baixinho:

"Nós só estamos aqui esperando. Alguém disse alguma coisa para você? Então... Não aconteceu nada ainda... Por que você está chorando?"

A criança começa, então, a berrar. Vamos analisar a situação:



  • o que a criança estava antecipando? Que leitura ela fazia da situação?
  • Como a mãe procurou acalmá-la?
  • Repare bem no uso da palavra "ainda". Algo fica implícito nesse uso?

    Só de estar na ante-sala de um médico, a menina já estava com medo. Para ela, isso poderia significar uma injeção, um remédio ruim, um exame desagradável etc. Apesar da pouca idade, ela estava fazendo uma boa leitura da situação e chorava, como forma de expressão. A mãe, ao dizer que nada havia acontecido "ainda", indicou para a filha que o suposto mal iria, sim, acontecer.

    O potencial de comunicação da língua é aprendido na interação humana, com quem convivemos, com quem nos relacionamos. A relação humana é mediada pela língua.

    2) Na arte
    Você conhece a música "Língua", de Caetano Veloso? Ela faz referência a vários poetas e escritores, como Camões, Fernando Pessoa (em "Minha pátria é minha língua"), Olavo Bilac ("Última flor do Lácio, inculta e bela/ És, a um tempo, esplendor e sepultura...), Guimarães Rosa e seu trabalho com a linguagem regional ("Grande Sertão: Veredas", por exemplo). O compositor acaba por fazer uma defesa da língua brasileira, sem deixar de considerar sua raiz portuguesa. Leia um trecho:

    Língua
    (Caetano Veloso)

    Gosto de sentir a minha língua roçar
    A língua de Luís de Camões

    Gosto de ser e de estar
    E quero me dedicar
    A criar confusões de prosódia
    E uma profusão de paródias
    Que encurtem dores
    E furtem cores como camaleões
    Gosto do Pessoa na pessoa

    Da rosa no Rosa
    E sei que a poesia está para a prosa
    Assim como o amor está para a amizade
    E quem há de negar que esta lhe é superior
    E quem há de negar que esta lhe é superior
    E deixa os portugais morrerem à míngua
    Minha pátria é minha língua
    Fala Mangueira

    Flor do Lácio Sambódromo
    Lusamérica latim em pó
    O que quer
    o que pode
    Esta língua”



    As línguas e seus falantes Você sabia que o português é a 7a língua mais falada do mundo? Está atrás apenas do mandarim, o hindi, o inglês, o espanhol, o russo e o árabe, e à frente do japonês, o alemão e o francês.

    A língua portugesa é uma das mais faladas do mundo por ser utilizada em diversos países (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe). Mas será que realmente falamos a mesma língua? Veja o exemplo a seguir, de um texto de Portugal.

    “Futebolês luso funde cabeça de brasileiros”;

    Domina o esférico Emerson. O trinco brasileiro, vestindo neste particular a camisola de sua equipa pela 44a. vez, passa ao avançado-centro Ronaldo, de volta aos relvados após lesão e sedento de golos. Prepara Ronaldo, ele vê Rivaldo fora de jogo e decide pontapear, com sua bota dourada, em direção à baliza portuguesa... Espalma o guarda-redes, e é canto para o Brasil. Pateadas explodem na bancada do Alvalade."

    (“Folha de São Paulo” - 17/04/2002)



    O que você acha? Podemos dizer que em Portugal e no Brasil fala-se uma única língua? Parece que não... E dentro do Brasil, será que todos nós falamos uma única língua? Por aqui também existem variações linguísticas.

    Índios, imigrantes, africanos... Além das diferenças entre o português de Portugal e o do Brasil, há outras línguas faladas aqui: línguas indígenas (215, aproximadamente, no ano 2000), línguas de imigração (italiano, japonês, alemão, por exemplo), línguas de fronteira (o Brasil faz fronteira com sete países sul-americanos, que se expressam em espanhol) e, de forma mais precária, línguas africanas (como o "cafundó", usado em um bairro de Salto de Pirapora (SP) e em Tabatinga (MG), ou ainda o uso de algumas línguas de origem africana, em rituais religiosos. Não se falam línguas plenas africanas, no Brasil).

    Mas o que é uma língua, afinal? Na verdade, essa pergunta não tem uma resposta muito fácil. Veja algumas combinações da palavra "língua":

    No primeiro caso, temos conceitos diferentes, como:
     
  • Língua materna é a língua primeira do falante, com a qual aprende a conhecer o mundo e constitui-se sujeito;
  • Língua nacional é a língua que dá ao falante a ideia de pertencer ao povo que a usa;
  • Língua oficial é a língua de Estado, usada nas ações formais e atos legais do Estado (em Angola, a língua oficial é o português, mas não é a língua materna de grande parte da população);
  • Língua franca ou geral é a língua comum de falantes de línguas maternas diferentes, para que tenham relações entre si (é o caso de alguns grupos africanos, colonizados pelos portugueses, que têm suas próprias línguas, mas usam o português como língua franca. Foi o aconteceu no Brasil-colônia, quando os colonizadores e os índios que usavam línguas distintas tiveram um mesmo meio comum de comunicação: a língua tupi).

    No que diz respeito ao ensino de língua, há também diferentes perspectivas:
     
  • Língua como capacidade inata da humanidade: as propriedades linguísticas são atributos neurofisiológicos do ser humano.
  • Língua como identidade nacional e como depositário da cultura nacional. Nessa concepção, acredita-se que na língua estaria contido o patrimônio cultural do povo, incluindo sua Literatura. Essa visão vem desde os gregos e continua viva;
  • Língua como sistema de regras, em especial aquelas ligadas à gramática: fonética, fonologia, morfologia e sintaxe;
  • Língua como fenômeno ou fato social, relacionada à realidade social. Daí a ideia de variação linguística que mostra que a língua varia sob vários aspectos;
  • Língua como forma de ação que entende que, por meio da língua não apenas se fala, mas se age. Ao se usar a linguagem estamos agindo sobre o outro: convencendo-o, explicando algo para ele, concordando com ele etc;
  • Língua como atividade em que se valoriza a língua em contextos de uso naturais e reais;
  • Língua como interatividade em que os sentidos de um texto se dão na relação entre os envolvidos no ato de linguagem;

    Para finalizar nossa reflexão, podemos concluir que a língua é um fenômeno complexo que envolve práticas sociais, usos linguísticos, identidade social e pessoal, regras sociais e gramaticais, relações de poder, comunicação entre pessoas, intenção de quem fala, ouve, lê ou escreve.

    Para você pensar
  • Como é que você aprendeu sua língua? Qual o papel de sua família e da escola nessa aprendizagem?
  • Observe como alguns modos de falar sofrem preconceitos? Por quais razões isso acontece, na sua opinião?

    Sugestões:
  • "Desmundo" (2003): filme brasileiro do diretor Alain Fresnot, traz o Brasil no início da colonização, por meio da história de Oribela, uma jovem órfã portuguesa que vem, junto com outras, para ser esposa na nova terra. Os diálogos, com legendas, são feitos em português arcaico, línguas indígenas e africanas. O filme é baseado no livro "Desmundo", de Ana Miranda, Companhia das Letras, 2003.
  • "Enciclopédia das línguas no Brasil": www.labeurb.unicamp.br/elb
     

Alfredina Nery, Especial para a Página 3 - Pedagogia e Comunicação é professora universitária, consultora pedagógica e docente de cursos de formação continuada para professores na área de língua, linguagem e leitura.



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