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Física

Física e matemática

Duas ciências usam a mesma linguagem

Carlos Roberto de Lana*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Reprodução

Albert Einstein escreve uma equação para expor sua teoria

"Professor, eu detesto física!" Que aluno já não disse ou ouviu esta frase durante uma aula ou seu curso do ensino médio?

De minha parte, acho a física uma das disciplinas mais interessantes do currículo escolar. Ora, descobrir como o universo funciona pode ser muitas coisas, mas definitivamente não pode ser chato.

Isso é apenas uma questão de gosto, afinal, o que seria da literatura se todos preferissem a gramática?

Aulas de física
O problema é que, nos meus anos como professor, constatei que a maioria dos alunos não detesta física, detestam as aulas de física, o que é diferente o bastante para tornar a ciência preferida de sir Isaac Newton não apenas uma incompreendida - em mais de um sentido - como também uma injustiçada.

Vou tomar como exemplo uma situação ocorrida em uma aula que ministrei.

Como de hábito, primeiro explanei no quadro, as equações descritivas do princípio estudado ao que se seguiram os exercícios propostos, para a resolução dos quais os alunos sacaram prontamente suas modernas calculadoras eletrônicas, iniciando todos uma frenética seqüência de cálculos, antes mesmo de lerem os enunciados dos problemas.

Passados alguns minutos um dos estudantes chegou a um resultado final e solicitou minha verificação. Para esclarecer minhas dúvidas sobre a solução apresentada perguntei-lhe:

"A que solução você chegou?"

"Deu 2", respondeu-me o estudante.

"O que deu 2?", insisti.

"Deixe-me ver... Aaannh..., o alfa..., o alfa é igual a dois", complementou o aluno, referindo-se à letra grega que representava a grandeza física estimada.

Antes que ele desse o questionamento por encerrado, repliquei:

"Sim, mas o que quer dizer este 'alfa', o que ele representa?"

Recebi o silêncio como resposta.

Absurdos numéricos
O estudante havia calculado o valor numérico de uma letra grega como resolução de um problema de física e considerou seu resultado correto pelo fato de aquele valor numérico coincidir com o resultado esperado.

Só que é simplesmente absurdo considerar correto a resolução de um problema de física na qual o aluno não tem a menor idéia do que, afinal de contas, ele teria resolvido.

Todos aqueles estudantes estavam exercitando álgebra, embora pensando que estudavam física. Punham-se a calcular o valor de incógnitas sem associá-las a qualquer fenômeno natural. Determinavam a grandeza física representada por "alfa", "gama", "tau" ou "ni" exatamente como fariam com um valor de "X" ou de "Y", que não representam especificamente nada, além das quantidades numéricas que substituem nas equações.

Esta abordagem incorreta do estudo da física é profundamente danosa, por levar o estudante a crer que conhecer esta ciência é resolver equações e não entender os mecanismos dos fenômenos naturais.

Física e matemática
Física é a ciência da natureza e matemática é outra coisa bem diferente. Matemática é filosofia. O puro exercício da lógica expressa pela linguagem dos números.

Física é o conhecimento obtido da observação, teorização e experimentação de fenômenos naturais. Física se vale de conceitos para explicar fenômenos. Matemática é conceito.

A matemática, a rigor, não tem que observar, teorizar ou experimentar nada. Todas as suas leis se revelam no universo da inteligência e não necessariamente no universo natural. Matemática é abstração por excelência, senão como materializar os conceitos básicos da geometria plana?

  • ponto é um conceito geométrico que não tem comprimento, largura ou profundidade;
  • linha é um conceito que possui comprimento, mas não largura e profundidade;
  • um reta é infinita e possui infinitos pontos enquanto um segmento de reta é finito mas também possui infinitos pontos.

    Imaginação e matéria
    Estes conceitos podem ser imaginados e representados, mas não materializados.

    A física se ocupa do que é fato material, daquilo que - de uma forma ou outra -existe no mundo real. Matemática é a linguagem da física. As duas são ramos do conhecimento humano que mantêm entre si a mesma relação que existe entre a poesia e o idioma no qual ela se expressa.
  • *Carlos Roberto de Lana é engenheiro químico e professor.
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