
O caiapó vê nas estrelas as fogueiras que alguns de seus deuses acendem no céu para tornar a noite mais clara. O cientista vê astros que têm luz própria e que formam uma galáxia. O índio compreende e conhece as estrelas a partir de um ponto de vista mitológico ou religioso. O astrônomo as compreende e conhece a partir de um ponto de vista científico.
A mitologia, a religião e a ciência são formas de conhecer o mundo. São modos do conhecimento, assim como o senso comum, a filosofia e a arte. Todos eles são formas de conhecimento, pois cada um, a seu modo, desvenda os segredos do mundo, explicando-o ou atribuindo-lhe um sentido. Vamos examinar mais de perto cada uma dessas formas de conhecimento.
Veja, por exemplo, o mito através do qual os antigos gregos explicavam a origem do mundo:
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No princípio
era o Caos, o Vazio primordial, vasto abismo insondável, como um
imenso mar, denso e profundo, onde nada podia existir. Dessa oca imensidão
sem onde nem quando, de um modo inexplicável e incompreensível,
emergiram a Noite negra e a Morte impenetrável. Da muda união
desses dois entes tenebrosos, no leito infinito do vácuo, nasceu
uma entidade de natureza oposta à deles, o Amor, que surgiu cintilando
dentro de um ovo incandescente.
Ao
ser posto no regaço do Caos, sua casca resfriou e se partiu em
duas metades que se transformaram no Céu e na Terra, casal que
jazia no espaço, espiando-se em deslumbramento mútuo, empapuçados
de amor. Então, o Céu cobriu e fecundou a Terra, fazendo-a
gerar muitos filhos que passaram a habitar o vasto corpo da própria
mãe, aconchegante e hospitaleiro. |
Assim como o mito, a religião, ou melhor, as religiões também apresentam uma explicação sobrenatural para o mundo. Para aderir a uma religião, é obrigatório crer ou ter fé nessa explicação. Além disso, é uma parte fundamental da crença religiosa a fé em que essa explicação sobrenatural proporciona ao homem uma garantia de salvação, bem como prescreve maneiras ou técnicas de obter e conservar essa garantia, que são os ritos, os sacramentos e as orações.
Antes de seguir em frente, convém esclarecer que não vem ao caso discutir aqui a validade do conhecimento religioso. Em matéria de provas objetivas, se a religião não tem como provar a existência de Deus, a ciência também não tem como provar a Sua inexistência. E, a propósito disso, vale a pena apresentar uma outra narrativa filosófica:
| Certa vez, um cosmonauta e um neurologista russos discutiam sobre religião. O neurologista era cristão, e o cosmonauta não. “Já estive várias vezes no espaço”, gabou-se o cosmonauta, “e nunca vi nem Deus, nem anjos”. “E eu já operei muitos cérebros inteligentes”, respondeu o neurologista, “e também nunca vi um pensamento”. |
O
mundo de Sofia, Jostein Gaardner, Cia. das Letras, 1995 |
| O coração é um músculo oco, em forma de cone achatado com a base virada para cima e a ponta voltada para baixo, do tamanho aproximado de um punho fechado. O músculo cardíaco é chamado de miocárdio. Sua superfície interna é recoberta por uma membrana delgada, o endocárdio. Sua superfície externa tem um invólucro fibro-seroso, o pericárdio. |
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Grande
Enciclopédia Larousse Cultural, 1998 |
Quando se fala em "mínima interferência do sujeito", quer se dizer que a descrição de coração proposta acima é válida independentemente do estudioso de anatomia que a formulou.
A definição tradicional de ciência pressupõe que ela seja um modo de conhecimento com absoluta garantia de validade. A ciência moderna já não tem a pretensão ao absoluto, mas ao máximo grau de certeza.
Quanto à garantia de validade, ela pode consistir:
Finalmente, é importante esclarecer que a aplicação da ciência resulta na tecnologia, ou no conhecimento tecnológico.
A mais completa tradução do senso comum talvez sejam os ditados populares. A título de exemplo, eis alguns:
Alguns filósofos, definem a filosofia como a busca do Bem, da Verdade, do Belo e de como os homens podem conhecer essas três entidades. Portanto, a filosofia toma para si a árdua tarefa de debater problemas ou especular sobre problemas que ainda não estão abertos aos métodos científicos: o bem e o mal, o belo e o feio, a ordem e a liberdade, a vida e a morte.
Vamos a um exemplo de texto filosófico, em que um filósofo norte-americano, John Dewey, procura refletir justamente sobre o que é senso comum:
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Visto que
os problemas e as indagações em torno do senso comum dizem
respeito às interações entre os seres vivos e o ambiente,
com o fim de realizar objetos de uso e de fruição, os símbolos
empregados são determinados pela cultura corrente de um grupo social.
Eles formam um sistema, mas trata-se de um sistema de caráter mais
prático que intelectual. Esse sistema é constituído
por tradições, profissões, técnicas, interesses
e instituições estabelecidas no grupo. As significações
que o compõem são efeito da linguagem cotidiana comum, com
a qual os membros do grupo se intercomunicam. |
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Lógica,
VI, 6, J. Dewey |
Tradicionalmente, a filosofia se divide em cinco áreas:
Convém concluir lembrando que a ciência e o pensamento científico se originaram com a filosofia na Grécia da Antigüidade. Com o passar do tempo, certas áreas da especulação filosófica, como a matemática, a física e a biologia ganharam tal especificidade que se separaram da filosofia.
Veja por exemplo o seguinte soneto, escrito pelo poeta bahiano do século 17, Gregório de Matos, no qual ele dá a sua "visão" do braço de uma imagem do Menino Jesus que havia sido quebrada por holandeses protestantes, quando da invasão da cidade de Salvador:
| O
todo sem a parte não é todo; A parte sem o todo não é parte; Mas se a parte o faz todo, sendo parte, Não se diga que é parte, sendo o todo. Em todo sacramento está Deus todo, O braço de Jesus não seja parte, Não
se sabendo parte deste todo, |
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