A inesperada explosão subterrânea de uma
bomba atômica pela
Coréia do Norte, em 9 de outubro de 2006, provocou muito mais abalos políticos do que sísmicos. Até mesmo a China, tradicional aliada dos norte-coreanos, posicionou-se contrariamente ao governo de Pyongyang, a capital da República Popular Democrática da Coréia - nome oficial do mais novo membro do pequeno grupo de países que possuem armas nucleares.
Por que um país pequeno e pobre como a Coréia do Norte desenvolveu um programa nuclear com finalidades bélicas? O que leva seu teste com uma bomba atômica a provocar apreensão em países tão diversos quanto os Estados Unidos e a Rússia? E como a própria China e o Japão, adversários tradicionais, se uniram para protestar e propor sanções contra os norte-coreanos?
Evidentemente, a existência e proliferação de armas nucleares em qualquer país mundo já é motivo suficiente de preocupações e temores. Entretanto, para compreender melhor a questão da Coréia do Norte, é preciso conhecer a história desse país e a sua inserção no mundo e no Sudeste asiático, onde ele se localiza. Para isso, é preciso recuar no tempo até o fim da
Segunda Guerra Mundial, em 1945.
Guerra fria
Neste ano, a Coréia viu-se livre a invasão japonesa, mas os seus libertadores, a União Soviética, ao Norte, e os Estados Unidos, ao Sul, embora aliados contra o Eixo Alemanha-Itália-Japão, eram rivais na influência que pretendiam exercer no mundo do pós-guerra. Representavam sistemas econômico-políticos antagônicos: o
comunismo e o
capitalismo.
EUA e URSS dividiram a Coréia de acordo com seus próprios interesses geopolíticos, sem prestar grande atenção aos anseios coreanos. Era o início da chamada
Guerra Fria entre as duas nações que emergiram da Segunda Guerra como grande potências militares.
Até a década de 1990, quando ocorreu o colapso da URSS, os dois países (e regimes) se enfrentariam indiretamente em diversos locais do planeta, evitando um confronto direto. Como as duas potências dispunham de grandes arsenais nucleares, uma guerra entre elas podia significar - literalmente - o fim do mundo.
Paralelo 38
No norte da Coréia, a influência soviética se traduziu na implantação de um regime comunista e na proclamação da República Democrática Popular da Coréia em setembro de 1948, liderada pelo secretário-geral do Partido dos Trabalhadores Norte-coreanos,
Kim Il-Sung. A península coreana foi dividida no paralelo 38, ao sul do qual os Estados Unidos apoiaram o regime nacionalista de Singman Rhee, eleito o primeiro presidente da República da Coréia (ou Coréia do Sul).
Entre 1948 e 1949, apesar da tensão entre as duas Coréias, EUA e URSS retiraram suas tropas da região, mas quem apostava na permanência de uma situação pacífica entre os coreanos do norte e do sul viu suas expectativas frustradas em 1950.
Nesse ano, tropas norte-coreanas, com apoio soviético e chinês, atravessaram o paralelo 38, invadindo a Coréia do Sul e dando início a uma guerra que se estenderia até 1953. A
Organização das Nações Unidas condenou a invasão, o que permitiu aos Estados Unidos enviarem tropas em socorro dos sul-coreanos. Para evitar a derrota da Coréia do Norte, a China engajou suas tropas no conflito.
A intervenção chinesa fez a situação voltar à que havia em 1949, com a Coréia do Norte e a do Sul divididas pelo paralelo 38 e adotando, respectivamente, regimes comunista e capitalista. A partir daí, o desenvolvimento político e econômico dos dois países tomou rumos divergentes.
Dois modelos
Na Coréia do Norte, implantou-se uma ditadura comandada por Kim Il-Sung até 1980, quando o poder passou às mãos de seu filho
Kim Jong-Il. O regime se tornou autoritário, repressivo e cada vez mais militarizado. Com isso, a economia norte-coreana desandou. Considerada mais desenvolvida que seu vizinho do Sul até o começo da gestão Jong-Il, a Coréia do Norte vive desde então em permanente crise econômica.
Sua indústria (à exceção da bélica) declinou, o país tornou-se fundamentalmente agrícola, em condições geográficas adversas. Grande parte da sua população, de cerca de 23 milhões de habitantes, depende do auxílio humanitário de outros países para não morrer de fome.
Já a Coréia do Sul, que viveu sob ditaduras militares de direita dos anos 1960 até o fim dos anos 1980, evoluiu em direção à democracia, ao mesmo tempo em que - promovendo uma revolução educacional - tornou-se um país altamente industrializado e rico, ingressando no grupo de países conhecidos como Tigres Asiáticos.
A relação entre as duas Coréias conheceu momentos de distensão ao longo desse período que vem do fim da guerra aos dias de hoje, embora diversas crises tenham ocorrido esporadicamente. Os dois países aderiram à ONU em 1991 e assinaram tratados de desnuclearização da península.
Chantagem nuclear da Coréia do Norte
Desde 1998, entretanto, tornou-se fato notório que a Coréia do Norte desenvolvia um programa nuclear com fins militares. Na verdade, o governo de Pyongyang passou a usar a ameaça atômica como elemento de barganha para angariar recursos e auxílio econômico, provenientes principalmente da Coréia do Sul e do Japão, os alvos mais próximos e prováveis de um ataque norte-coreano.
Ao longo da década de 1990 e no início da década de 2000, os Estados Unidos procuraram conter diplomaticamente a corrida armamentista da Coréia do Norte, embora sua política tenha apresentado inflexões mais brandas ou agressivas, durante os governos de
Bill Clinton (1993-2000) e
George W. Bush (2001-2008).
Por enquanto, os desdobramentos do episódio do teste nuclear de 9 de outubro de 2006 são imprevisíveis. Os países que integram o Conselho de Segurança da ONU, formado por cinco membros permanentes (Estados Unidos, Rússia, Grã-Bretanha, França e China) e dez eleitos para atuar por dois anos, deliberam sobre que medidas tomar para conter a Coréia do Norte e evitar uma guerra.
Os norte-coreanos afirmam que farão mais testes nucleares e ameaçam reagir a quaisquer retaliações. A sorte está lançada: a paz no Sudeste asiático está mais uma vez em jogo.
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