
Retrato do presidente Getúlio Vargas. Óleo de W. Rodrigues. |
Nascido em 19 de abril de 1882, na cidade de São Borja, no Rio Grande do Sul, Getúlio teve sua vida e sua trajetória política esmiuçada nos versos dos poetas populares.
O gesto trágico de seu suicídio, em 24 de agosto de 1954, em especial, forneceu material abundante para os versos do cordel. A presença de Vargas atingiu tal dimensão que foram impressos e vendidos 2 milhões de folhetos sobre sua morte, num total de 60 títulos.
Este embate entre memórias é algo que os historiadores e pesquisadores de outras áreas das ciências humanas têm estudado minuciosamente. Além disso, é fundamental perceber o quanto os meios de comunicação influenciaram na criação de determinados imaginários. Entre esses meios pode-se incluir a literatura de cordel que, durante os anos dos governos de Vargas, funcionava como um verdadeiro jornalismo popular para os brasileiros, principalmente a população nordestina.
Essa literatura consegue captar os sinais emotivos de seu público, intensificá-los ou podá-los. O cordel demonstrou sua importância ao difundir valores e homogeneizar a imagem de Vargas como legítimo condutor do povo.
Nos anos de 1930 a 1945 e principalmente depois de 1937, com a introdução das leis trabalhistas, Vargas se torna a principal temática da literatura de cordel. Os poetas populares, por meio de uma linguagem específica, aproximam seu público dos fatos nacionais e internacionais mais relevantes. Deixaram, assim, no imaginário desse grupo, relativamente afastado de todo o aparato propagandístico mobilizado pelo Estado Novo, a imagem positiva de Vargas.
Como na maioria dos meios de comunicação, os folhetos demonstravam que Vargas encarnava as prerrogativas de um bom líder, capaz de captar e colocar em prática as aspirações populares. O mesmo era pregado pelo discurso do Estado Novo, no qual o chamado "pai dos pobres" sintetizava as características de infalibilidade e de compreensão das forças históricas.
O sorriso, o carisma, a personalidade e toda a construção ideológica sob a atuação política de Vargas colaborou para que parte da população brasileira não compreendesse o Estado Novo como uma limitação dos direitos civis do brasileiro. O poeta João Martins de Athayde (em "Homenagem da musa sertaneja ao grande chefe da nação Doutor Getúlio Dornelles Vargas e ao digno Interventor Pernambucano Doutor Agamenon Magalhães", 1938) tenta justificar o sistema:
| Liberdade exagerada Se transforma em escravidão O rico a esmagar o pobre Reduzindo à escravidão, A fome, a necessidade Daquele que não tem pão. |
Os pronunciamentos de Vargas vão se transformando em linhas mestras de conduta e os intelectuais ligados direta ou indiretamente ao regime se tornam intérpretes da nova ordem. Os poetas populares desenvolvem um papel parecido. Eles inclusive sabiam o quanto seus escritos tinham prestígio e poder. Vários políticos se valiam de seus folhetos para fazer propaganda política. Entretanto, é importante frisar que os poetas populares não eram financiados e nem ao menos preparados para exercer tamanha influência. Seus escritos respondiam às expectativas de seu público e obviamente não contrariavam o ideário da região, porque é da venda dos folhetos que muitos poetas populares tinham seu sustento.
No trecho que se segue, Manoel D'Almeida Filho cria um diálogo entre Tancredo Neves e Getúlio Vargas, no qual Vargas apresenta suas realizações - este trecho pode ser encontrado no folheto "Encontro do presidente Tancredo com o presidente Getúlio Vargas no Céu":
| Você sabe
que deixei O país passando bem Criei as leis trabalhistas Os institutos também Para que o povo não fossem Mais escravos de ninguém Criei o Salário Mínimo |
Assim, percebemos a importância e o alcance da literatura de cordel junto às camadas populares. Como afirmou Rodolfo Coelho Cavalcante, reconhecido poeta popular, em entrevista de janeiro de 1971: "O sertanejo sabe pelo rádio ou por ouvir dizer os acontecimentos importantes. Mas acredita só quando sai no folheto.
| Getúlio
Dornelles Vargas Estrela que não se apaga É astro que ilumina Zéfiro que não se apaga Rochedo que não desdenha É barco que não naufraga. Getúlio Dornelles Vargas Getúlio Dornelles Vargas |
Trecho do folheto “A vitória de Getúlio Vargas”, de Rodolfo Cavalcante. |
| Getúlio não
poupou tempo No palácio do Catete A lei era exercida Sem precisar do cacete Respondia qualquer carta Atendia até bilhete Governou este país Foram criados sindicatos |
| Trecho do folheto de Antonio Teodoro dos Santos |
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