Memórias de um Sargento de Milícias: Análise do livro de Manuel de Almeida

Antonio Carlos Olivieri, Da Página 3 Pedagogia & Comunicação

"Memórias de um Sargento de Milícias", de Manuel Antônio de Almeida, foi lançado originalmente sob a forma de folhetim, em "A Pacotilha" - o suplemento literário do jornal "Correio Mercantil", do Rio de Janeiro, entre 27 de junho de 1852 e 31 de julho de 1853. Só nos dois anos seguintes se transformaria num livro, publicado em dois volumes.

Esse romance merece destaque e ocupa um lugar ímpar na história da literatura brasileira, na medida em que se distancia muito dos modelos românticos que prevaleciam na época de sua publicação: a visão de mundo que ele expressa não é marcada por traços idealizados e sentimentalistas. Ao contrário, o autor se vale de um estilo objetivo e realista, semelhantes ao das crônicas históricas e de costumes.

Isso pode ser visto desde as primeiras linhas do texto, em que o jovem Manuel Antônio, que tinha 21 anos ao escrevê-lo, faz questão de deixar claros a data ("Era no tempo do rei." - no caso, dom João 6o) e o local ("Uma das quatro esquinas que formam as Ruas do Ouvidor e da Quitanda [...]" - no centro do Rio de Janeiro) onde sua história vai se desenrolar.



Personagens: tipos populares

Além desse caráter realista, o romance põe em foco, com traços caricaturais, os tipos populares, a "arraia miúda", do Rio de então. A sociedade brasileira (que mal começava a se esboçar naquele momento) é vista pela perspectiva dos pobres, ao contrário do que acontece nas obras de Joaquim Manuel de Macedo ou dos romances urbanos de José de Alencar.

Tendo como personagem principal um anti-herói, que se chama Leonardo, "Memórias de um Sargento de Milícias" relata seus esforços para driblar as adversidades de sua condição social e, ao mesmo tempo, se aproveitar ao máximo dos intervalos de sorte que tem na vida. São esses os mesmos motivos que impelem a grande maioria das personagens do romance.



Enredo: Romance picaresco

Nesse sentido, "Memórias de um Sargento de Milícias" se filia à tradição do romance picaresco, que se origina na Espanha, com a publicação de "Lazarillo de Tormes", de 1554. A expressão "pícaro" refere-se "àqueles que vivem de astúcias, ardis, trapaças" e, nesse sentido, deu origem a um dos sentidos da palavra "picareta", muito usada ainda hoje. O pícaro ou picareta se vale desses expedientes para garantir sua sobrevivência e tem, com toda certeza, uma visão cínica da realidade que o cerca.

É precisamente o caso de Leonardo, enjeitado pelos pais pouco depois do nascimento, criado pelo padrinho e, depois, pela madrinha, e que logo dá mostras de seu verdadeiro caráter. O romance narra suas aventuras e desventuras na "baixa sociedade" fluminense, até que ele é preso pelo Major Vidigal - um personagem que existiu mesmo: Miguel Nunes Vidigal, chefe da Guarda Real, criada pelo rei em 1809, para policiar o Rio de Janeiro.



Jeitinho brasileiro

O Vidigal é o símbolo da repressão arbitrária e socialmente injusta, temida por todos aqueles que - tenham ou não problemas com a lei - são pobres e não dispõem de recursos, nem contam com a amizade de algum poderoso que eventualmente possa ampará-los num momento de necessidade.

Enfim, o que não falta são reviravoltas à narrativa de "Memórias de um Sargento de Milícias" e, graças a intervenção da madrinha de Leonardo e de uma amiga sua - ex-amante do major Vidigal - o anti-herói acaba por ingressar na milícia e ser promovido ao cargo de sargento a que se refere o título.

Vale insistir no valor documental e sociológico do romance e lembrar que se trata de uma narrativa divertida e bem humorada, que ainda hoje pode fazer o leitor passar alguns momentos muito agradáveis, enquanto se prepara para uma prova na escola ou mesmo para o vestibular.

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Antonio Carlos Olivieri, Da Página 3 Pedagogia & Comunicação é escritor, jornalista e diretor da Página 3 Pedagogia & Comunicação.

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