Verbo - flexões: Pessoa, número, tempo e modo

Lílian Campos, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
(Atualizado em 20/06/2014 às 17h26)

Quando conjugados, os verbos flexionam-se em pessoa a fim de evidenciar quem fala, para quem se fala ou aquele de quem se fala. Vamos observar os seguintes exemplos:

Eu trabalho. “Eu” indica a pessoa que fala.
Tu trabalhas. “Tu” indica um interlocutor direto, isto é, alguém para quem se fala.
Ele (ou ela) trabalha. Eles (ou elas) trabalham. “Ele” ou “ela”, “eles” ou “elas” indicam que se fala sobre alguém, ou algo, que não participa diretamente da comunicação estabelecida entre as duas primeiras pessoas.
Nós trabalhamos. “Nós” indica que a pessoa que fala participa da comunicação juntamente com outros.
Vós trabalhais. “Vós” pode indicar que se fala para um ou para vários interlocutores diretos.

 As formas eu, tu, ele, ela, eles, elas, nós e vós são denominadas pronomes pessoais, e indicam também o sujeito das frases às quais se referem.

Designamos ainda os pronomes segundo seu número, sendo eu, tu e ele/ela, respectivamente, a primeira, a segunda e a terceira pessoa do singular; nós, vós e eles/elas, a primeira, a segunda e a terceira pessoa do plural.

No entanto, uma vez que a língua é dinâmica e, por isso, inserida num processo de adaptações constantes, vamos aproveitar este momento para abordar algumas especificidades relacionadas ao uso das formas tu, você(s), vós e a gente.

O pronome tu costuma ser empregado em apenas algumas regiões brasileiras, sendo a forma você aquela que predomina no tratamento direto informal. Esta última utiliza a mesma conjugação atribuída aos pronomes ele e ela. Exemplos:

  • Ele/Você vai ao cinema.
  • Ela/Você conhece muitos lugares.

Para o tratamento direto formal, ainda predominam as formas o senhor e a senhora - que também utilizam a conjugação conferida aos pronomes ele e ela.

As formas plurais vocês, os senhores e as senhoras seguem o critério de conjugação dos pronomes eles e elas. Exemplo:    

  • Eles/Elas/Vocês viajaram durante um mês.

A forma a gente tende a ser mais utilizada do que o pronome nós - destinado a um uso predominantemente formal, tanto na fala quanto na escrita. Quando empregamos a gente, o verbo segue a conjugação aplicada aos pronomes ele e ela. Exemplo:

  • A gente/Ele/Ela gosta de ir neste restaurante.

A forma vós possui uma particularidade: seu uso encontra-se restrito a textos literários, religiosos e a documentos formais (geralmente empregados no âmbito jurídico). Embora considerado um pronome pessoal plural, a forma vós também pode ser usada quando desejamos nos referir diretamente a uma só pessoa. Vamos observar os exemplos seguintes:

1º) Nos dois primeiros versos do poema "A D. Joana", de Castro Alves, notamos que o pronome vós é utilizado para dirigir-se a uma só pessoa: D. Joana.

    SENHORA, eu vos dou versos, porque apanho
    Das flores d'alma um ramalhete agreste
    E são versos a flora perfumada,
    Que de meu seio a solidão reveste. E vós que amais a parasita ardente,
    Que abre como um suspiro em pleno maio,
    E o aroma que anima o cálix rubro
    — Talvez de uma alma perfumoso ensaio,

2º) No trecho a seguir, selecionado do "Gênesis" (primeiro livro da Bíblia), capítulo 4, versículo 23, podemos observar mais um emprego do pronome vós, desta vez para dirigir-se ao plural - Ada e Zilá, mulheres de Lameque:

E disse Lameque a suas mulheres Ada e Zilá: Ouvi a minha voz; vós, mulheres de Lameque, escutai as minhas palavras; porque eu matei um homem por me ferir, e um jovem por me pisar.

Tempo e Modo

As marcas de tempo verbal situam o evento do qual se fala com relação ao momento em que se fala. Em português, reconhecemos três tempos verbais essenciais: o presente, o passado e o futuro.

Os modos verbais, relacionados aos tempos verbais, destinam-se a atribuir expressões de certeza, de possibilidade, de hipótese ou de ordem ao nosso discurso. São reconhecidas as formas do indicativo, do subjuntivo e do imperativo.

O modo indicativo possui seis tempos verbais: o presente; o pretérito perfeito, o imperfeito e o mais-que-perfeito; o futuro do presente e o futuro do pretérito.

O modo subjuntivo divide-se em três tempos verbais: presente, pretérito imperfeito e futuro.

Por fim, o modo imperativo apresenta-se no presente e pode ser afirmativo ou negativo.

O modo indicativo e seus tempos

- O presente pode ser empregado para:

  • a) indicar os eventos que se desenrolam simultaneamente ao momento em que o discurso é produzido:

    Estamos hospedados na casa de amigos.
     
  • b) expressar ações habituais:

    Nós vamos ao cinema ao menos uma vez por semana.
     
  • c) narrar fatos passados, atribuindo-lhes atualidade, sendo chamado de presente histórico:

    A Revolução de 1964 trata-se de um movimento político-militar deflagrado em 31 de março de 1964 com o objetivo de depor o governo do presidente João Goulart. Sua vitória provoca profundas modificações na organização política, econômica e social do país.
     
  • d) indicar um evento que pode realizar-se num futuro próximo:

              Nós vamos à praia no próximo fim de semana.

  • e) expressar um conselho, uma ordem indireta ou um pedido:

    Você começa essa dieta hoje!

