
Um enunciado pode ser uma palavra, uma expressão, uma frase, etc., com sentido completo. Assim, quando estamos num hospital e lemos a palavra "silêncio", lemos um enunciado. Entendemos que ali devemos fazer silêncio, porque há pessoas doentes que precisam de tranqüilidade para se recuperar. A palavra "silêncio", numa situação comunicativa particular (num aviso no interior de um hospital, por exemplo) tem para quem a lê o status de um enunciado. Os diferentes sentidos que atribuímos às palavras, às expressões e às frases, etc., aprendemos ao longo da vida nas diversas situações de interação em que usamos a linguagem e uma língua em especial.
Situações comunicativas
Quando aprendemos uma língua estrangeira, é fundamental procurarmos fazer uso dela nas mais diferentes situações comunicativas. São elas que exigirão de nós a elaboração de enunciados, a reformulação desses enunciados em função das respostas que nos são dadas e a compreensão de enunciados elaborados por outras pessoas. Assim, aprendemos que palavras, expressões, frases, etc., ganham significados diferentes nas mais variadas práticas de linguagem das quais participamos.
Toda a nossa preocupação, então, é no sentido de pensarmos em fazer o melhor uso da linguagem. Isto é, de que buscarmos adequar nossos enunciados aos nossos interlocutores, ao contexto em que se dá a situação comunicativa, ao gênero textual que utilizamos e às intenções que temos com aquele texto.
Essa reflexão torna-se cada vez mais possível quando produzimos textos escritos ou textos orais para situações comunicativas formais que exigem elaboração prévia. Essas são ocasiões em que podemos nos distanciar do texto e reformulá-lo para atender os propósitos de comunicação antes de que ele chegue ao(s) nosso(s) interlocutor(es).
Coesão e coerência
No que se refere à produção escrita, já enfatizamos a importância da revisão textual para garantir que o texto concretize, da melhor maneira, aquilo que pensamos em escrever, naquele momento e para aquela(s) pessoa(s). Nesse sentido é que vale a pena estudar os elementos textuais que têm como finalidade construir as significações. Para tanto, devemos pensar nos elementos que garantem a coesão e a coerência do texto.
Quando pensamos em coesão textual, pensamos no emprego de determinados elementos da língua que garantem a boa articulação do texto, tornando-o compreensível. O estudo da coerência diz respeito aos elementos da situação de comunicação (quem escreve, para quem e com que intenção) e àqueles que garantem que existam relações entre as idéias, que haja harmonia entre elas, criando tanto uma unidade de sentido, quanto uma ausência de contradição. No momento da revisão textual, trata-se, portanto, de aprimorar o texto tanto no que se refere à articulação entre as partes (coesão), como em relação ao nexo, à harmonia entre as partes que o compõem e a adequação do texto à situação comunicativa (coerência).
Como já abordamos alguns aspectos relativos à coesão, vamos centrar nossa análise textual aqui na coerência. Propomos que você leia a carta abaixo. Ela foi escrita por um correntista de um banco para o gerente da instituição com a intenção de conseguir um empréstimo para se matricular num curso.
| Dear
Mr. Anderson,
As you probably know, I have done about two years as a librarian at the Central Records Office, just round the corner from your bank, in fact, but I do not really think it is the sort of job I can do much longer. Anyway, I was at this party the other day and I met a friend and he told me about a great course you can do at the Oxford Business School, and my brother thinks I would get a good job if I did it. Do you think I could come and see you, and talk about a bank loan? About $200 would be enough. I'm looking forward to your letter. I hope you'll say yes. Yours sincerely, Jeremy
Brown |
Algumas incoerências
Note que a carta apresenta problemas de coerência, sobretudo em relação à inadequação da linguagem informal para uma situação comunicativa em que a formalidade é exigida. Formas lingüísticas como "as you probably know", "just round the corner from your bank", "I was at this party the other day and I met", "you can do", "my brother thinks" e "I hope you'll say yes" poderiam ser eliminadas do texto, porque não adicionam nada de significativo ao que está sendo dito e, ainda, não são adequadas para compor uma carta endereçada a um gerente de banco, mas a um colega ou um amigo.
Outras formas como "I have done about two years as a librarian", "a great course", "I'm looking forward to your letter" deveriam ser substituídas. E, assim, poderíamos ter "I have been working as a librarian", "an interesting course" e "I look forward to your letter", respectivamente - todas elas mais formais e menos coloquiais do que as anteriores.
Um outro elemento a destacar é o fato de que a carta está mal organizada. Veja que o primeiro parágrafo não aborda a intenção do texto, ou seja, não esclarece o motivo da elaboração da carta, o que só fica evidente no terceiro parágrafo. Além disso, o texto não explicita a relação existente entre o empréstimo solicitado e o curso pretendido. Cabe ao leitor estabelecer essa relação, o que revela sua fragilidade em termos de coerência.