Você já deve ter ouvido falar na dificuldade que muitas pessoas têm para ler textos poéticos escritos em sua língua materna. Imagine a dificuldade que enfrenta aquele que lê um poema em língua inglesa. O desafio é grande não apenas porque o leitor pode não dominar bem o inglês, mas porque os textos literários veiculam signos culturais, que muitas vezes não são acessíveis àqueles que não estão inseridos nessa cultura e, ainda, veiculam esses signos por meio de uma linguagem nada comum.
Para falar de linguagem poética, temos que iniciar uma conversa sobre textos literários. Esses textos reúnem todos os textos ficcionais (contos, fábulas, parábolas, novelas, romances, etc.) e têm como característica principal a linguagem conotativa, ou seja, não dicionarizada. Em função disso, esses textos são marcados pela pluralidade de significados que lhes podem ser atribuídos. Quem os lê tem a liberdade de interpretá-los.
Sentido figuradoA presença da linguagem conotativa ou de sentido figurado faz com que os textos literários não sejam imediatamente acessíveis. Por isso, dizemos que a leitura desses textos exige do leitor dedicação e compromisso com uma linguagem que nada se aproxima do imediato, da objetividade, do superficial. Desvendar essa linguagem pode ser trabalhoso, mas também muito gratificante.
Uma aproximação com relação a esse tipo de texto ao mesmo tempo que exige do leitor reflexão, disponibilidade para ir ao encontro de sua própria interioridade, vontade de conhecer o mundo, os outros e a si mesmo, também revela como os homens de uma determinada época viviam, o que pensavam, quais eram seus dilemas e suas preocupações.
A atualidade literáriaComo os temas tratados nos textos literários, em geral, se referem a grandes dilemas da humanidade não é difícil uma pessoa que vive em um outro momento histórico se identificar com os dilemas de seus antepassados. Por isso dizemos que o texto literário tem uma data de publicação, mas não morre, nunca se torna ultrapassado.
A presença da linguagem figurada nos textos literários revela, do mesmo modo que outros elementos, a busca pela perfeição estética. Os textos ficcionais privilegiam a mensagem pela própria mensagem, isto é, seus autores estão preocupados em combinar diferentes elementos da língua de acordo com padrões estéticos que possam causar uma impressão de beleza no leitor. Por isso, a leitura desses textos requer que o leitor desvende o alcance e a significação dos diferentes recursos usados (símbolos, metáforas, comparações, etc.) e seu efeito para a estética do texto.
O poema, um texto em particularO poema é um texto literário geralmente escrito em versos agrupados em estrofes. Essa distribuição espacial peculiar e o ritmo dos versos, que chama a atenção para o valor sonoro das palavras, são suas marcas mais significativas.
A rima é também uma característica distintiva do poema, mas não obrigatória. Há versos sem rimas, os versos brancos ou soltos de uso freqüente na poesia moderna.
Por não se caracterizarem por uma trama narrativa, os poemas apresentam uma dificuldade ainda maior para seus leitores. Isso porque a linguagem expressiva, muitas vezes descritiva, está apoiada em imagens (metáforas, analogias, comparações) que nem sempre contam com elementos que facilitam sua revelação como no caso de textos narrativos.
Um texto de Ezra PoundComo exercício de leitura, analisaremos um poema de Ezra Pound. Antes, porém, vamos saber um pouquinho sobre o autor.
Pound (1885-1972) é um poeta americano que morou a maior parte de sua vida na Europa. Foi uma pessoa muito controvertida porque chegou a apoiar o fascismo no tempo da guerra. Foi, depois, conduzido a um sanatório. Sua obra, no entanto, é altamente reconhecida nos meios intelectuais.
Conheça um de seus poemas:
Meditatio
When I carefully consider the curious habits of dogs,
I am compelled to conclude that man is the superior animal.
When I consider the curious habits of man,
I confess, my friend, I am puzzled.
Ezra Pound
O título do poema é "meditatio" palavra latina que deu origem ao vocábulo meditação em português. Observe que o texto tem início com uma reflexão acerca dos hábitos curiosos dos cães. Logo em seguida, o texto sugere uma analogia. Sugere que o leitor compare os hábitos curiosos dos cachorros com os hábitos dos homens. E termina dizendo que ao fazer essa comparação é forçado a concluir que o homem é um animal superior.
No entanto, quando o texto sugere que se considere os hábitos curiosos do homem, o poeta confessa que fica perplexo. Veja você que a tradução ajuda, mas não resolve. O sentido reside no movimento de desvelar a analogia, de refazer as aproximações sugeridas pelo texto. É esse recurso que permite ao leitor igualar os homens a cachorros quando considera os hábitos curiosos dos primeiros. E assim, indagar (implicitamente) se os homens são animais superiores.
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