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História Geral

Cuba (2)

Breve história de Cuba, de Cristóvão Colombo a Fulgêncio Batista

Rodrigo Gurgel*
Especial para Página 3 Pedagogia & Comunicação
Reprodução

José Martí, principal liderança pela independência de Cuba no século 19

Quando Cristóvão Colombo desembarcou em Cuba, em 28 de outubro de 1492, acreditou ter chegado à Ásia e obrigou a tripulação do navio a firmar uma ata na qual se declarava que a ilha - cujo nome, Juana, representava uma homenagem ao primogênito dos reis católicos, Juan de Castilla, herdeiro do trono espanhol - era, na verdade, um continente.

O erro seria corrigido alguns anos mais tarde, por Nicolás de Ovando, responsável pelo governo das "Índias" depois de Colombo, que mandou circunavegar o "continente".

A conquista do território foi iniciada por Diogo de Velásquez, mas o representante dos espanhóis encontrou o primeiro opositor da história cubana: o cacique Hatuey, que fugira dos espanhóis no Haiti, mas que, em Cuba, acabou sendo queimado vivo.

Monocultura e escravidão

Seguindo a prática comum do amplo processo de colonização das Américas espanhola e portuguesa, a população indígena foi submetida a um regime de trabalho escravo, exaustivo, de maneira que já não existiam índios habitando a ilha no século 16.

O escravo de origem africana, exatamente como ocorreu no Brasil, também seria amplamente utilizado, representando uma alternativa de mão-de-obra barata. E o sistema da monocultura, outra característica comum às colônias espanholas e portuguesas, elegeu o açúcar e o tabaco como produtos preferenciais.

As primeiras sedições acontecem no início do século 18. Com a alta do preço do tabaco, as "vegas" (amplos terrenos semeados com tabaco) passam a produzir grandes lucros. A Espanha, então, decreta, em 1716, a Lei do Estanco, proibindo os "vegueros" de vender livremente sua produção. Contra o monopólio espanhol, uma série de rebeliões - a Insurreição dos Vegueros - ocorre na ilha, mas os chefes acabam enforcados em 1723.

Sociedade secreta

Em 1821, sob influência dos processos de independência da Colômbia e da Venezuela, surge a sociedade secreta "Soles y Rayos de Bolívar", que se ramificou por toda a ilha. Os conspiradores, que pretendiam tornar Cuba independente, são delatados e condenados à prisão e ao exílio.

O movimento de independência, no entanto, segue gerando conspirações, nascidas na própria ilha, no México, ou entre os emigrantes cubanos que, durante todo o século 19, partiam em grande número para os Estados Unidos da América (EUA). Todas essas conjurações foram severamente reprimidas.

Muitas das lideranças políticas daquela época acreditavam que a melhor solução para o país seria Cuba tornar-se um Estado dos EUA. As idéias de anexação difundiram-se a ponto de, ainda no século 19, haver uma onda de propaganda que procurou mobilizar a sociedade no sentido de transferir Cuba do jugo espanhol para os braços dos norte-americanos.

O líder desses grupos, Narciso López, um militar venezuelano, oficial do exército espanhol, emigrou para os EUA e lá organizou três expedições - todas frustradas - com o objetivo de ocupar a ilha. López foi condenado à morte em 1859. Várias expedições continuaram sendo organizadas, sem jamais alcançar sucesso. Algumas, inclusive, fracassaram devido à interferência das próprias autoridades norte-americanas.

A Guerra dos Dez Anos

Após um período durante o qual a Espanha tentou realizar reformas que pudessem conciliar os interesses da monarquia e dos latifundiários cubanos - reformas, aliás, que só serviram para aprofundar os ressentimentos de espanhóis e cubanos -, teve início a Guerra dos Dez Anos, uma reação dos grandes proprietários de Cuba contra as leis comerciais espanholas.

Em 1868, sob a chefia de Carlos Manuel de Céspedes, a revolta se generalizou nas províncias orientais da ilha. Entretanto, depois de algumas vitórias dos revoltados, os espanhóis começaram a ganhar força no final de 1869. De nada adiantou o apoio de alguns países latino-americanos ou a simpatia dos EUA. A repressão implacável do exército espanhol e as divisões internas dos revolucionários impediram que o movimento prosperasse. Em 1874, o declínio já se anunciava inevitável.

Após a Guerra dos Dez Anos, uma trégua, entre 1878 e 1895, permitiu o surgimento do Partido Autonomista, que divergia dos separatistas radicais e dos espanhóis entreguistas. Pretendendo conquistar a autonomia de Cuba dentro do quadro institucional da monarquia espanhola, o movimento não alcançou êxito, em parte devido às oscilações políticas da monarquia, em parte devido às pressões dos espanhóis instalados em Cuba.

