Erros
Se você estiver atento, é possível aprender com eles
Celina Bruniera*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Você já notou que, quando aprendemos uma língua estrangeira, muito daquilo que sabemos sobre a nossa própria língua nos serve de referência? Pois é, há alguns anos, ouvíamos em aulas de inglês que para aprender uma nova língua era preciso pensar nessa língua, afastar todo o conhecimento que tínhamos do português. Esse afastamento era considerado necessário porque achava-se que ele poderia atuar como uma "interferência" negativa no processo de aprendizagem do inglês ou de qualquer outra língua.
Esse enfoque tem sido objeto de muitas ponderações hoje. Se pensarmos nos aprendizes de uma língua como sujeitos ativos, ou seja, como pessoas que atribuem significado a novos conhecimentos, que constroem hipóteses acerca deles, então podemos considerar que esses aprendizes usam todo o repertório lingüístico que possuem para fazerem esse movimento de aproximação em relação à nova língua.
Transferência de "regras"
Nessa perspectiva, os erros que você comete ao aprender inglês não são um simples resultado da transferência de "regras" que caracterizam sua língua materna. São, no entanto, índices dos movimentos que você faz para atribuir sentido ao novo, seja com base no conhecimento lingüístico do português, de uma outra língua ou mesmo do repertório que você já possui em relação ao próprio inglês. Assim, classificamos os erros como interlinguais ou intralinguais.
Vejamos alguns exemplos. Os falantes do português quando aprendem inglês mostram bastante dificuldade no uso do verbo there to be (haver, existir). Ao procurarem dizer "houve uma festa na minha casa ontem", dizem "had a party at home yesterday", em vez de dizerem "there was a party at home yestarday". Isso acontece porque o aprendiz está usando como referência o uso que ele faz da língua portuguesa para compor seu enunciado. É bastante evidente que a referência seja "teve uma festa na minha casa ontem", maneira pela qual nos expressamos, em português, nas situações mais informais.
Ocorre que, mesmo em português, essa forma de expressão é considerada inadequada para a grande maioria das situações de comunicação. Note que ao refletirmos sobre os erros que cometemos ao aprender a língua inglesa, podemos aprender a nos expressar melhor tanto em inglês como em português.
Erro intralingual
Observe, agora, um exemplo de um erro intralingual. Sabemos que, ao elaborarmos um enunciado na 3ª pessoa do singular do presente simples, os verbos ganham, em geral, um s ou es. Assim, dizemos "I usually wake up early" e "he usually wakes up early". Ao analisarmos os erros dos aprendizes, é comum encontrarmos a generalização do uso do s do presente simples quando se expressam por meio dos verbos modais. Em vez de dizerem "He can drive a car", os alunos dizem "he can drives a car". Em enunciados em que figuram os verbos modais (can, must, should, may, etc.) não empregamos as regras do presente simples.
Nesse último exemplo é interessante observarmos que o erro cometido não revela apenas o que os alunos não sabem (como elaborar enunciados usando um verbo modal), mas o que eles já aprenderam (a flexão do verbo na 3ª pessoa do singular no presente). Ao elaboararem uma hipótese sobre o uso do verbo can, generalizando uma regra que vale para o presente simples, os alunos estão tomando como referência o repertório lingüístico do inglês.
Tente, também, analisar os erros que você comete ao aprender inglês. Eles podem revelar muitos aspectos interessantes do seu processo de aprendizagem.
* Celina Bruniera é mestre em Sociologia da Educação pela USP e assessora educacional para a área de linguagem.
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