O animal que dá origem ao personagem do
folclore brasileiro é um golfinho fluvial, o
boto vermelho ou
boto cor-de-rosa, cujo nome científico é
Inia geoffrensis, e também é conhecido pelos nomes indígenas de
piraia-guará e
pira-iauara. Este animal encontra-se na
bacia do rio Amazonas e na do Orinoco e nos seus principais afluentes no
Brasil, na
Bolívia,
Colômbia,
Equador,
Peru e
Venezuela.
Segundo a lenda, o
boto se transforma em gente - em geral, num rapaz branco - e vai aos bailes das populações ribeirinhas, tira as moças solteiras para dançar e as seduz. De madrugada, depois de namorar bastante, volta a ser
boto e desaparece nas águas do rio. Em geral, o rapaz usa um chapéu para esconder o orifício que os
botos têm no alto da cabeça.
São comuns os "causos" em que os
botos figuram como personagem. Conta-se, por exemplo, de um baile em que apareceram dois moços que dançaram com todas as garotas presentes e beberam muito. A uma certa altura da noite, os dois desapareceram. No dia seguinte, foram pescados dois
botos que exalavam cheiro de cachaça, quando foram abertos pelos pescadores.
Outro caso interessante é o de um rapaz que apareceu num baile promovido por pescadores. Por manter-se o tempo todo de chapéu, chamou a atenção dos homens que suspeitaram tratar-se de um
boto e resolveram tirar a questão a limpo. O rapaz se recusou a tirar o chapéu, fugiu e foi perseguido.
Quando chegava à beira do rio, os pescadores o acertaram com três arpões, mas ele mergulhou na água. Na manhã seguinte, encontraram flutuando na água um
boto morto em cuja carcaça havia três arpões.
O folclorista
Luís da Câmara Cascudo demonstra que o personagem é uma criação dos europeus e não aparece na mitologia indígena, na qual, porém, há alguns personagens semelhantes: 1) o
Ipupiara, um homem-peixe, que, no entanto, não se transforma, mantendo sempre a forma híbrida; 2) o
Uaiará, uma divindade de certas tribos amazônicas, que vinha acasalar-se com as índias.
O acasalamento é um ponto essencial da lenda: o
boto seduz e engravida as donzelas. Nesse sentido, ele serve de explicação para toda gravidez em que o pai é desconhecido e a expressão "filho de boto" é usada para denominar filhos de mães solteiras no
Amazonas e no
Pará.
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