- O pretérito perfeito expressa processos verbais concluídos e situados num momento determinado do passado:

José Rubem Fonseca nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1925. Formou-se em Direito e dedicou-se à carreira policial antes de tornar-se escritor.
    
- O pretérito imperfeito é utilizado para:

  • a) evocar a noção de continuidade, de processos que aconteciam no passado de maneira habitual ou constante:

    Quando menina, eu ia ao sítio dos meus avós durante as férias. Eles moravam no interior, onde eu encontrava uma vida diferente daquela que eu vivia na grande cidade. Lá, eu brincava e passava o tempo sem me preocupar com nada. Lá, eu era livre.
     
  • b) reportar circunstâncias e o ambiente em que se desenrolavam as ações no momento em que se situa a narrativa:

    Fazia sol e estava calor. Trabalhávamos numa sala pequena e sem ar condicionado. Nós só pensávamos em praia e descanso.
     
  • c) fazer um pedido de maneira polida:

    Eu queria pedir um favor a você.
     
  • d) expressar um processo em desenvolvimento quando da ocorrência de outro:

    Quando cheguei em casa, Laura cozinhava nosso jantar.

    Neste exemplo, o pretérito perfeito marca uma ação pontual (cheguei), e o pretérito imperfeito (cozinhava), um processo em desenvolvimento cujo início e fim não aparecem delimitados.

- O pretérito mais-que-perfeito é utilizado quando um dado processo é anterior a outro processo passado:

Quando Eugênio chegou no apartamento, percebeu que Ana estivera lá.

Neste exemplo, a presença de Ana no apartamento é anterior à chegada de Eugênio.
    
- O futuro do presente pode ser empregado para:

  • a) indicar processos com forte possibilidade de realização para além do momento em que se fala:

    As inscrições para este concurso abrirão na próxima semana.
     
  • b) expressar uma ordem de maneira enfática, assumindo um valor imperativo:

    Você entregará este relatório num prazo máximo de cinco dias.

    Uma outra forma de expressar eventos futuros pode ser realizada com a combinação do verbo ir (conjugado no presente do indicativo) e do verbo principal (na sua forma infinitiva):
     
  • Ela vai sair com seus amigos esta noite.

    De acordo com o contexto em que o discurso é produzido, esta opção tende a ser mais utilizada na linguagem oral e, também, na linguagem escrita.

- O futuro do pretérito é empregado para:

  • a) propor um pedido, uma solicitação ou um convite de maneira polida:

    Você poderia ajudar-me amanhã com estes relatórios?; Você gostaria de ir ao cinema comigo?
     
  • b) expressar um conselho de maneira indireta:

    Você deveria comer menos.
     
  • c) exprimir um processo posterior a um momento anterior referido em nossa fala:

    Ela percebeu que não conseguiria chegar a tempo.
     
  • d) expressar incerteza com relação a um determinado evento:

    Quando o prédio foi atingido, estariam lá aproximadamente 100 pessoas.

O modo subjuntivo e seus tempos

- O presente do subjuntivo é geralmente utilizado quando desejamos expressar desejos, possibilidades, suposições, cuja concretização pode depender da realização de um outro processo. Desse modo, no exemplo:

Para que eu chegue lá a tempo, preciso pegar o metrô antes das seis.

A concretização de uma possibilidade (chegar a tempo) está condicionada a um outro processo (pegar o metrô antes das seis).

Ou ainda:

Espero que eles gostem de frutas vermelhas. (desejo)

É provável que ele parta antes do anoitecer. (possibilidade)

Imagino que ela viaje sozinha. (suposição)
    
- O pretérito imperfeito do subjuntivo, quando empregado com o pretérito imperfeito do indicativo, expressa uma condição não realizável:

Se eu ganhasse muito dinheiro, viajava pelo mundo todo. (mas eu não ganho muito dinheiro, então a viagem pelo mundo todo não acontece)

Eu viria à festa se eu pudesse. (mas eu não posso)

- O futuro do subjuntivo expressa a possibilidade de realização dos eventos aos quais nos referimos, ainda não concretizados no momento em que falamos ou escrevemos:

Quando você for ao Museu da Língua Portuguesa, ficará (vai ficar) impressionado.

Aquele que vencer o concurso ganhará (vai ganhar) uma viagem para Buenos Aires.

Antecedido pelo elemento "se" e associado ao futuro do presente do indicativo, exprime que há uma condição para que os eventos sejam concretizados:

Se você seguir estes conselhos, terá (vai ter) uma agradável surpresa.

O modo imperativo

O imperativo afirmativo possui as formas referentes a tu, você, vocês, nós e vós. É empregado quando desejamos expressar uma ordem, um pedido, uma súplica.

Conjugação tal como o presente do indicativo, menos o -s

Presente do indicativo Imperativo
Tu cantas Canta
Vós cantais Cantai

Conjugação idêntica ao presente do subjuntivo

Presente do indicativo Imperativo
Espero que você cante Cante
Espero que vocês cantem Cantem
Espero que nós cantemos Cantemos

O imperativo negativo coincide com todas as pessoas do presente do subjuntivo.

Presente do subjuntivo Imperativo
Espero que você cante Não cantes
Espero que você cante Espero que vocês cantem Não cante
Espero que nós cantemos Não cantemos
Espero que vós canteis Não canteis
Espero que vocês cantem Não cantem

 

Lílian Campos, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é formada em Letras, professora de língua francesa na PUC-PR e na UFPR, com atuação também no ensino de língua portuguesa.

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