
Bom e mau, ou melhor, Bem e Mal, entretanto, são valores que não apresentam, para o ser humano, um caráter absoluto. Ao longo dos tempos, nas mais diversas civilizações, várias interpretações serão dadas a essas duas noções. A ética acompanha esse desenvolvimento histórico, para que isso sirva de base para uma reflexão sobre como ser ético no tempo presente.
Considera também como esses valores se aplicam no relacionamento interpessoal, pois a noção de um modo correto de se comportar e posicionar na vida pressupõe que isso seja feito para que cada um conviva em harmonia com os outros. A ética, portanto, trata de convivência entre seres humanos na sociedade. Num sentido mais restrito, ela se restringe às relações pessoais de cada um. Num sentido mais amplo - já que ninguém vive numa pequena comunidade isolada -, ela se relaciona com a política - da cidade, do país e do mundo. Nesse sentido, ela é possivelmente a área mais prática da filosofia.
Mas, antes de mais nada, qual o significado da palavra ética, em termos filosóficos?
O filósofo contemporâneo espanhol Fernando Savater apresenta uma resposta para essa questão em termos muito simples, num livro intitulado Ética para meu filho, da Editora Martins Fontes. Como diz o título, ele escreveu com o intuito de explicar a questão para o seu filho adolescente. A seguir, você pode ler um breve trecho da resposta de Savater para a questão "o que é ética?". Esse é um excelente ponto de partida para você pensar no assunto:
| “Há
ciências que estudamos por simples interesse de saber coisas novas;
outras, para adquirir uma habilidade que nos permita fazer ou utilizar alguma
coisa; a maioria, para conseguir um trabalho e ganhar a vida com ele. Se
não sentirmos curiosidade nem necessidade de realizar esses estudos,
poderemos prescindir deles tranqüilamente. Há uma infinidade
de conhecimentos muito interessantes mas sem os quais podemos nos arranjar
muito bem para viver. Eu, por exemplo, lamento muito não ter nem
idéia de astrofísica ou de marcenaria, que dão tanta
satisfação a outras pessoas, embora essa ignorância
nunca me tenha impedido de ir sobrevivendo até hoje. E você,
se não me engano, conhece as regras do futebol mas é bem fraco
em beisebol. Não tem maior importância, você desfruta
os campeonatos mundiais, dispensa olimpicamente a liga americana e todo
o mundo sai satisfeito.
O que eu quero dizer é que certas coisas a pessoa pode aprender ou não, conforme sua vontade. Como ninguém é capaz de saber tudo, o remédio é escolher e aceitar com humildade o muito que ignoramos. É possível viver sem saber astrofísica, marcenaria, futebol e até mesmo sem saber ler e escrever: vive-se pior, decerto, mas vive- se. No entanto, há outras coisas que é preciso saber porque, por assim dizer, são fundamentais para nossa vida. E preciso saber, por exemplo, que saltar de uma varanda do sexto andar não é bom para a saúde; ou que uma dieta de pregos (perdoem-me os faquires!) e ácido prússico não nos permitirá chegar à velhice. Também não é aconselhável ignorar que, se dermos um safanão no vizinho cada vez que cruzarmos com ele, mais cedo ou mais tarde haverá conseqüências muito desagradáveis. Pequenezas desse tipo são importantes. Podemos viver de muitos modos, mas há modos que não nos deixam viver. Em resumo, entre todos os saberes possíveis existe pelo menos um imprescindível: o de que certas coisas nos convêm e outras não. Certos alimentos não nos convêm, assim como certos comportamentos e certas atitudes. Quero dizer, é claro, que não nos convêm se desejamos continuar vivendo. Se alguém quiser arrebentar-se o quanto antes, beber lixívia poderá ser muito adequado, ou também cercar-se do maior número possível de inimigos. Mas, de momento, vamos supor que preferimos viver, deixando de lado, por enquanto, os respeitáveis gostos do suicida. Assim, há coisas que nos convêm, e o que nos convém costumamos dizer que é “bom”, pois nos cai bem; outras, em compensação, não nos convêm, caem-nos muito mal, e o que não nos convém dizemos que é “mau”. Saber o que nos convém, ou seja, distinguir entre o bom e o mau, é um conhecimento que todos nós tentamos adquirir – todos, sem exceção – pela compensação que nos traz. Como afirmei antes, há coisas boas e más
para a saúde: é necessário saber o que devemos comer,
ou que o fogo às vezes aquece e outras vezes queima, ou ainda que
a água pode matar a sede e também nos afogar. No entanto,
às vezes as coisas não são tão simples: certas
drogas, por exemplo, aumentam nossa energia ou produzem sensações
agradáveis, mas seu abuso contínuo pode ser nocivo. Em alguns
aspectos são boas, mas em outros são más: elas nos
convêm e ao mesmo tempo não nos convêm. No terreno
das relações humanas, essas ambigüidades ocorrem com
maior freqüência ainda. A mentira é, em geral, algo
mau, porque destrói a confiança na palavra – e todos
nós precisamos falar para viver em sociedade – e provoca
inimizade entre as pessoas; mas às vezes pode parecer útil
ou benéfico mentir para obter alguma vantagem, ou até para
fazer um favor a alguém. Por exemplo, é melhor dizer ao
doente de câncer incurável a verdade sobre seu estado, ou
deve-se enganá-lo para que ele viva suas últimas horas sem
angústia? A mentira não nos convém, é má,
mas às vezes parece acabar sendo boa. Procurar briga com os outros,
como já dissemos, em geral é inconveniente, mas devemos
consentir que violentem uma garota diante de nós sem interferir,
sob pretexto de não nos metermos em confusão? Por outro
lado, quem sempre diz a verdade – doa a quem doer – costuma
colher a antipatia de todo o mundo; e quem interfere ao estilo Indiana
Jones para salvar a garota agredida tem maior probabilidade de arrebentar
a cabeça do que quem segue para casa assobiando. O que é
mau às vezes parece ser mais ou menos bom e o que é bom
tem, em certas ocasiões, aparência de mau. Haja confusão! |
|
("Ética
para meu filho", Fernando Savater, Editora Martins Fontes) |
Antes de seguir adiante, porém, vale recordar o que foi dito no início deste texto: a Ética não serve de base somente às relações humanas mais próximas. Ela também trata das relações sociais dos homens, na medida em que alguns filósofos consideram a etica como a base do direito ou da justiça, isto é, das leis que regulam a convivência entre todos os membros de uma sociedade.
O filósofo alemão Leibniz (1646-1716) considera que o direito e as leis decorrem de três preceitos morais básicos:
Ou seja, a ética orienta também o ordenamento jurídico e/ou legal das nações. Por conseguinte, orienta também a política. Quando a política não é pautada pela ética ocorrem os escândalos e os crimes que os brasileiros presenciam a cada ano nos Poderes Executivo e Legislativo do nosso país.
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