Petróleo: Entenda o refino dessa fonte energética

Carlos Roberto de Lana

O petróleo, óleo de pedra, é uma mistura de hidrocarbonetos, rica em alcanos. Definido assim, não parece ser algo lá muito importante. Mas basta lembrar que nosso mundo é freqüentemente chamado de civilização do petróleo e que para garantir seu suprimento nações se dispõem a ir à guerra, para concluirmos que deve haver alguma coisa naqueles carbonos e hidrogênios que justifique tanto barulho.

Nem sempre foi assim. O petróleo é conhecido há milhares de anos nas regiões onde aflorava espontaneamente para a superfície. Pelas suas propriedades era usado pelos povos antigos do Oriente Médio para calafetar construções, como lubrificante e como combustível para aplicações diversas. Alguns usavam o óleo até para aplicações medicinais.

Por mais útil que fosse, jamais ocorreria aos mesopotâmios, egípcios ou persas que aquele líquido negro, grudento e mal cheiroso, poderia ter importância vital no desenvolvimento e riqueza de seus países.

Hoje o petróleo responde por quase a metade de toda a energia gerada no mundo. Sem ele as usinas termoelétricas parariam de funcionar, deixando cidades às escuras. Veículos terrestres, navios e aviões ficariam parados, indústrias não produziriam nada e os habitantes dos países frios congelariam no inverno, sem o combustível da calefação doméstica.

Aplicações do petróleo além dos combustíveis

E não pára por aí. Além dos combustíveis e lubrificantes que saem direto das refinarias, a nafta é um dos derivados do petróleo é a matéria-prima básica da indústria petroquímica, de onde vêm os plásticos, resinas, solventes e outros produtos tão presentes em nosso cotidiano que fica difícil pensar a vida sem eles.

Sem o petróleo, a maioria dos materiais sintéticos não existiriam. Roupas de poliéster e tênis de nylon teriam que voltar a ser feitos de algodão. Um mundo sem plásticos hoje seria um pesadelo.

Além do que, uma infinidade de processos industriais depende de insumos derivados do petróleo. Sem eles a indústria farmacêutica, por exemplo, não poderia fabricar uma série de medicamentos indispensáveis.

Para completar, tanques e aviões de guerra também são movidos a petróleo. Se falamos em nações dispostas a ir a guerra para garantir seus suprimentos de combustíveis é porque sem eles é impossível guerrear. Ironia mortal, mas verdadeira.

Mas afinal, o que tem aqueles tais alcanos a ver com tudo isto? Bem, os hidrocarbonetos que formam o petróleo são constituídos de cadeias orgânicas variadas, de diferentes tamanhos e formatos, conforme composição típica abaixo:

Parafinas normais
14%
Parafinas ramificadas
16%
Parafinas cíclicas (naftênicas)
30%
Aromáticos
30%
Resinas e asfaltenos
10%

Parafinas é um outro nome para os alcanos, que são hidrocarbonetos formados por cadeias carbônicas saturadas. Só para lembrar, uma cadeia carbônica saturada é aquela que apresenta apenas ligações simples e onde todos os carbonos estão ligados a um átomo de hidrogênio. O alcano mais simples é a molécula de metano:

  • Molécula de metano, um dos alcanos do petróleo

O metano é um hidrocarboneto alcano com apenas um átomo de carbono, mas os alcanos formadores do petróleo podem ter até 45 carbonos em suas cadeias. Esta composição diversificada permite que diferentes substâncias possam ser obtidas de uma única fonte, ainda relativamente barata e abundante.

Estas substâncias tanto podem ser combustíveis de diferentes aplicações quanto matérias primas de utilizações diversas. Sem esta opção variada de alternativas químicas oferecidas pelo petróleo, seria preciso sintetizar as cadeias orgânicas necessárias às diferentes aplicações, o que tornaria o processo muito mais trabalhoso e caro.

Assim, apenas aquecendo o petróleo sob condições controladas em uma coluna de fracionamento de uma refinaria podemos obter toda uma gama de derivados:

Gás natural
Gás liqüefeito de petróleo (GLP)
Éter de petróleo
Benzina
Gasolina
Nafta
Querosene
Óleo díesel
Óleo combustível pesado
Óleo lubrificante
Parafina e vaselina
Resíduos: asfalto

A nafta e o etano (outro alcano, este com dois carbonos) são enviados da refinaria para uma central petroquímica de primeira geração, de onde se obtém:

Etileno
Propileno
Butadieno
Benzina
Benzeno
Tolueno
Xileno

Os três primeiros produtos da lista de petroquímicos de primeira geração são chamados alcenos ou olefinas, diferentes dos alcanos por serem insaturados, ou seja, possuem uma dupla ligação em suas cadeias carbônicas.

  • Molécula de propeno ou propileno, alceno ou olefina petroquímica, matéria prima do polipropileno, plástico com múltiplas aplicações, como os pára-choques dos carros modernos.

As olefinas são as matérias primas básicas para a produção dos polímeros industriais (plásticos) mais comumente usados - polietileno (o plástico da sacolinha de supermercado), polipropileno (brinquedos, eletrodomésticos e plásticos de engenharia) e polibutadieno (pneus).

No fim da lista dos produtos petroquímicos citados temos benzeno, tolueno e xileno, três solventes aromáticos, que se caracterizam por possuir um anel benzeno em suas estruturas. São utilizados em diversas aplicações como plásticos, tintas e vernizes, detergentes, fertilizantes, defensivos agrícolas.

  • Anel benzeno, estrutura.

O benzeno é uma das matérias primas da cadeia de obtenção do nylon, material sintético de alta resistência mecânica, usado na confecção de roupas, calçados, linhas de pesca, auto-peças e próteses dentárias.

Por tudo isto e mais que o petróleo sozinho construiu a riqueza de alguns países que, sem suas reservas abundantes do chamado ouro negro, seriam nações lembradas apenas por suas mazelas econômicos.

Mas mesmo o país mais rico do mundo, os Estados Unidos da América, deve muito do seu sucesso econômico ao fato de ter sido o primeiro a vislumbrar os potenciais da indústria do petróleo criando, grandes companhias de exploração e refino que atuavam em seu próprio território e no de outros países.

O petróleo traz riqueza a quem o produz e supre as necessidades de energia e matéria prima de quem o consome, mas sua importância estratégica faz dele uma fonte potencial de conflitos, uma das razões pela qual o Oriente Médio é uma das regiões do mundo que mais despertam interesse e preocupação global.

Quando o assunto é petróleo, química e geopolítica, alcanos e alfétenas costumam andar juntos. Alfétena, para quem não sabe, não é um termo químico. É um substantivo em desuso, que significa hostilidade, discórdia, guerra.

Carlos Roberto de Lana é engenheiro químico e professor.



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