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Filosofia

Introdução à filosofia (2)

Perguntas mais do que respostas

Da Página 3 Pedagogia & Comunicação
Introdução à filosofia (2) Perguntas mais do que respostas Um filósofo brasileiro contemporâneo, Olavo de Carvalho, faz uma reflexão que é, ao mesmo tempo, muito ampla e muito sintética sobre as grandes dúvidas, as grandes indagações que o homem sempre se fez acerca da realidade e de sua situação no mundo.

É importante conhecê-las pois são as perguntas - mais do que as respostas - que dão origem ao conhecimento.

Para esse filósofo, existem seis perguntas básicas, que se agrupam em três eixos de pólos opostos. Essas perguntas, invariavelmente, foram sempre formuladas. Já as tentativas de respostas variaram muito, de acordo com a época e o lugar onde foram propostas.

1o. eixo: Origem-fim
Ninguém jamais soube onde e quando o conjunto da realidade começou nem como ou quando vai terminar. Na Antigüidade ou ainda nas tribos de índios que subsistem hoje em dia, as questões sobre a origem e o fim são respondidas por meio de mitos cosmogônicos, ou seja, de narrativas mágicas ou fantásticas.

As religiões, por sua vez, também têm suas respostas, que remetem à criação por uma Entidade suprema. Quanto à ciência contemporânea, ela recorre à imagem do Big-bang, construída a partir da observação e da especulação dos físicos, mas é impossível garantir que a ciência do futuro terá essa mesma visão.

2o. eixo: Natureza-sociedade
Todo homem vive entre essas duas realidades: a natureza, que é anterior e independente da ação humana, e a sociedade, que é criada por ela. O homem se equilibra entre o instinto de buscar a proteção do grupo contra os animais e as intempéries ou, inversamente, no sonho de encontrar na natureza um abrigo contra os males do convívio social.

“A natureza pode aparecer como um pesadelo temível ou como seio materno acolhedor. A sociedade pode ser lar ou prisão, fraternidade ou guerra”, diz Olavo de Carvalho. De qualquer modo, até o momento, o ser humano não conseguiu harmonizar os dois termos, nem compreender um deles sem fazer referência ao outro.

3o. eixo: Imanência-transcendência
Imanência refere-se à interioridade, ao que há no interior de nós. “Cada ser humano sabe que ele próprio existe, que tem um ‘mundo’ interior de experiências, recordações, desejos, temores. Mas sabe também que esse poço é sem fundo, que ninguém pode compreender-se ou ignorar-se totalmente, que cada alma encontra dentro de si algo estranho e atemorizante, que cada um se conhece e se desconhece quase tanto quanto aos demais. Buscamos na nossa intimidade o abrigo contra a maldade alheia, assim como buscamos no outro, no amigo, na esposa, a proteção contra nossos fantasmas interiores.”

Contudo, cada homem e cada civilização também pressente a existência de algo que, acima do mundo ou do fundo do fluxo dos acontecimentos, faz com que as coisas sejam o que são e não de outro modo. Esse algo, que está além, que transcende a realidade sensível, pode ser o Deus dos religiosos, o absoluto metafísico dos filósofos, ou a auto-regulação de coincidências físico-químicas dos cientistas.


E Olavo de Carvalho conclui:

“Cada um dos pólos é uma interrogação, um misto de ignorância e conhecimento, um foco de tensões espirituais. Cada um articula-se com seu oposto, num mútuo esclarecimento – ou multiplicação – de tensões. R no ponto de intersecção dos três eixos, como nas três direções do espaço, fixado na estrutura da realidade como Cristo na cruz, está o ser humano.
Crenças, cosmovisões, doutrinas, diferem sobretudo pela hierarquia que estabelecem entre os seis fatores por meio de assimilações e reduções. Muitas culturas arcaicas privilegiavam o fator ‘origem’, explicando sociedade e natureza por um mito cosmogônico, ignorando a transcendência e a imanência. [...] A modernidade absorveu tudo na oposição natureza-sociedade, esperando não menos utopicamente reduzir os mistérios da transcendência e da imanência, da origem e do fim, a questões de partículas subatômicas, código genético e análise lingüística. [...] Só a abertura da alma para a simultaneidade dos seis pólos, com suas luzes e trevas, dá acesso à experiência realista da condição humana e, portanto, à possibilidade de sabedoria. Todas as explicações que, para enfatizar uma articulação em particular, negam ou suprimem a estrutura do conjunto, são falsas ou estéreis.”

(Para uma antropologia filosófica, Olavo de Carvalho, artigo publicado no jornal "O Globo", do Rio de Janeiro, em 19/07/2003).


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