A Guerra da Independência

Com o adiamento da autonomia, a idéia de independência ganhou nova força em Cuba e entre os exilados, nos EUA. José Martí tornou-se, a partir de 1887, a principal liderança dos emigrados independentistas, desenvolvendo intensa propaganda para influenciar a opinião pública. Ele funda, então, o Partido Revolucionário Cubano (1891), que passa a organizar, sob o comando de Máximo Gómez, a guerra de libertação.

Quando o ataque estava pronto, a expedição que pretendia chegar a Cuba foi frustrada por ordem do presidente norte-americano, Stephen G. Cleveland. Mesmo tendo os navios repletos de armamentos apreendidos, os conspiradores não desistiram. Em fevereiro de 1895, a rebelião teve início. José Martí seria morto logo depois, lutando contra uma unidade militar espanhola.

Em outubro de 1895 os rebeldes haviam ocupado uma larga faixa territorial, do Oriente ao Ocidente da ilha. Evitando batalhas em campo aberto, nas quais certamente levariam desvantagem em relação aos exércitos espanhóis, optaram pela guerrilha, fazendo incursões ofensivas de surpresa e incendiando os canaviais dos que não os apoiavam.

Mas os espanhóis não se intimidaram. Uma medida extremamente impopular e desumana contribuiria para enfraquecer o movimento de independência: a chamada "reconcentración", isto é, a distribuição, em campos de concentração, nas cidades e povoados, de milhares de famílias de camponeses, coniventes ou suspeitos de conivência com os revoltosos. As más condições sanitárias e a falta de alimentos causaram cerca de 50 mil mortes.

Os campos de concentração e a repressão do exército enfraqueceram os revolucionários. A luta seguiu, entretanto, e em novembro de 1897 o governo espanhol, depois de acabar com a "reconcentración", outorgou autonomia a Cuba, com vigência a partir de 1898.

Intervenção dos EUA e Emenda Platt

Fatores externos, contudo, abalaram o processo de independência. A rebelião cubana causava prejuízos aos vultosos interesses dos norte-americanos, que dominavam a indústria açucareira e o comércio exterior de Cuba. Em 1896, o presidente dos EUA, William McKinley, já se mostrava favorável à intervenção em Cuba. Em fevereiro de 1898, por razões desconhecidas até hoje, o couraçado norte-americano Maine, que fora enviado a Havana para proteger os bens e as vidas dos cidadãos norte-americanos, explodiu e morreram 260 tripulantes.

Assim, apesar de todas as tentativas diplomáticas do governo espanhol, a intervenção norte-americana eclodiu. As forças navais dos EUA destruíram a pequena esquadra espanhola no Atlântico. Em terra, o exército espanhol, encurralado, rendeu-se no mês de julho. Em dezembro, por meio do Tratado de Paris, a Espanha cedeu Cuba aos americanos. A ocupação durou de 1º de janeiro 1899 a 20 de maio de 1902.

Em 1901, uma assembléia constituinte, convocada pelo governo militar dos EUA em Cuba, redigiu a primeira constituição cubana, aprovada pelo senado norte-americano, mas somente depois de incorporar ao texto a chamada Emenda Platt, que dava aos EUA o direito de intervir na ilha "para a preservação da independência cubana e a manutenção de um governo adequado à proteção da vida, propriedade e liberdade individual".

Não haveria qualquer exagero em afirmar que os rancores produzidos pela Emenda Platt repercutem até hoje na sociedade cubana. A transformação de Cuba em protetorado norte-americano amargou as relações diplomáticas dos dois países, inclusive pelo fato de, entre 1901 e 1934 - período durante o qual a Emenda Platt esteve em vigor -, os EUA terem invadido a ilha em três ocasiões.

Na última delas, uma tentativa de apressar a queda do presidente Gerardo Machado, que transformara seu segundo mandato em uma ditadura, ocorreu a ascensão ao poder de Fulgêncio Batista. A ilha passa, então, a viver os momentos históricos que antecedem a revolução de Fidel Castro, que lhe dará papel de protagonista mundial em sua história recente.

Sugestão de leitura

- Cuba: uma nova história, Richard Gott, Editora Jorge Zahar, 2006.

Bibliografia

- História da América Latina, Halperin Donghi, Círculo do Livro/Editora Paz e Terra, s/d.
- América Latina - estruturas sociais e instituições políticas, Jacques Lambert, Companhia Editora Nacional, 1972.
- Era dos extremos - o breve século XX (1914-1991), Eric Hobsbawm, Editora Cia. das Letras, 1995.
- Enciclopédia Mirador Internacional.
- Cuba (coletânea de artigos organizada por Manuel García).

Rodrigo Gurgel* é escritor, crítico literário e editor de Palavra, suplemento de literatura do Caderno Brasil do Le Monde Diplomatique (edição virtual).
Os textos publicados antes de 1º de janeiro de 2009 não seguem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A grafia vigente até então e a da reforma ortográfica serão aceitas até 2012

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